Contra a celebração do vazio nosso olhar procura a beleza do mundo no meio do caos e descobre a beleza do caos

Enquanto não chega o novo filme de Jean-Luc Godard que providencialmente se chama “Adeus à linguagem”, vamos em frente. Há uma cena no filme “Thor: O mundo sombrio” (não, não é um documentário sobre o filho de Eike Batista) em que pássaros desaparecem no céu e logo depois saem do chão como em uma imagem de um quadro de  Bosch e um dos personagens, um astrofísico que está saindo do hospício, diz após ver a cena: “É um alívio saber que  o mundo é ainda mais louco do que nós”. O filme se dissolve muito rápido na mente, mas esta cena fica ecoando por um bom tempo na memória.  “A memória é uma ilha de edição”, já dizia Wally Salomão. O oposto acontece com um filme como  “A Pedra da Paciência” (Syngué Sabour)  filme do escritor Atiq Rahimi baseado em seu livro homônimo que vi  apenas recentemente e com um certo atraso – o filme é de 2012 e salvo engano não foi exibido em circuito comercial no Brasil. Todas as imagens de “A Pedra da Paciência”  possuem uma força mítica que nasce da transfiguração da dor pela palavra. Será difícil esquecer o olhar melancólico-triunfante da atriz franco-iraniana Golshifte Farahani em praticamente todas as cenas. Seu olhar parece expressar uma gama de sentimentos sem nome que na falta de uma expressão mais adequada chamo de melancólicos-triunfantes.

Trailer de “A Pedra da Paciência”

Ética & Motivação

Só os tolos não se auto-questionam e, pensando nisso, me pergunto qual seria a minha motivação maior para escrever essa coluna? O CineZen é um site colaborativo onde ninguém é remunerado e um dos motivos para escrever esta coluna seria a irradiação do pensamento e não do nome: não tenho um projeto de Poder ligado ou costurado na pele dos meus textos sejam eles poemas em prosa ou artigos e  livros. É óbvio que em uma época em que  vivemos o Opus do Império do dinheiro – ou seja da abstração perversa como centro de todos os vazios – também é óbvio que existe uma oposição entre fonte de vida do ser e fonte de renda do consumidor, principalmente no campo da criação, da comunicação do ser e não apenas na produção da arte, algo já destroçado completamente pelo consumismo e sem existência real na vida das comunidades. Tudo o que o século XX chamava de arte é  hoje filtrado pelo espetáculo, pela estética publicitária que alimenta o culto da personalidade e este contamina cada vez mais esta coisa morta que insistimos em chamar de arte e que talvez não exista mais. O que existe é o comunicar o ser que, por sua vez, se utiliza das diversas expressões do corpo que é sua casa. O que ficará no lugar do que chamamos um dia de arte é algo que ninguém hoje ousa chamar de arte. Percebo no trabalho de cineastas para usar um termo velho e caduco, poetas da imagem, que se utilizam da Internet para comunicar seus trabalhos se emancipam de formatações mercantis para realizarem verdadeiros filmes-poemas, como é o caso de Léo Pyrata , de Belo Horizonte, que prepara seu primeiro longa e de outros. Aqui em Santos devemos prestar atenção nos futuros trabalhos de Olegário Monteiro e Madeleine Alves e em Ciro Hamen que, mais cedo ou mais tarde, deverão surpreender… É para incentivar e até louvar o trabalho de poetas da imagem, já maduros como Léo Pyrata ou Ciro Hamen ou em uma boa direção como Madeleine Alves e Olegário Monteiro que escrevo esta coluna.

http://vimeo.com/40897743
Curta dirigido por Léo Pirada

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

One thought on “Contra a celebração do vazio nosso olhar procura a beleza do mundo no meio do caos e descobre a beleza do caos

  1. Muito obrigada, Marcelo Ariel, pela citação ao meu trabalho e atenção aos futuros trabalhos, não só meu mas dos outros artistas também. Gosto do modo como você exprimiu tudo isso, porque sabe que ainda estamos em processo de estudo, aprofundamento, descoberta de uma possível linguagem. Dispostos a nos jogar de corpo e alma e sair da superfície do que já foi criado. E nem é pra ser melhor que ninguém, pra marcar época, pra ter fama… enfim, pra nenhum desses apelos que uma sociedade comercial geralmente vende.
    Claro, também preciso pagar contas, todos os materiais da arte custam (e por vezes bem caro!) e é preciso sustentar a criação de alguma forma. Mas o sustento não é o fim. É o meio, um mecanismo que torne possível a expressão de algo que nem sabemos exatamente o que é agora, ou daqui a um tempo. Pode ser, inclusive (o mais provável), que nunca saibamos. Mas estamos por aí, fazendo. E é isso que importa.

    Muito obrigada!! Mesmo!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *