Para que serve o amor?

“Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido”.

Enlou-cresça recomenda o poeta. Olho de soslaio para a dupla proposta: primeiro enlouqueça e depois cresça. Certo é que a junção, origina algo novo com um pouco das duas. Assim, como os filhos com as lembranças (e loucuras) de seus pais.

Penso no inverso: cres-enlouquecer. Desgosto, num primeiro olhar, porque me chama para a luta. Fala de crise. E das intensas. Ao contrário da sugestão do poeta, que é direcionada e oferece uma solução depois de tudo, a de minha autoria, é circular.

Gato com o rabo na boca.

Releio Carlos. A loucura é suave, uma pitadinha. Dá para encarar – penso. E reparem como a minha estruturação é mental. Nada a ver com sentimentos e corações pulsantes. Parece, diz ele, que nada faz sentido sem essa sensação apimentada de óculos cor-de-rosa. Gosto da combinação de rosa com vermelho. Tom que transita entre a paixão e o amor. E também é circular. Ou em cima do muro.

Enquanto reflito sobre o tema, uma figura a mais pousa no galho do meu imaginário.

Um oito.

Sim, o número, mas um pouco mais que um algarismo. O símbolo do infinito e entenda ai uma intersecção, uma comunicação em um ponto que é comum. O circular enlouquece, multiplica-se e cresce.

O oito deve ser o número mágico para que o namorado apareça.

Ecoem em voz alta oitos por todo o universo (se é esse o seu desejo), talvez dissesse o poeta.

Mas, ele se perguntaria para que serve o amor? A importância não está na formulação conceitual do sentimento, mas na essência dele. É uma hipótese de resposta poética, mas a inquietação ainda é viva.

“Para que serve o amor?”, curta de Louis Clichy dá uma pista a partir de dueto musical de Edith Piaf e Théo Sarapo.

Ambientado numa Paris desenhada a lápis, um casal, frágil e descontínuo, se pergunta sobre a necessidade de algo que é “uma tristeza maravilhosa”, conforme afirma a canção. Algo dúbio, por certo, que deixa uma fresta sempre aberta para escapar em movimento. Recordo-me de um camaleão, que muda de cor, conforme a temperatura. Estabilidade zero para concretizar a imagem.

E a sabedoria popular, continua a responder, e avisa que o amor decepciona, e que há sempre um que não está contente.

Um carrossel, que sobe e desce, e no sentido contrário também anda.  E o vento afasta os cabelos abrindo a visão e também cega quando tampa os olhos. Depende do ponto da engrenagem.

“Tudo isso é muito lindo, Mas quando acaba, Não lhe resta nada. Além de uma enorme dor”, argumenta Théo.

Edith, bem intencionada, tenta convencê-lo das maravilhas do amar e ser amado.

Os argumentos são fortes: “Tudo agora que lhe parece rasgável, amanhã será para você, uma lembrança de alegria”.

Significa então, que há algo descartável nessa equação. Compreendo a desconfiança inicial de Théo, mas parece que a sedutora Piaf (ou será o amor), amoleceu seus miolos e coração. “Em resumo, entendi, que sem amor na vida, sem essas alegrias, sem essas tristezas, nós vivemos para nada”.

Et voilá! A flecha do cupido foi certeira. Théo enlou-cresceu.

E ela não deixa por menos: “Mas você, você é o último, mas você, você é o primeiro, Antes de você não havia nada, Com você eu estou bem”.

Quase desmaio.

O amor serve para isso? Estou decepcionada com um sucumbido Théo. Ou será comigo, por não conseguir ainda entender o que Piaf teima em me dizer?

“Ainda – ouço Drummond baixinho ao meu ouvido – é só um pouquinho”.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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