O sexo das cores

sexodascores1Crianças e poetas perguntam. Querem saber o que são as coisas, de onde vem. Pablo Neruda fez muitas em seu “Livro das perguntas”.“Onde está o menino que fui: anda comigo ou evaporou-se?, essa me toca em especial. Mas também gosto quando Rubem Alves puxa pela mão sua própria criança e questiona quem inventou as palavras, o que o mar faz quando a gente vai dormir e porque a chuva cai em gotas e não tudo de uma vez.

A coceira que dá dentro da cabeça, no lugar onde moram os pensamentos, e que Rubem Alves chama de curiosidade, aparece segundo ele quando os olhos começam a fazer perguntas para descobrir o que está escondido.

E como perguntam!

“Por que o céu é azul e não amarelo?” A escolha das cores e de tudo o que existe é responsabilidade de quem?

Adulta, pergunto isso. E dentro desse pensamento, se as cores são escolhidas para dar forma às coisas, será que elas terão sexo?

Pergunto isso porque penso que o rosa e o azul se sentem excluídos, segmentados. Atrelados, então, e para sempre à um gênero.

Rosa para menina, azul para menino.

Mas as crianças não pensam assim. Os adultos que com o tempo, viram as suas evaporarem-se, tem medo e incutem nelas, suas suspeitas e o poeta se questiona: “Quando minha infância se foi, por que nós dois não fomos junto?

Estão perdidos.

E se um dia você se encontrasse com uma pergunta perdida. O que fazer? Essa é a reflexão que Shaun Tan nos oferece com a delicadeza de quem faz um desenho com uma caneta tinteiro. É pluma pura.

Metáfora que concretiza em uma coisa gigantesca, desajeitada e ternurenta, e que não temos espaço, nem tempo e vontade de lidar com.

Pense que é você quem encontra essa pergunta e seguindo o roteiro proposto por Shaun Tan começa a alimentar “A coisa perdida”, titulo do curta, após a negação dos seus pais em acolhê-la em casa. Que incômodo, que revolta o estômago e a mente. Sem fermento.

sexodascores2Melhor não deixar crescer, pensam eles.

E Neruda acrescenta: “ Que vim fazer nesse planeta? A quem dirijo essa pergunta?

Então, você decide escondê-la na dispensa porque já se tornou próximo dela. E aí se instala o dilema. Objetos sem nomes, artefactos problemáticos de origem desconhecida? O que fazer? E se seus pais descobrem?

Mas o dilema tem uma energia de mudança, uma solução: um “Departamento Federal de Toda a Classe de Coisas”, e o mais curioso é que no caminho para a instituição, onde as perguntas seriam respondidas, cruzamos em sentido contrário com o fluxo de uma nuvem cinzenta e gigantesca de homens e mulheres na toada de “Tempos Modernos”, de Chaplin.

sexodascores3E o edifício não poderia ser diferente da multidão. Em tons cinza e sem janelas e com um odor à desinfetante.

“Tenho uma pergunta perdida”, você diz para a rececionista apática sentada no alto de um bricolage de gavetas metálicas.

“Preencha o formulário” – responde de forma insensível olhando para o relógio.

Enquanto procura por uma mesa para apoiar a pilha de papéis, símbolo da burocracia, alguém diz-lhe: “Se realmente te importas com essa pergunta, não a deixes aqui. Este é um lugar do esquecimento, do abandono”.

Quantas perguntas caíram no esquecimento, fechadas em gavetas. Para que tanta poeira? – pergunto.

Como no filme, o que está perdido nos indica o caminho a seguir. É preciso aceitar o sinal. Decodificar o significado da mão que bate em nossas costas. Cabe a nós, virar-nos ou não.

As respostas também são assim: estão escondidas em lugares que não a encontraremos, a menos que de coração, nos propusermos a encontrar.

“Se acabar o amarelo, com o que vamos fazer o pão?”, pergunta Pablo Neruda e um universo de possibilidades se abrem. “Com o azul e a clara do ovo.”, responde escancarando uma gama de cores que não tem sexo. São universais.

Terminando a nossa jornada para encontrar o lugar para a pergunta perdida, fica uma sensação de vazio. E se ninguém respondê-la?

É uma apreensão permanente. Como se padecimentos e memórias se alojassem em nossa cintura, alargando o seu diâmetro, como diz Pablo Neruda.

Os olhos das crianças são sempre curiosos e os dos adultos guardam no íntimo um desejo de reencontro com os seus, perdidos, no tempo das perguntas.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

One thought on “O sexo das cores

  1. Lindo! Lindo! Lindo!
    Encontro aqui a menina maravilhada que passou pela infância e ainda vive em mim.
    Beijos e muito obrigada, Vivi!!
    Com afeto,
    Fabi

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *