Tapete Vermelho e o resgate do nosso homem interior

Matheus Nachtergaele em cena de Tapete Vermelho de Luis Alberto Pereira, 2005 (Foto: Divulgação)

Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que NADA!

(Luis Fernando Veríssimo)

Meu pai assistia aos filmes de Mazzaropi e, mesmo não prestando muita atenção neles, ficou aquela imagem inconfundível do Jeca Tatu impressa em minha memória. Lembro muito bem que meus pais se divertiam com as piadas, com os trejeitos das personagens que eles mesmos tentavam esconder. Sentiam em relação ao Mazzaropi uma admiração, colocando-o como um anti-herói, o Macunaíma deles. Uma espécie de modelo de resistência, que eles próprios e seus conterrâneos, admiravam em suas rodas.

Assistir aos filmes de Mazzaropi significava mais do que rir aos domingos. Era exatamente isso: cultuar escondidos, em frente à sua TV, aquilo que representava as raízes de muitos brasileiros.

Faz mais ou menos dois anos que consegui assistir ao filme “Tapete Vermelho”, estrelado pelo talentosíssimo Matheus Nachtergaele, com a minha mãe. Foi muito bom. Ela relembrou sensações adormecidas. Lembrou-se da mãe dela, dos costumes, do jeito vagaroso de viver. Falta agora assisti-lo com meu pai e captar suas sensações. Com certeza, vai render uma conversa longa após, cheia de saudosismos.

A história é simples, mas nem por isso perde a beleza do enredo, que transcorre majestoso. Quinzinho, vivido por Matheus Nachtergaele, faz uma promessa para seu filho, Neco (Vinícius Miranda): levá-lo à cidade para assistir a um filme de Mazzaropi. Quinzinho, a esposa Zulmira (Gorete Milagres) e Neco moram num pequeno sítio no interior de São Paulo. Acontece que uma simples ida ao cinema torna-se uma verdadeira odisseia, um evento cheio de surpresas e desventuras, na companhia do burro Policarpo.

O gênero proposto no filme é o da comédia, mas isso não significa que você não vai se emocionar, sentir medo, chorar de alegria e apreensão em certas cenas. Estreou em 2006, com a direção de Luiz Alberto Pereira.

“Tapete vermelho” merece respeito. É um documento histórico, com alto grau estético que homenageia nosso querido Mazzaropi. Há de se pensar, porém, num questionamento que flutua nas entrelinhas do filme: todos, atualmente, têm acesso ao cinema?

Esta foi a pergunta a me martelar durante o filme. Para Quinzinho foi uma aventura chegar ao cinema. Mas será que tal empreitada é difícil apenas para o nosso personagem? Será que a arte ainda precisa esperar muito para ser democratizada?

tapetevermelhodvdBem, o convite para esta bela homenagem ao cinema mazzaropiano está lançado. A trama é encantadora para qualquer amante da sétima arte. A interpretação dos atores nos arrebata e sofremos junto com eles. O filme remete a um gigante cordel, que se desfolha durante toda a narrativa. Um profundo e sensível passeio pela cultura brasileira, omitida em prol da cultura americanizada. É um resgate do homem do interior, do nosso homem interior, fazendo-nos sentir simples contemporâneos dos nossos antepassados.

Um beijo e boa imersão fílmica para todos!

Mô Amorim

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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