Poesia e cinema: passeios noturnos em estrofes longe de acabar

Yun Jeong-hie em Poesia de Lee Chang-dong, 2010 (Foto: Divulgação)

“Como é lá?

Quão solitário é?

Ainda é vermelho ao pôr do sol?

Os pássaros continuam cantando no caminho para a floresta?

Pode receber a carta que não ousei enviar?

Posso transmitir a confissão que não ousei fazer?

O tempo passará e as rosas desaparecerão?

Agora é hora de dizer adeus.

Como o vento que permanece e depois vai,

exatamente como as sombras.

Para as promessas nunca cumpridas,

Para o amor mantido até o fim.

Para a grama beijando meus tornozelos cansados.

E para os pequenos passos que me seguem.

É hora de dizer adeus.

Agora, como a escuridão cai,

uma vela será acesa novamente?

Aqui eu rezo para que ninguém deva chorar.

E para que saiba o quanto te amei.

A longa espera no meio de um dia quente de verão.”

(Fragmento do poema recitado por Mija, protagonista do longa ‘’Poesia’’ de Lee Chang-dong)

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Nascida em um contexto familiar conservador, vejo a mim mesma como a própria teimosia. Tal inquietação, eu sei, acaba me levando além. Só porque a zona de conforto é um péssimo lugar. Depois de um tempo, é igual ficar na cama sem sono: o cobertor antes quentinho e macio, começa a pinicar o nosso corpo todo e, por mais que a gente disfarce, queira se distrair ou se enganar dizendo que ali está bom, chega uma hora que não tem jeito: a gente tem que se levantar!

Enquanto reflito sobre tudo isso, aguardo outro café. Quem sabe, entre por aquela porta, algum sujeito inteligente e engraçado, capaz de prender minha atenção por mais de doze minutos. Retorno então ao meu estado de criação e escrevo neste guardanapo o que vocês lerão a seguir.

Bem, a missão de hoje é um pouco mais fácil que encontrar alguém interessante. Eu me propus a falar sobre o filme “Poesia”, do diretor coreano Lee Chang-dong, lançado em 2.010. Indicado para quem sabe o valor da poesia!

O filme conta a história de uma senhora que vive com seu neto adolescente, quase inútil, em Seul. Não há muito diálogo entre os dois, pois o neto vive absorto diante da TV e do videogame. Mija passa a apresentar pequenos lapsos de memória e de linguagem, o que a faz procurar orientação médica. Vem então o diagnóstico: Mal de Alzheimer.

Apesar do drama anunciado, Mija, do alto de seus sessenta e poucos anos, decide seguir em frente. É nesse momento que a poesia entra em sua vida. Como obra do acaso, ela acaba encontrando um folheto contendo informações sobre um curso de poesia. Quem ministra as aulas é um escritor. A turma é composta por pessoas sem nenhuma experiência em literatura. A primeira lição, proposta pelo professor, é muito interessante: olhar o mundo de um jeito como nunca fizeram. As palavras brotariam depois, como no poema acima.

O argumento do filme é fantástico e me encantou. Pensei em tantas coisas ligadas ao exercício de poeta. A poesia, por si só, não nos alivia. Mas seria covardia subtrair dela o poder de impor beleza à dor. Mergulhar na poesia não pressupõe tornar a dor suportável, apenas muda o olhar. Substitui liricamente dor por verso, ausência de abraço por passeios noturnos em estrofes longe de acabar. Eu me perguntei: filmar a poesia é possível? Ora, cinema é feito de ação e palavra parece algo tão estático quando recitada. Mas sim, é possível. “Poesia” é capaz de captar sensações. E cinema é sensação flutuando na tela. Eis um casamento feliz!

Cabe ainda, antes de terminar, deixar uma pequena instrução: não confundir poema com poesia. Poema é o material que advém da poesia. Poema é a palavra escrita no papel, algo físico. Poema é aquilo que você lê na aula de literatura. A poesia é a aura que envolve o poema e tantas outras artes. Sem dúvida, a poesia é uma tentativa de ruptura com o massacre do cotidiano sobre nós. Mergulhar na poesia pode parecer fuga para alguns, mas em certos trechos da vida, pode representar um novo jeito de caminhar a fim de encontrar alguma harmonia entre a sua própria realidade e a sua verdade interior. .Isso me faz lembrar ainda de Emily Dickinson e Florbela Espanca.

poesia capa“Poesia” ganhou o prêmio de melhor argumento no Festival de Cinema de Cannes e o prêmio de melhor roteiro pelo júri oficial.

Talvez, a chegada do Alzheimer encontre nossa protagonista balbuciando as consequências intrigantes que a poesia conseguiu oferecer à sua vida. Talvez, o momento que antecede a quase morte-transformação, num ímpeto iluminado e feliz, ela diga poeticamente como no filme: “… Eu estou começando a sonhar…”.

Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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