Sideways – Entre umas e outras e, afinal, o que vale? O melhor vinho ou a melhor pessoa?

Sideways (Foto: Divulgação)

Eu tenho uma teoria: toda vez que a vida nos apresenta um grande Y, a tal da bifurcação na qual temos que decidir qual caminho tomar, o melhor a fazer é viajar. É claro que não é tão simples assim. Eu, por exemplo, estou vivendo esta situação, mas não tenho grana nem para dar um pulinho em Pedro de Toledo, litoral sul de São Paulo. Os amigos riem, mas é a verdade.

A vida tem dessas e é preciso estar atento para os sinais. A tal zona de conforto é mesmo tentadora. Parece um ninho de cobertas quentinhas e macias contrastando com a tempestade lá fora. Mas permanecer no mesmo lugar poderá significar a morte. Se não for a nossa, será daquela parte de nós que ainda tem chances de permanecer viva e se reinventar.

Daí, pensei: por que não se aventurar antes de escolher? Por isso pensei em “Sideways – Entre umas e outras”. Resolvi assistir novamente a este filme sensacional antes de fazer minhas próprias escolhas. É claro que certos botões internos já foram acionados positivamente em direção àquela que está para ser a escolha mais audaciosa dos últimos tempos. Mesmo assim, é sempre bom rever um filme que tira um pouco do medo do Novo, do Desconhecido.

Voltando à minha condição atual, não há dúvida de que estou ao pé do grande Y de minha existência. Não posso fazer como os dois personagens, mas não foi por acaso que, arrumando a estante do quarto, achei “Sideways”. A foto da capa não poderia ser mais convidativa: vinhedos ao fundo e amigos com taças cheias de vinho.

Bem, conheço, pelo menos, dois enólogos e eles falam menos de vinho do que qualquer pessoa por aí. São profissionais e vivem exclusivamente disto, mas são cautelosos para não chatear os amigos com demonstrações do conhecimento da área em que atuam. O mais incrível é que nas reuniões entre amigos, não monopolizam a conversa e até confessam que adoram Itubaína quando abrilhantada por uma grande companhia. Falam de tudo, menos de vinho, a não ser quando requisitados por algum curioso. Agora o que não falta por aí é cachaceiro metido a exímio entendedor de vinho. Tipinhos irritantes estes! Gosto muito dos conselhos do querido Xico Sá a respeito: “Homem que entende e gosta mesmo de vinho não sai arrotando conhecimentos por aí, simplesmente aprecia e faz a sua linda bacante apreciar a bebida sem arrogância ou jequice.”

http://www.youtube.com/watch?v=HrZjfxP_h3Q

O mais irritante é aguentar o cara falando umas duas horas sobre isso. Uma chatice!

Em “Sideways – Entre umas e outras”, Paul Giamatti (maravilhoso!) é Miles, um escritor sem sucesso que ainda não superou seu divórcio, passados dois anos. Para sobreviver, atua como professor de segundo grau. Seu melhor amigo é Jack, interpretado por Church. Jack é um ator de TV também fracassado que está prestes a se casar.

Não se engane: este filme não tem heróis, nem grandiosos atos. Fala de fracassados. Isso mesmo. E eu gosto disso!

Mas dentro da frustração de cada um, eles possuem nobreza. Aliás, a carreira de escritor que Miles escolheu é a campeã em frustrar qualquer um. Situações onde o livro não deslancha, a editora não age com lisura e o próprio afastamento do cotidiano para entregar-se ao ato de escrever são ingredientes perigosos para quem pensa em um equilíbrio, tanto no âmbito emocional quanto financeiro.

Mas o que fazer com aquele tempo que flutua suspenso, tempo este que antecede a escolha? Simples: sair para experimentar todo o vinho que conseguir nas vinícolas da Califórnia! Ou beber Itubaína com alguém legal por aí.

Como eu disse, vivo um momento sem chance para viagens. Pedro de Toledo tornou-se um jargão divertido para definir minha situação: “Nem para Pedro de Toledo consigo ir e você vem me falar de pacotes de viagem!” E enquanto os amigos comentam sobre emoções vividas em jardins na França, em pubs na Irlanda, em ruas e pontes na bela Praga, eu brinco com Pedro de Toledo. Mas a ideia de visitar vinícolas continua a soar fascinante, ainda que remota.

“Sideways – Entre umas e outras” apareceu então como uma bela viagem na sala de casa. Sabe quando um filme é engraçado e melancólico ao mesmo tempo? Aventureiro e reflexivo? E o vinho, claro, acaba servindo de metáfora para a própria vida. O gênero principal do filme é o da aventura, assim como deveria ser o gênero que rege nossa vida.

O roteiro é de Alexander Payne e Jim Taylor. Payne também dirigiu o longa e declarou: “Se existe um talento que possuo, é achar o ator perfeito para cada personagem.” Para este filme, Payne disse um não sonoro para George Clooney, por não achar que o papel de Jack servisse para o galã. E cá pra nós, o diretor acertou a mão ao escolher os dois atores.

sidewaysdvdHá muitas lições embutidas em “Sideways – Entre umas e outras”, mas dentre todas, duas me parecem as mais contundentes: Não guarde o melhor vinho para o final, pois cada momento é único. E nem sempre teremos o melhor vinho ou a melhor situação, detalhe pequeno quando percebemos que estamos, na verdade, com a melhor pessoa!

Um beijo, Mô Amorim.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *