Cores e a mulher da minha cidade

Cores dirigido por Francisco Garcia

As vezes a gente se engana e pensa que está mudando as coisas
Luara, personagem de “Cores”
— Filme de Francisco Garcia.

Há na minha cidade uma mulher. Ela vagueia, por todos os dias, sem destino. Caminha, senta, levanta e olha as vitrines. No outro dia, a vi acompanhando o show frenético de Beyoncé num telão de uma loja. Em que pensaria? Reparei que usava meias com buracos, uns grandes, outros menores. Eram círculos que compunham um visual punk pós-moderno. Talvez ela não saiba que eu a observo, nem que escrevo sobre ela hoje, mas penso com intensidade nesse personagem da minha cidade que poderia ser de um filme. Ela caminha vagarosamente – talvez porque não tenha para onde voltar – e tem tempo para passar horas, estática, olhando as vitrines das ruas e sentar nos bancos e ler, escrever, fazer cruzadinhas. Quando saio pela manhã e o dia ainda está preguiçoso para levantar, ela está ali, sentada no vão de um degrau e olha fixamente a praia. O que será que acontece ali? Que tipo de matéria enche aquele ser? Será que se vê no olhar dos outros ou nem se importa?

“As vezes a gente se engana e pensa que está mudando as coisas”, diz Luara, personagem de “Cores”, primeiro longa- metragem de Francisco Garcia.

Um conto contemporâneo de “Joãos e Marias” adultos, que sem migalhas de retorno, ficam reféns da bruxa da solidão. Luara tem o sonho de viajar para o exterior e da sua janela vê aviões decolarem e aterrizarem. Imagina que aquele movimento de sobe e desce também é um pouco seu e sobrevive. Come mal, dorme pior e seus laços afetivos, não tem nome de família. Trabalha numa loja de aquários com peixes ornamentais e me inquieta essa representação da clausura em que vivem esses adultos na linha do abismo de uma metrópole. Eles não deram certo.

“Um homem sem trabalho não é um homem”, afirma Luca, um tatuador que vive com a avó numa casa. A idosa, durante todo o filme é chamada de velha pelo neto, com a qual estabelece uma relação de dependência económica e afetiva- apesar dele tentar se mostrar indiferente. A possibilidade da morte da avó o faz estremecer, mas não é suficiente para repensar a vida na totalidade. Está congelado.

Luís, namorado de Luara e amigo de Luca, trabalha numa farmácia e desvia medicamentos de uso controlado para complementar a renda. Vive numa pensão e o buraco no teto em seu quarto que aumenta gradativamente é o símbolo da degradação interna e externa.

Os três formam os mosqueteiros do apocalipse.

E a vida se desenrola num todo dia ela faz sempre tudo igual, num tom de sépia na tela e com uma música que perturba os sentidos, dando aquela sensação incômoda de vazio.

Uma caixa de papelão que quando se é criança, é toca, casa, túnel e mistério. Um lugar para se esconder da vida.

O processo de amadurecimento dos personagens é lento, arrastado, como a tartaruga que vive na casa da avó de Luca. Ela é um símbolo de um tempo que é do vagar – angústia que assola os três. Talvez não seja muito diferente do tempo da mulher da minha cidade que fica horas apreciando vitrines com o olhar fixo. Mas ainda existe uma força de mudança, apesar da apatia que corre nas veias de um sangue já esbranquiçado, anémico. A tartaruga fica de casco para cima, sem força, sem capacidade para voltar a sua posição inicial. Costumeira sim, mas responsável pelo comodismo que permite que ainda viva. E não é preciso ser tartaruga para experimentar isso. Luca, respondendo aos gritos aflitos da avó perante a agonia da tartaruga, desvira-a com tranquilidade e ela, então, segue o seu vagaroso caminho. O que Luca não sabe, ou não quer saber, é que ele é também uma tartaruga – de casco para cima.

Falta a ação.

Luara tem mais que eles. Fotografa em uma camara polaroid ganha de presente momentos, porque acredita que tem direito a ter memórias suas. Ela tem consciência da precariedade dos vínculos com a vida e da atenção que a cidade lhe dá, que o país lhe oferece. Fotografa seus pés e cuida de peixes. Também pede emprestado sem autorização dinheiro da loja em que trabalha. Precisa viver, pensa. Precisa respirar apesar das adversidades. Ninguém mais conta uma história para ela dormir, e só encontra o lobo mau.

coresdvdEm dias de chuva, enquanto quem pode se abriga, a mulher da minha cidade caminha sem proteção, como se o sol brilhasse fortemente. Até porque a roupa é sempre a mesma e a vida para ela também é.

O que fazer então quando não há saída e esperança é já uma palavra desnutrida?

Talvez tomar um banho de chuva intenso em uma cidade como São Paulo, sentado em uma cadeira de praia, como se o sol queimasse o seu rosto.

Em “Cores”, os personagens fazem isso e eu lavo a minha alma junto.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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