O Aniversariante

Eu gostaria de ter escrito uma nova mensagem de Natal mas, a cada ano acho mais difícil conseguir, a cada ano acho mais difícil entender como é possível que esperemos o ano todo para fazer uma festa de aniversário e continuemos –  ao menos a maioria de nós – não convidando o Aniversariante.

Acabei, então, compartilhando novamente este conto, escrito no primeiro ano deste século.

Que ele possa nos levar à reflexão, ao despertar da gratidão e à implementação das mudanças necessárias para construirmos uma sociedade melhor, mais justa, mais amorosa e mais feliz.

Receba cada um o meu mais fraterno abraço,

Carlos.

O Aniversariante

Noite de festa e luzes.

Já na antevéspera, a loucura que se repetia todos os anos; a mesma azáfama e a correria usuais.

A casa sempre fica cheia.

São muitas as pessoas da família e ainda há alguns convidados.

A cozinha parece um grande mercado, onde impera a fartura e onde se vêem doces, salgados, carnes (assadas, cozidas) e frutas dos mais variados tipos e origens.

O pinheiro natural, enorme, alcança o teto da sala. Sala de casa antiga, com pé direito bem alto. A base da árvore toda colorida pelos papéis e pelas fitas nos embrulhos de presentes. Os enfeites, então, de inimaginável beleza.

Luzes adicionais dão à casa o brilho e a luz que a ocasião merece. Afinal, é véspera de Natal – data muito especial – uma festa que acontece somente uma vez no ano.

Comida farta e bebidas dignas de  qualquer restaurante famoso.

Crianças correndo pelo jardim e pelas alamedas floridas.

Logo mais, porém, a chuva as obriga a se retirarem para o interior da casa. A alegria e o colorido da energia vibratória dos inocentes, mesmo contidos, enche de energia positiva aqueles ambientes.

O esperar pela ceia – após meia-noite – é obrigação indispensável, mas às crianças faz-se “vistas grossas”. Entretanto, para que elas não se sintam privilegiadas, uma avó ou então uma tia mais velha – geralmente solteirona – é quem faz o papel da transigente e atende “sem que ninguém mais saiba”, aos estômagos famintos dos pequenos.

Os mais novos, aos poucos vão “caindo” pelas poltronas e adormecendo. Os mais graúdos vão agüentando, toureando o sono, à espera dos presentes.

Os adultos proseiam, fazendo hora e viajando ao sabor das memórias, das relembranças. Estão todos tão entretidos nas conversas, que nem atentam para o som cavo da velha campainha, soando lá na cozinha.

É a copeira quem vem avisar à dona da casa que tem alguém no portão.

Uma vez que todas as pessoas da casa e todos os convidados já estão presentes, ela diz à empregada para atender.

Naquela casa ninguém toma qualquer iniciativa que não seja por determinação da “patroa” e a copeira volta, dizendo que está no portão um jovem pedindo comida.

Ora! Exclama a senhora.

Apesar de sentir pena, não acha justo dar de comer a um estranho antes de servir os da casa…

Enfim se decide e manda a empregada dizer que não tem nada pronto que se possa oferecer.

A jovem sai imediatamente, mas tem os olhos banhados em lágrimas e o coração apertado de tristeza.

Ao passar pela copa, sorrateiramente lança mão de algum alimento para oferecer ao pedinte, que a essa altura já está com a roupa encharcada pela chuva e tem os longos cabelos escorridos pelos ombros.

No ato em que ele estende os braços para recolher o pequeno embrulho que ela lhe passa por entre as grades do portão, as suas mãos retêm as dela.

Olhando no fundo daqueles olhos úmidos – ele diz:

“Que o Pai Nosso abrande todas as penas deste nobre coração; que a paz esteja convosco e com todos nesta casa”.

Aí, então, um clarão se fez, tão intenso, que parecia ter amanhecido.

Ao correrem todos, para ver o que sucedera, encontraram a jovem desmaiada e com um sorriso nos lábios.

O CineZen é um site independente sobre cinema, DVD e Blu-ray, TV e eventualmente literatura, quadrinhos, teatro, música e artes plásticas, lançado em 29 de março de 2009. Tem o objetivo de informar, analisar obras e cobrir eventos dessas áreas (com atenção para a Baixada Santista), prestar serviços e atuar no incentivo ao cinema nacional.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *