Álbum de Família: A vida empalhada

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados”.

Assim começa, “ Os homens ocos”, poema de T. S. Eliot. Cheguei até ele pelo cinema. “Álbum de família”, do diretor John Wells para ser mais precisa.

Empalhado é uma palavra que gera um certo desconforto. Palha, por constituição é algo seco, árido ao roçar das mãos. É morte que quer ficar. Não muito distante dos laços empoeirados e arredios da família Weston.

Violet (Meryl Streep) é a mãe. Bárbara (Júlia Roberts), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis) as filhas.

Reunidas pelo último ato do pai, um suicídio calculado. Motivado, talvez, pela leitura atenta e interna dos versos de T. S. Elliot:

Nossas vozes dissecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas

albumdefamilia2E só a agua para lavar a poeira. É o que fazem no almoço de família post mortem em que os outros estão presentes: Bill (Ewan McGregor), marido de Bárbara e pai da adolescente Jean (Abigail Breslin), Steve (Dermot Mulroney) noivo de Karen, Mattie Fae (Margo Martindale), casada com Charles (Chris Cooper), irmã de Violet e mãe de Little Charles (Benedict Cumberbatch) na adaptação para o cinema de “August: Osage County”, de Tracy Letts.

“Aqui rondamos a figueira-brava”, escreve T.S.Elliot e a água não lava. Ela está em ponto de ebulição. Seja do calor desértico de Oklahoma, ou da abrasividade da língua. Sem papas.

Como os dedos da mão, estão ligados, mas cada um é de um jeito. Um é a continuação do outro, mas entre eles, há um vácuo. Para não dizer, uma depressão.

Depressão, no sentido de um buraco. A família, unida, é a mão em contração. Fechada. A força vem do cerco e a protagonista de “Álbum de família”, Violet sufoca sem mesuras. O câncer está na boca.

Amargo contrabalançado pelo sabor da comida preparada com ancestralidade por Johnna (Misty Upham), uma índia americana, último legado do poeta Beverly, antes de morrer.

O olhar dela, ao contrário dos Weston, é terno e testemunha o hábito que congela.

Desconfio da palavra hábito e da sua presumível segurança.

E nesse tempo que prepara para um novo ano, os dias, desejos e personalidades são enclausurados numa camisa de força. Rotinas impostas que atropelam como quando estoura a manada. É para correr. Não importa para onde, nem a sua significância.

Famílias gostam de retratos e neles sorriem. A moldura da fotografia amarelada na parede está inerte, quer em Oklahoma ou no comércio na esquina da 25 de março com a rua Maria Benedita, em São Paulo.

Poeira baixa do comprar, é o único a abrir no dia de Natal. O repórter quer saber a motivação e o dono responde: “É só pelo hábito. Trabalho porque tem que trabalhar”.

É um falso movimento. Uma trilha batida socialmente aceite. Trabalha-se, produz-se. O sistema agradece e engole.

Tanto é assim que avisa: “Eu não sou notícia!” ao pedir para não ser fotografado.

“Álbum de família”, oferece uma violência mofada de um verde arenoso que lembra golfadas de vômito. Um redemoinho em que se reconhece o quanto somos e, às vezes, no susto parecidos com nossos algozes.

Bárbara (Júlia Roberts) se vê espelhada na mãe (Meryl Streep) e foge de pijama em apressada correria para não enfrentar o que de si tem do outro.

“ A vida é muito longa”…

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

5 thoughts on “Álbum de Família: A vida empalhada

  1. Vivi!! Sua querida!

    Família é uma coisa muito louca. Perdi meu pai, e ouvi falar que esse filme é sensacional, e agora lendo sua coluna presumo que tenho que assisti-lo imediatamente.
    A vida é longa, mas será? Para mim já fazem 24 anos, e parece que foi tudo ontem.
    Quando comecei a ler as primeiras linhas que você colocou do poema, pensei em suicídio. Porque assim as coisas acabam logo. Enquanto a julia roberts corre apressada para não enfrentar o que tem de si no outro, eu corro sempre na direção oposta de mim e dos meus desejos. Porque o medo é uma coisa poderosa demais.
    Tenho que parar de fazer isso. Porque a vida é longa.
    Vivi reza para mim, tô precisando, reza para que eu tenha coragem de fazer cinema.

    Um beijo com todo meu carinho.

  2. Esse filme é uma verdadeira porrada. Nao dá para sair dele como se entrou. Parabens, Vivi, pelas suas observações.

  3. Sincronicidade perfeita!!
    Acabei de ler a crítica do filme e, agora, esse deleite produzido pela Vivi.
    Muito obrigada, querida!
    Ao cinema, lá vou eu!!
    Beijos,
    Fabi

  4. Crítica muito bem-feita, Vivi! Realmente, a deduzir de seu texto, um filme obrigatório para quem aprecie a qualidade artística. Parabéns!

    Beijos,

    Bárbara

  5. Fui assistir e saí do cinema acalorada, por Oklahoma e pela história da família, das famílias, que se repetem.
    Amei a cena do Livin la vida loca. rsrsrs

    beijos

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