Encontros imperfeitos em Lisboa

Trem Noturno Para Lisboa

“Por que você não fica”, ouve Raimund Gregorius na Estação de Santa Apolônia em Lisboa, prestes a partir em retorno à sua antiga vida de professor na chuvosa e fria Berna, na Suiça. Um convite, um sussurro da cidade das sete colinas que tem como corvos, seu símbolo. Mau agouro? Definitivamente, não. Somente, um estilo de ser e estar de Lisboa. Um porto, acima de tudo isso, de partidas garantidas e chegadas ansiadas. O mar de Portugal é salgado, são as lágrimas que inundam-no de despedidas. Mas, Raimund, faz em “Trem noturno para Lisboa”, o caminho inverso. Vai a procura. Sente que a raiz de sua vida depende disso, quando salva de um suicídio do porvir, uma jovem de casaco vermelho. Nem lobo mau, nem chapeuzinho, mas todos à procura da vovózinha que mora longe e está a espera de doces. Um livro que fala com ele em direto, em viva voz e uma passagem de trem daqui há 15 minutos para Lisboa. Segue, com a roupa do corpo. E como isso é libertador. Raimund quer saber de Amadeo do Prado, autor do livro “O ourives das palavras” (que encontra no bolso do casaco vermelho) e em sequência a justificativa de um ato tresloucado numa ponte de Berna. Conexões que precisam ser refeitas. Encontros imperfeitos que o levam a ver a vida com outros olhos. Nada de metafísico, só a armação do óculos que precisa ser trocada, num desajuste com o trânsito da cidade desconhecida. Mas, surte efeito. A cidade, e ir vivendo a vida de outros, não só de Amadeo, mas de seus companheiros de resistência contra o regime salazarista, muda sua feição. Lutam por ideais coletivos e para ele que resgata do lixo o sachê único de chá do dia anterior, tudo é vida que se respira. Finalmente e talvez pela primeira vez.

http://www.youtube.com/watch?v=1DqFiW0DYV4

Caminho com Raimund pelas ruas da cidade que conheço. Partilhei com ela meu amadurecimento pessoal. Somos mais que próximas, por tempos ela foi minha tutora. Rígida, por certo. Limitadora, muitas vezes. Saudade, sem dúvida. Há alguns anos, precisei libertar-me dela, da sua intensidade melancólica, do frio que me esmagava a espinha. Nem o cheiro das ruas de calçada de pedra que amei com paixão, nem a luz ímpar daquela cidade que me fez crescer me demoveram. Parti. Assim, como Raimund, segui o fluxo e cortei o laço umbilical de adoção com Lisboa. Quando partimos de um lugar em que vivemos, o que fomos continua a existir e é sempre possível retomar do momento em que paramos, escreveu Amadeo e lê Raimund. Quando viro a esquina, em uma tarde típica de verão lisboeta, lembro-me com nitidez de quem fui quando lá vivi. E hoje sou outra, uma convidada da cidade. Ela me acolhe com afeição, mas o fado entre nós existe. Pão e vinho sobre a mesa, mas a porta não se escancara para mim. Tenho a sensação que me recebe por educação. Nos últimos anos, tenho a olhado com mais demora e pergunto-lhe se me receberia de volta.

Ela é evasiva e não me responde com segurança. Deixa-me, insegura, portanto. Sei que não perdoa a traição. Não se recupera do abandono secular. Parti, assim como Raimund, no susto. Ia em busca do Santo Graal, de uma novidade, de uma epifania.

Depois desse tempo, e com sucessivas tentativas de aproximações, sei que a grande festa é quando estou com ela: em suas praças, cafés e ruas.

A experiência de um filme pode ser um recorte, um nome, uma cidade. É possível abstrair-se do enredo e ficcionar a partir de si uma história pessoal.

Aguardo pelo dia em que ela me perguntará: “Por que não ficas?” E para certificar-me, ou por pura delícia, fingirei que não entendi a proposta, só para poder ouvi-la, uma vez mais, me pedir um sim.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

2 thoughts on “Encontros imperfeitos em Lisboa

  1. Oi, Vivi
    Esse filme está em cartaz no Espaço Unibanco, acabei de olhar e fiquei com vontade de ver… Depois de seu texto, dá ainda mais vontade. Sabe uma coisa que estou pra comentar contigo: é que quando te leio, tenho a sensação de que você não mostra tudo, você deixa algumas entrelinhas e fica um suspense, sempre uma dúvida no ar… é apenas a minha sensação.
    Se quiser me visitar, será sempre bem vinda: http://narrativasedivagacoes.blogspot.com.br/
    beijos,

  2. Emocionante relato. Também chorei no início do filme e agora, novamente ,ao ler seu texto… e olha que nem nasci em Lisboa.
    Silvia

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