Ridley Scott: ¿Que pasa?

O Conselheiro do Crime dirigido por Ridley Scott (The Counselor, 2013)

Difícil entender como um cineasta importante, responsável por três filmes – “Alien, o 8º Passageiro” (1979), “Blade Runner” (1982), e “Thelma & Louise” (1991) – frequentemente chamados de obras-primas, tal qual Ridley Scott, também seja capaz de realizar “O Conselheiro do Crime”. Talvez seja por que o projeto, em seu estágio inicial, fosse bastante atraente. O roteirista é Cormac McCarthy, responsável pelo livro que originou o superpremiado “Onde os Fracos Não têm Vez”, dos irmãos Coen. Já o elenco reúne nada menos que um dos melhores atores da atualidade, Michael Fassbender, o casal espanhol vencedor do Oscar Javier Barden e Penélope Cruz, os astros Brad Pitt e Cameron Diaz. Qual diretor não seria seduzido pela chance de trabalhar com gente assim?

Mas algo no meio do caminho aconteceu. Tony Scott, o irmão, faleceu durante a produção. Artisticamente, Ridley não consegue manter o alto nível de tempos atrás: seus últimos trabalhos consideráveis são “O Gângster” (2007) e, com boa vontade, “Prometheus” (2012). E o resultado final é uma trama insípida, previsível, com atuações no piloto automático, cenas desnecessárias e pontuadas por falta de ritmo.

Fassbender vive um advogado que aceita participar do comércio de drogas. Esse envolvimento custará caro. Seja profissionalmente. Ou amorosamente. Na história, conhecemos um pouco mais do tráfico realizado na fronteira entre Estados Unidos e México. Abordar a questão seria relevante, não fosse a falta de profundidade e a maneira como mecanismos do crime são apresentados, quase um guia para novos bandidos. Se o objetivo era criar um clima de suspense, não deu certo. Pois logo a princípio é possível perceber quem manipula a situação. Sem contar os diálogos constrangedores sobre sexo de Fassbender e Cruz e do mesmo com Barden.

oconselheirocapaAssim, “O Conselheiro do Crime” pouco diz a que veio. Tenta-se sensualizar Cameron Diaz, cujas rugas e o pesar do tempo estão cada vez mais visíveis. Ela quase deixa o corpo à mostra. Quase. E se carisma e jovialidade a faziam especial em Hollywood, a atriz parece estar fadada a interpretar vilãs de meia-idade daqui pra frente. Fassbender e Cruz atuam com dignidade, Pitt pouco tem a fazer e Barden está anos-luz aquém de seus melhores momentos. Fica a bela fotografia do polonês Dariusz Wolski, que nos apresenta ao caloroso universo da fronteira, dos desertos, estradas e cidades imensamente povoadas daquela região. Ah sim, alguém poderá alegar que a história é sobre perdas. Ok. Há perdas irreparáveis sofridas pelos personagens. Assim como as duas horas utilizadas para vê-lo jamais serão recuperadas.

Estreia no Brasil: 25/10/2013.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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