Blue Jasmine: Há muito de Woody Allen a ser percebido neste belo filme

Alec Baldwin e Cate Blanchett em Blue Jasmine, filme do Woody Allen (Foto Divulgação)

Não há meio termo. Woody Allen é amado ou odiado intensamente; enquanto metade da humanidade adora seus filmes, a outra os rejeita. Eu me incluo na tribo que admira o cineasta/escritor/produtor.

Essa disparidade de reações  ao trabalho do Woody ocorre simplesmente  porque ele não faz concessões, não se importa com a bilheteria e, em resumo, gerar controvérsia também é um preço que se paga por ser autêntico e genial. No entanto, mesmo quem não o curte tem que admitir sua genialidade: quantos são os cineastas que, ao longo de suas vidas, escreveram seus próprios roteiros, dirigiram, produziram e ocasionalmente atuaram em seus filmes? Neste reduzido panteão de privilegiados estão feras como Ingmar Bergman, Blake Edwards e Pedro Almodóvar. Ao lado deles, Woody Allen, no auge dos seus setenta e tantos anos (fará setenta e oito em primeiro de dezembro), dá-se ao luxo de continuar realizando essa proeza uma vez por ano.

Não é qualquer um que tem tamanho talento, energia, imaginação e garra para bater de frente com o convencional e surpreender o público e crítica com temas perturbadores como em ”Match Point’ e ”Vicky Cristina Barcelona”. Ou simplesmente encantar com o lirismo de ”Manhattan” e ”Meia Noite em Paris”, para depois ir fundo na complexidade do ser humano em ”Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Zelig” e ”Hannah e Suas Irmãs”, ou ainda homenagear o cinema em  ”A Rosa Púrpura do Cairo” e “Todos Dizem Eu Te Amo”,  o rádio em “A Era do Radio” e o teatro em “Tiros na Broadway”. Tudo com muita sensibilidade, muita ironia, e muitas, muitas risadas. Estamos falando de uma  gloriosa filmografia com mais de setenta títulos! Costumo dizer que mesmo um Woody Allen de uma safra menos inspirada é bem melhor que muita produção festejada por aí. Quem tem um pé atrás com o gênio e deixa de ver seus filmes porque não gosta dele como ator, ou de seu senso de humor, deveria dar-lhe mais uma oportunidade e descobrir a inteligência de seus diálogos e a exuberância de seus personagens.

bluejasmine3

Eu já começo adorando em Woody a fidelidade ao seu estilo, o qual vem mantendo há décadas: filmes curtos, com cerca de uma hora e meia, créditos logo no começo, com os nomes dos atores e da equipe técnica  em ordem alfabética, em fundo negro e ao som de jazz – ao contrário dessa tendência atual de exibirem no começo somente o nome do filme, deixando tudo para o final – uma chatice. Os cenários são sempre uma atração à parte, em notáveis cidades, da favorita New York à atual San Francisco, deste espetacular “Blue Jasmine”.

O lindo título refere-se à personagem principal, Jasmine, e evoca a icônica canção “Blue Moon”, de Richard Rodgers e Lorenz Hart. “Blue”, em inglês, também significa ”triste’, que é o perene estado emocional de nossa heroína, feita brilhantemente pela bela Cate Blanchett.

A cena inicial mostra Jasmine chegando de viagem no aeroporto, já com as afiadas e e divertidas observações do cineasta a partir de cenas triviais do cotidiano, que podem beirar o absurdo. A exuberante, sofisticada, elegante Jasmine, com seu evidente ar esnobe,  dirige-se ao apartamento de sua irmã Ginger, onde vai se hospedar por algum tempo. Ginger, muito bem interpretada por Sally Hawkins, é o oposto  de Jasmine, em todos os aspectos, inclusive fisicamente. É simpática, generosa, simples, com um delicioso toque brega que colide com o estilo gracekellyano de Jasmine.

Aos poucos ficamos sabendo por que a altiva Jasmine está ali, totalmente deslocada naquela breguice e vão-se desvendando os muitos mistérios na vida dessa fascinante mulher, que vive tomando comprimidos com álcool, possivelmente para  esquecer um passado sombrio,  os golpes que a vida lhe trouxe e, talvez,  suas  equivocadas resoluções.

bluejasmine4

Ficamos conhecendo, em fragmentos,  o passado glamuroso de Jasmine, que antes de se casar com o rico homem de negócios Hal (Alec Baldwin em boa forma), chamava-se Jeanette  e então vamos sendo apresentados por Woody aos eventos  que mudaram sua vida radicalmente,  principalmente seu relacionamento com Hal.

O universo feminino é retratado  por quem parece conhecer bem o comportamento da alma feminina: estão lá a  competitividade,  sensualidade, segurança e insegurança,  manifestações de amizade, compaixão, companheirismo, maternidade, mas também a arrogância, falsidade, inveja, o egoísmo, ciúme e preconceito.

