Medianeras e aulas de solidão que antecedem o amor

Medianeras dirigido por Gustavo Taretto

A música inicial dá o tom íntimo ao filme argentino do diretor Gustavo Taretto e causa, em quem já experimentou acordar em outras terras, a vontade de sair por aí.

A solidão das cidades grandes, a busca do amor e a falta de comunicação, mesmo com tantos meios de comunicação, permeiam esta película. Ora, todo mundo já percebeu que a tecnologia tem roubado as pessoas umas das outras. É comum observar casais em restaurantes, cada um com seu celular, mergulhado cada um no seu mundo. Não estou aqui defendendo a simbiose total dos pombinhos. Acredito em dois inteiros e não no encontro de duas bandas da laranja. Mas um universo paralelo, um mundo à la Matrix anda coexistindo em nosso meio. Os adolescentes, por exemplo, vão às pizzarias e não se percebe mais aquela algazarra. Olham para o visor do celular, compartilham rapidamente os acontecimentos e nem prestam atenção direito ao que estão vivendo naquele exato momento. Não prestam atenção no outro. E perdem, para sempre, um momento que não vai mais voltar. Pelo menos, não daquele jeito.

Em “Medianeras: Buenos Aires da era do amor virtual”, eu até arriscaria afirmar que Buenos Aires é a personagem principal do filme. E o casal, que todos torcem para se esbarrar, meros coadjuvantes. Mas enfim, o filme levanta algumas questões: a era digital nos aproxima ou nos afasta? Existe amor na tela do computador?

Martin, interpretado por Javier Drolas, inicia avisando que a cidade cresce sem nenhum critério e eu nem sei mais se há algum em nossos dias. Afinal, qual o critério das coisas? Assim como a cidade vai se formando sem nenhuma lógica, é sugerido um paralelo com a nossa vida, que vai crescendo numa cadência inesperada. Enquanto ele fala-pensa-balbucia tudo isso, um homem, pendurado num andaime, limpa a vidraça de um edifício muito alto. Mas será que aquele homem desejou ou sonhou estar ali um dia?

O filme sugere contrastes, desde a arquitetura da cidade até os sentimentos que acompanham seus moradores. Um prédio muito alto ao lado de um muito baixo. Um edifício com estilo francês ao lado de um sem estilo. E como diria Bukowski: a gente precisa ter estilo!

Martin é morador de uma quitinete, na Avenida Santa Fé, nº 1.105, quarto andar, H e com a sensação de que há dez anos nunca mais saiu da frente de seu computador, que nunca mais se levantou. Garanto que um monte de gente vai se enxergar nele também. Desenvolvedor de sites, atribui todas as mazelas humanas como a depressão, o suicídio, o divórcio, a obesidade e etc aos arquitetos e empresários da construção. Depois de dois anos trancado no apto, a única maneira que seu psiquiatra descobre para melhorar sua situação é sugerir-lhe que tirasse fotos da cidade. Assim, ele funciona na cidade como um observador. Que está e não está. Ou que está ali de um modo diferente.

Bem perto dele, uma arquiteta frustrada, que lamenta não ter conseguido projetar sequer um banheiro, ocupa também um apartamento na Avenida Santa Fé, nº 1.183, oitavo andar, G. De gastrite, garante ela. Interpretada por Pilar Lópes de Ayala, Mariana afirma em suas divagações que relacionamentos são construções. Ela, neste momento, após uma separação, tem sua vida resumida a 27 caixas de papelão e 12 metros de plástico-bolha, que estoura para não estourar.

A história se passa num outono. E que linda é Buenos Aires no outono! No meio de suas solidões, os dois personagens cruzam-se pela cidade, mas sem nunca se encontrar. Vendo aquilo, a gente também se pergunta se um alguém especial não esbarrou na gente por aí e deixou o amor passar.

Assim, “Medianeras” é um retrato das grandes cidades e das grandes solidões na era do amor digital, onde sempre nos acomodamos a ver na tela o rosto querido, em vez de ir ter com ele em um café. O filme é repleto de pequenos tratados de Filosofia e cabe bem em vários debates. Do diagnóstico que chega pelo correio, da mão nervosa que corre ao Google e digita todos aqueles termos médicos sem saber qual doença tem. Quem nunca sozinho não passou por apuros, de sentir dor e não ter ninguém ao lado? Como dizem: quem nunca?

A atriz é linda. Eu mesma queria se ela. Mariana ganha a vida como vitrinista e conversa com seus manequins. Uma dessas falas me chama a atenção: “Penso, talvez, estupidamente, que se alguém para diante da vitrine, de alguma maneira, se interessa por mim”. Pensei em meus textos e nas pessoas que param para ler o que escrevo. De certa forma, nos tocamos, mas como saber?

“Medianeras” traz uma melancolia charmosa que quase se aproxima do cinema francês. O filme consegue explorar pontos de Buenos Aires que, para quem já visitou, sente-se revisitando a cidade. Mas a ideia de morrer de solidão numa cidade feita para morrer de amores é perturbadora. Martin e Mariana aparecem separados a uma distância física mínima. O movimento da vida moderna, o fluxo da cidade grande acaba por privá-los de se conhecer.  Isso realmente me faz pensar em como deve ter gente legal e perdida por aí, querendo formar um par, sem ter com quem.

O filme fala da busca do amor e da solidão de um jeito que não existe para todo mundo. É possível ser feliz sozinho sim! Demora um pouco para a gente descobrir isso. Acredito mesmo que todo mundo deveria morar sozinho uma vez na vida, forçar essa solidão libertária.

Se eu gostei do filme? Gostei sim, mas uma coisa me deixou irritada. Foi a tradução do subtítulo: “Buenos Aires da era do amor virtual”. Que coisa mais estranha. Parece até material de trabalho acadêmico. Desculpem-me, mas eu ri.

E para você que está se perguntando o que significa medianeras, deixo a bela digressão de Mariana:

“Todos os edifícios, absolutamente todos, possuem uma face inútil, imprestável, que não é nem a fachada frontal e nem a posterior, é a “medianera”. Superfícies enormes, que nos dividem e nos lembram do passar  do tempo,  a poluição e a sujeira da cidade. As medineras mostram  nosso estado mais miserável, refletem a inconstância, as rachaduras, as soluções temporárias.  O lixo que escondemos sob o tapete, pensamos nelas excepcionalmente, quando,  violadas pelos intempéries do tempo, deixam infiltrar suas reivindicações”.

E quase perto de terminar o texto, já tendo escutado “True love will find you in the end” umas vinte e cinco vezes, penso que a solidão que antecede o amor poderia receber um outro significado: fique bem enquanto seu amor não vem. Sim, talvez seja isso mesmo. Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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