Os velhos morreram de overdose

Revista Caras Edição 145 Agosto de 1996

Não acredito na expressão Terceira Idade. Não utilizo, por desconfiar da ilusão da má fé, os termos Melhor Idade. Idosos, para mim, é somente mais uma arma politicamente correta, capaz de esconder os problemas reais e maquiar a velhice.

A vida nos envelhece. Ficamos velhos. Mas envelhecer está além dos muros da redundância biológica. Conheço pessoas com mais de 70 anos que tem uma vida mais agitada do que a minha. E conheço gente que se julga adulta por conta da carteira de identidade, mas que pensa e se comporta como se a Idade Média tivesse acabado ontem.

Tornar-se velho é mais do que tempo maior para recuperação de atividade física. É mais do que falta de fôlego para fazer o que fazíamos na semana passada. A velhice irreversível ataca mentalidade, valores, perspectivas de mundo. A velhice se prolifera pelas palavras e atitudes que indicam o quanto podemos nos agarrar em conceitos antigos e obsoletos.

Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan e Caetano Veloso envelheceram. Ficaram rígidos. Rasgaram parte do passado de lutas, residente em suas criações artísticas. Passaram a brigar pelas migalhas do artigo 20 do Código Civil, rascunho de censura dentro de uma legislação tão frankstein quanto seus argumentos publicados em jornais ou ditos na TV pela porta-voz Paula Lavigne.

Talvez influenciados pelo rei da música e do atraso, e autor desta letra mal escrita, o grupo de artistas provocou a distorção de um problema que inviabiliza a construção da História deste país. Mais do que discutir a privacidade de gente famosa, o artigo 20 pode assassinar o trabalho de historiadores, intelectuais e jornalistas. Pode enterrar qualquer caminho que nos permita se aproximar da veracidade dos fatos, ainda que sempre tenhamos versões e relatos.

É impossível não entrar na vida privada de alguém para conhecermos a personalidade pública. A vida privada é um dos principais indicativos para que possamos compreender os atos públicos, quando não nasce deles. O personagem dos holofotes é composto pelo que se foi e é dentro das torres do castelo. E, neste sentido, vida privada e fofocas são termos incompatíveis.

Dentro deste caldeirão, a turma do Procure Saber – a patota do rei Roberto, acostumado com os agrados de juízes, canais de TV e jornalistas – tenta minimizar as razões financeiras de seus atos. É parte do pacote de construção da imagem de vítimas.

A encenação esconde o que já acontece como rotina no Brasil. Produtores e diretores de cinema, além de escritores e jornalistas, são obrigados a pedir autorização para a realização de filmes e livros. Esta autorização é pedida a herdeiros; em muitos casos, coletores de dinheiro do parente falecido há décadas, com quem mal se relacionaram em vida e hoje defendem com unhas e dentes, como corretores na Bolsa de Valores.

É claro que o jornalismo e sua prima biografia abrigam preguiçosos e maledicentes. Para isso, existe legislação que prevê punições para calúnia, injúria e difamação. Há no Brasil, inclusive, uma indústria de indenizações, especializadas em casos de danos morais e materiais.

A cantora Angela Ro Ro, exemplo de quem foi massacrada pela mídia diversas vezes por conta dos escorregões privados, discordou de seus amiguinhos da MPB. Coerente, não se escondeu e foi direta: “É para isso que existem os escritórios de advocacia”.

Parafraseando Cazuza, que – por sinal – ganhou biografia e filme bajulatórios, alguns dos meus heróis morreram de overdose. Overdose de ganância e intolerância. Ironicamente, esta morte simbólica é pública e, portanto, estará na biografia deles, com ou sem autorização.

Marcus Vinicius Batista é jornalista e professor universitário. Adora escrever sobre histórias cotidianas e personagens anônimos. Escreve também sobre educação, política e futebol. É um goleiro mediano, leitor voraz e, paradoxalmente, sereno. Gosta de um bom cinema, que pode também ser um filme ruim. Apaixonado pela praia, pelo mar e por seus dois filhos, Mariana e Vinicius.

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