A Moreninha: Lembramos do clássico musical dirigido por Glauco Mirko Laurelli

Na paisagem de tirar o fôlego, vemos sentada uma linda moça num grande rochedo, olhando a imensidão do mar azul à sua frente, cabeleira negra imensa ao vento, cantando uma canção de amor sobre sua solidão:

“Se eu pudesse, como a gaivota, riscar na distância o azul do horizonte, sumir nas ondas, de espumas brancas…”

É Carolina, considerada a primeira heroína de nossa literatura, na obra imortal de Joaquim Manoel de Macedo e aqui representada com perfeição pela linda, jovial  e travessa Sonia Braga, já mostrando seus múltiplos talentos em seu primeiro papel como leading lady.

O amado clássico do autor é considerado um pioneiro – a primeira obra do romantismo brasileiro -, um sucesso que cativou enorme número de leitores na época. Macedo o escreveu aos 24 anos, ao se formar em medicina em 1844. A história é sobre quatro estudantes de medicina, que vão passar um fim de semana na ilha de Paquetá. Um deles, Felipe, aposta com seu amigo Augusto, um namorador inconstante, que este não sairá da ilha sem se apaixonar por uma das lindas moças que a habitam. Se perder a aposta, Augusto deverá escrever um romance sobre sua derrota. Detalhe: Felipe libera Augusto para galantear suas primas, mas não sua irmã, a meiga e travessa Carolina, a Moreninha. Mas como resistir a seus encantos?  O filme capta essa romântica atmosfera do livro, com suas intrigas amorosas, desejo e lendas, retratando os interessantes costumes da sociedade da época com pinceladas de humor. Interessantemente, o script do longa apresenta diálogos que por vezes rimam e toma certas liberdades, com anacronismos que divertem.

Há alguns anos encontrei-me com o  realizador e montador de “A Moreninha”,  Glauco Mirko Laurelli, que faleceu recentemente é um grande nome das artes brasileiras, com um vasto currículo no cinema, teatro e ópera. Fará falta e este texto, que foi produzido há algum tempo, agora é republicado no CineZen em sua homenagem.

Glauco Mirko LaurelliGlauco trabalhou com outros grandes do cinema, como Luis Sérgio Person, Mazzaropi, Anselmo Duarte e com os maiores atores do Brasil, de A a Z. Sua vida se confunde com a própria história do cinema e teatro brasileiros. Um gentleman que, com muita modéstia,  considera -se um “artesão do cinema”.  Glauco me concedeu uma agradabilíssima entrevista exclusiva. Surpreso ao saber da extensão de minha admiração pela sua obra, em particular por esse filme, contou-me detalhes da produção e filmagens com riqueza de detalhes, revelando uma memória privilegiada.

Num bem humorado flashback, começou dizendo que ficou entusiasmadíssimo ao assistir à adaptação do clássico romance para o teatro, feita pelos amigos Cláudio Petráglia  e Miroel Silveira, estrelado por Marília Pera, Perry Salles e Zezé Motta, em 1968.

Com sua produtora,  a Lauper Filmes (junção de seu sobrenome LAUrelli e  de seu sócio, Luis Sérgio PERson), e  o apoio da TV Cultura e da CBS do Brasil, Glauco deu a partida no projeto. Escreveu o roteiro inspirado nos musicais americanos, já que as canções originais de Petráglia eram de fato muito lindas. Alguns atores da peça foram aproveitados, mas Glauco não podia usar Marília, excelente, mas já madura para a personagem. Foi quando Glauco ficou deslumbrado com uma adolescente de grande carisma que brilhava no grande sucesso musical, “Hair”, no teatro Bela Vista. Glauco contou que decidiu apostar naquele rosto jovem, pouco conhecido do grande público, e ignorou alguns pedidos de dar o papel a uma atriz da Globo.

Um caso de “perfect casting”: Sonia tem  toda a graça,  beleza, encanto, o ar travesso e os  longos cabelos  negros  de Carolina, conforme descritos por Manuel de Macedo em sua obra prima.

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Muito jovem, ela já mostra aquele brilho,  segurança em cena e magnetismo que a tornariam a rainha das bilheterias do cinema nacional alguns anos depois em “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “A Dama do Lotação”, “Eu te Amo” e “Tieta”. O diretor-produtor ainda acertou ao escalar ótimos atores para  papéis importantes e que  tiveram aqui grande impulso para suas carreiras: Carlos Alberto Riccelli (o amigo Leopoldo); Claudia Mello (Clementina, moça “louca para casar”); Vera Manhães (mãe de Camila Pitanga), como Paula, a “bá”; Gesio Amadeu (o escravo Rafael), a dama  do teatro paulista Sonia Oiticica; como a avó Donana; Lucia Mello (a hilária dona Violante), o futuro astro David Cardoso, como o namorador Augusto e o divertido Nilson Condé (também assistente de direção), como  Felipe, irmão de Carolina.

Glauco me contou que o filme não foi um projeto fácil de realizar – o orçamento era apertado e não havia como desperdiçar material: só disponibilizava de 35 mil metros de película, enquanto que a média  usada para um filme era 100 mil metros. Sua grande experiência como montador foi a salvação, pois filmava de maneira a utilizar o máximo possível do material filmado. O elenco não podia errar, apesar de haver  números musicais e danças,  com bonitas coreografias de Jura Otero. Achar locações ideais foi outro grande problema: ao chegar em Paquetá, a pedra da Moreninha já estava circundada de postes e fios elétricos, incompatíveis com a época da história. A solução foi rodar as externas em Paraty, inclusive num belíssimo rochedo para a primeira cena de Sonia, que  infelizmente foi varrido pela Rio-Sul, disse-me o diretor. Inicialmente, a cena da gruta iria ser rodada no Paraná, mas o local estava ocupado pelo exército. Para os interiores, escolheu um espetacular casarão no Morumbi. O resultado foi plasticamente esplêndido, com cenografia e figurinos requintados de Flavio Phebo e fotografia magnífica de Rodolfo Icsey. Com seu  incrível bom humor, Glauco me divertiu muito ao contar que os elaborados vestidos de Sonia demoravam muito para ficar prontos, o que o deixava muito nervoso, já que “um minuto no cinema custa uma fortuna”. Para o número do início, o vestido azul que ela usava ainda precisava de uma renda na parte de baixo, que nunca ficava pronta. “Vamos rodar assim mesmo!” Num evento em São Paulo,  a descolada Marina Person contou-me que, quando criança, vivia brincando com os vestidos de Sonia.  Também o cineasta tem um grande momento de inspiração, na  genial cena final,  rodada nos antigos estúdios da lendária Vera Cruz, na qual, muito antes de Truffaut em “A Noite Americana”, homenageia todos os profissionais do cinema. Emocionante.

http://www.youtube.com/watch?v=49oMlwE9qak

O filme é uma joia rara do cinema nacional, já que o musical  é um gênero pouco explorado nas produções  brasileiras. Com sua alegria e jovialidade, tornou-se um grande sucesso de bilheteria daquele ano (principalmente depois que a rede Globo exibiu um número musical no Fantástico),  permanecendo por alguns  bons anos entre as maiores bilheterias do cinema nacional. Estreou em São Paulo no Cine Ipiranga e circuito, ficando incríveis dez semanas em cartaz. Em Santos, estreou no Cine Indaiá, repetindo o mesmo êxito de São Paulo e Rio, sendo reprisado por alguns anos, um fato inédito para um filme nacional.

“A Moreninha” foi o grande vencedor do 6º Festival de Brasília e também de melhor filme e diretor no 1º Festival do Guarujá, em 1970. O sucesso foi tanto, que até a trilha sonora foi lançada, outro fato raríssimo na história do nosso cinema. O DVD está disponível remasterizado em alta resolução – HD (o primeiro filme brasileiro  a passar por este processo), restaurado com suas lindas cores originais e som sincronizado (um  grande problema para os filmes nacionais na época)

amoreninha3Sonia tem as mais bonitas lembranças desse que foi seu primeiro trabalho como protagonista no cinema. Antes, trabalhou em “O Bandido da Luz Vermelha” (e diverte-se dizendo que só aparece num fotograma), “Cleo e Daniel” e “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”. Orgulhosa do profissionalismo da equipe do longa, recomenda que as pessoas o assistam, pois “continua muito bem com a passagem do tempo”, disse numa entrevista ao “Estado de São Paulo”. “No cinema americano, se faltar um parafuso, a filmagem é interrompida até que alguém  consiga um”.

Em “A Moreninha”, tudo era resolvido na hora, com grande poder de improvisação, fosse com fita crepe ou movendo-se a câmera de maneira criativa, como na cena da valsa!”.

Vendo e revendo a adorável Sonia  nesse extremamente bem realizado musical brasileiro, acabamos apaixonados pela Moreninha, assim como concebeu em sua obra Joaquim Manuel de Macedo, e por essa icônica  atriz, de grande beleza e talento, que emprestou seu corpo e alma para tantas heroínas de nossa literatura. Quando a encontrei pela primeira vez, na pré-estreia de “Tieta”, na Avenida Paulista em 1996, apresentei-me como seu primeiro fã e presenteei-a com um retrato pintado por mim. “Que lindo!”, ela exclamou, acompanhada de sua querida irmã, Maria,  e do grande músico americano Mark Lambert . “Sonia, preciso provar que eu sou mesmo o número um – vamos interpretar a cena inicial de ‘A Moreninha’! E eu fui em frente na minha ousadia: “Bravo! Sou Augusto, colega de Felipe… e você deve ser…” e ela espantosamente lembrou-se do diálogo e prosseguiu, “Acertou! Carolina, colega da rainha Maria Antonieta!” Todos caímos na risada! Fiz outras pinturas inspiradas em Sonia e seu trabalho, e “A Moreninha” é uma de minhas favoritas, um óleo sobre tela que se encontra exposto em minha escola de idiomas, Open House.

amoreninhadvdAlegria e encantamento é o que a grande estrela nos traz em seu primeiro grande trabalho como a eterna “A Moreninha”.

Sonia Braga,  “esse nome amado ficará gravado para sempre na palma da mão!” E em nossos corações!

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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