Tatuagem, de Hilton Lacerda, ou a saudade das clareiras anárquicas contra a necrofilia como valor simbólico

Um sopro anárquico atravessa o filme “Tatuagem”, de Hilton Lacerda. Desde “Lira do Delírio”, de Walter Lima Jr., não vemos um filme com uma aura libertária tão entranhada em seu enredo. É óbvio que Hilton Lacerda não é Edgar Navarro e estamos próximos mas não dentro da vertigem libertária de “O superoutro”.

Por exemplo, o filme de Hilton faz uma espécie de inventário melancólico das clareiras de entusiasmo e vitalidade  que existiam na época da ditadura militar, clareiras que explicam tudo, dos Novos Baianos aos esquemas do Tropicalismo, tudo parecia interligado e o filme faz um recorte  para poder falar das ondas de energia da revolta que estavam espalhadas pelo Brasil e hoje se encontram em estado vulcânico.

Este sopro anárquico segue até o meio do filme e no final é diluído por um certo desencanto melancólico como no final de “Árido Movie”, de Lírio Ferreira, mas sem a ironia deste último. Senti falta também da guinada para uma metáfora de abertura apontando para densidades míticas como no final de “Se nada mais der certo”, de José Belmonte. Ainda assim, “Tatuagem” sabe costurar com inteligência lírica pulsões do desejo com  a necessidade de respiração da vida do espírito. Para mim seria ótimo se os conflitos entre os duplos explodissem na cena da intervenção militar, que o soldado gay assumido se encontrasse no meio do furacão com o soldado gay enrustido – a visão dos soldados atacando os corpos nus poderia render uma bela cena, que apesar de sua obviedade importantíssima, seria tão ou mais importante do que as tomadas dos corpos do diretor do espetáculo e do soldado gay assumido fazendo amor.

Localizar o filme nos anos setenta foi um achado e cria camadas de diálogo do filme com muitos outros filmes, com alguns que nomeio de certa forma neste pequeno artigo. Estamos na época do cinema comparado, do cinema comparado com a poesia e vivemos no meio da busca de uma equivalência possível – se ela não ocorre não temos cinema, temos televisão em tela grande. Felizmente, este não é o caso deste belo filme de Hilton Lacerda.

O que entendo por necrofilia como valor simbólico? Uma das tendências da arte em nossa época é a nostalgia como um valor, quase como um alfabeto estético, a volta do 3D nos cinemas, bandas soando como se estivessem nos anos 70, grupos teatrais com um repertório ideológico dos anos 60 e por aí vamos… Um retorno a um limitado pensamento esquerdista, com jovens universitários de 20 anos lendo Lênin, Marx e com um entusiasmo senil por Che Guevara e Stalin via Slavoj Zizek. É uma perda de tempo falarmos aqui em uma coluna sobre cinema, de questões ideológicas, principalmente de uma ideologia que jamais deu conta do real como a esquerdista e hoje serve apenas para alimentar uma nova versão mais sádica e devastadora do capitalismo, o capitalismo de Estado. É óbvio que um pensamento dicotômico que vê o mundo como algo dividido em dois pólos antagônicos – por exemplo, direita e esquerda – jamais poderá dar conta do real. Essa gama de centenas e centenas de variações, diversificadas de camadas de diferentes realidades que jamais poderão ser reduzidas a um pensamento binário, dicotômico.

Social-democracia, capitalismo tradicional, capitalismo de Estado, Capitalismo teocrático das igrejas evangélicas, enfim, toda esta onda de necrofilia econômico-ideológica poderá ser superada num futuro que pode nos surpreender em breve,  por formas hoje  inimagináveis de tecnologias socioeconômicas. E o que tudo isso tem a ver com o cinema produzido hoje no mundo?

Comecemos com uma declaração que,  espero, não seja entendida como uma tentativa de polemizar com o vazio criativo da nossa época: 90% dos filmes brasileiros que vi nos últimos dez anos são contaminados ideologicamente por um pensamento dicotômico fundamentado em ideologias esquerdistas ou neoesquerdistas,  no cinema produzido nos anos 60 e 70,  e ainda hoje existe uma certa tendência apologética ao crime – era projetada em todo criminoso uma aura heróica e isto tem tudo a ver com o pensamento esquerdista, que via o bandido como um legítimo representante do lumpem proletário e, portanto, um ente a ser defendido, utilizado como paradigma em manobras neorevolucionárias e etc.

Temos vários exemplos que vão desde “Lúcio Flávio”, de Hector Babenco, nos anos 70, até os recentes  “Assalto ao Banco Central”,  de Marcos Paulo, e “Dois coelhos”, de Afonso Poyart. Não estou aqui defendendo um recorte moralizante de fundo conservador, mas seria interessante que não houvesse esse dicotomismo nos roteiros, mas ele pode ser explicado pela tendência que é defendida dentro do pensamento ideológico chamado de esquerda que influenciou e muito os nossos roteiristas e diretores.

O conservadorismo ou o chamado pensamento de direita obviamente não está sendo defendido aqui. No conservadorismo pode existir a apologia do escravagismo e do servilismo, mas hoje tudo se parece com uma grande macarronada com fios vermelhos, azuis e amarelos, se é que vocês me entendem…  Seria um grande avanço para o cinema se nossos cineastas aprendessem a lição contida na antiga série de livros da  editora Melhoramentos, chamada Pró & Contra –  nesta série de livros eram analisados fora de um pensamento dicotômico e lado-a-lado figuras como Marx, Lênin, Gandhi e Kafka.

Com esta ultima provocação, encerro esta minha última coluna Cosmograma Geral de 2013.  Seguiremos em 2014, ano de Copa do Mundo e Eleições, associando o cinema ao pensamento crítico-filosófico. Duvidem de tudo o que escrevo, leiam mais e pensem mais ainda. Pensar é perigoso, mas sem o pensar a vida se torna apenas um enorme campo de sonolência e aceitação covarde das piores falsidades e embustes. Que cada um seja um Sherlock Holmes de sua própria vida no mundo, é o que desejo para todos os leitores do CineZen.  Um grande abraço e um 2014 melhor do que 2013 e pior do que 2015.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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