Enquanto pode-se constatar que Allen tenha se inspirado em “Um Bonde Chamado Desejo”, clássico de Tennessee Williams sobre a história de Blanche DuBois, que vai morar temporariamente com a irmã, tive a impressão de que o escritor/diretor deu umas pinceladas na obra usando um pouco de suas próprias experiências, exorcizando alguns de seus demônios, no caso, sua tumultuada relação com a atriz e musa Mia Farrow e que acabou escandalosamente.

Woody a deixou para casar com Soon-Yi,  a jovem filha adotada por Mia e seu ex-marido, o maestro André Previn. Os dois estão juntos até hoje. Na época da separação, Mia escreveu um livro onde se viam claramente suas segundas intenções; ao  exagerar alguns fatos e inventar outros, ela quis mesmo se vingar de Allen. O rompimento deve ter sido realmente trágico para Mia; porém, muitos foram compreensivelmente solidários a ela e Woody acabou pagando um alto preço pela ousadia, com sua carreira temporariamente indo ladeira abaixo. Curiosamente, a atriz deu uma longa entrevista  para a revista “Vanity Fair” em setembro deste ano,  na qual ainda pode-se sentir o quanto continua magoada. Na matéria ainda há uma declaração de André Previn, curta, mas chocante, de que, para ele, “Soon-Yi não existe”.

Em “Blue Jasmine”, ouso afirmar que Hal tem algo de Woody Allen; Jasmine, algo de Mia Farrow e a jovem ”au pair”, que não aparece em cena, seria uma referência à Soon-Yi. Allen revisita alguns de seus temas preferidos, tais como o relacionamento de irmãs, crime e castigo, arrependimento e aproveita para fazer terapia na sua ótica da traição. Quem nunca sofreu uma, no amor, na amizade ou no trabalho? A traição pode desencadear os piores sentimentos numa pessoa, e trazer consequências horríveis, maiores do que qualquer um possa suportar, ou então, ser simplesmente superada.

Sutilmente, ou delicadamente, escondem-se no texto perfeito  algumas difíceis questões que levamos para casa no subconsciente: a vingança realmente compensa? Quanto dura seu doce sabor? Sentiremos qualquer remorso?

Com o melhor que Woody Allen tem a oferecer – direção precisa, diálogos deliciosos, lindas imagens de San Francisco – a Golden Gate Bridge evoca “Um Corpo Que Cai” – risadas às vezes com um gosto amargo, ”todo aquele jazz”  e um elenco de primeira que inclui o ótimo Peter Sarsgaard (Dwight),  o longa valoriza  a majestosa Cate Blanchett, que além de brilhar em cada momento, tem um desempenho  impressionante na cena final. Está magnífica, e certamente será indicada ao Oscar de melhor atriz em 2014, assim como deve acontecer com Woody e seu incrível roteiro original (são incríveis 23 indicações e quatro vitórias!).

bluejasmineposter“Blue Jasmine” é mais uma grande obra do genial Woody Allen, um drama concebido para provocar. Não perca. E preparem-se: o incansável cineasta já está a todo vapor em seu novo projeto anual: ”Magic in the Moonlight”. O que será que o irrequieto Allen está aprontando para o próximo ano?

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

4 thoughts on “Blue Jasmine: Há muito de Woody Allen a ser percebido neste belo filme

  1. Delicioso texto sobre o meu cineasta favorito: Woody Allen. Muito bacana citar suas obras marcantes e às homenagens que prestou aos diversos meios (cinema, teatro, rádio), além de fazer um paralelo entre a trama de “Blue Jasmine” e a vida pessoal de mr. Allen. Eu havia enxergado “Um Bonde Chamado Desejo” na trama, mas sua relação com Mia Farrow com Soo-Yi foi muito bem observada. Mestre Waldemar, parabéns por mais esse ótimo texto e, com certeza, na próxima palestra do Oscar estaremos falando sobre quem vai disputar com Cate Blanchett, pois acredito que ela é aposta certa aos prêmios. e convenhamos: apenas uma estatueta e ainda assim de Atriz Coadjuvante (pelo filme “O Aviador”) é muito pouco para uma atriz tão fantástica quanto Banchett. Que comece a temporada-ouro para ela.

  2. WALDEMAR,VOCE E OTIMO NOS COMENTARIOS SOBRE QUALQUER FILME!MAS ESSE TEXTO ESTA DEMAIS!!!OTIMO!!!!

  3. Adorei sua “review” de Blue Jasmine! Mais um filme imperdível de Woody Allen que vem provar que ele está cada dia melhor! Será que Cate Blanchett vai levar um “OSCAR” pelo seu ótimo trabalho? Aguardemos…Abraço

  4. Realmente, Woody é um fenômeno. Uma extensa carreira, mantendo a qualidade, analisando os comportamentos, hoje, diferente nas várias décadas. E ele segue surpreendendo.
    Abração

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *