O cinema que nos abre para a parte mais honesta de nós: o sonho!

Nome Próprio dirigido por Murilo Salles (2007)
"Uma Babá Quase Perfeita"
“Uma Babá Quase Perfeita”

“A ficção pode fazer mais pela realidade do que a realidade tem feito por si mesma. A situação pode e deve ser revertida. Para tanto, basta que se unam as pontas do novelo e se celebre a parceria, pois o mundo virtual contém o mundo possível.” (Maria Lourdes Motter)

Faz dias que ando pensando nisso: em como a ficção desenrola nossa realidade e até nossas neuras. E como sempre, ocorre que me caem nas mãos leituras e filmes que engrossam a cadência do meu pensamento.

De uma maneira completamente nova, tenho deixado de me concentrar no desafio, para me concentrar na solução. Não fico mais dando ouvidos à mente frenética. Aliás, muitas vezes, vou ao cinema ou à livraria para justamente desacelerar por dentro. E funciona! Sempre elaboro uma nova ideia. A arte me acalma.

Às vezes, substituo a situação que me aflige por outra que me dá prazer. Por exemplo: alguém agiu com muita indelicadeza comigo. Eu poderia ir para casa e ficar remoendo, perguntando o que eu fiz para gerar aquela situação. Em vez disso, eu escolho um filme para ver, um livro para ler, um café para sentar e escrever. Parece uma técnica que induz à fuga (alguém pode pensar), mas não é. A arte funciona em mim como terapia de autoconhecimento. A arte, em todas as suas nuances, ativa minha imaginação e me conduz à originalidade em todos os setores da minha vida. Acabo tendo insights sobre a situação e vejo o que posso melhorar EM MIM em relação àquela pessoa.

Na verdade, não estou falando de ficção como algo separado da realidade, não é bem assim. Isto é muito relativo. Federico Fellini não distinguia ficção de realidade. Dizia ainda que é preciso prestar mais atenção no mundo dos sonhos. Assim, concordo com ele quando concebo a ficção como extensão da realidade. Ou seria o contrário?

Prova disso são os contos de fadas, perpetuados por gerações a fim de construir imaginários que possam servir de ferramenta para a resolução de questões emocionais no cotidiano.  Quem já conviveu com crianças, pode lembrar que os pequenos sempre elegem uma mesma história para ouvi-la toda noite. E nos perguntamos por que a mesma história. Será que não enjoam? A explicação da Psicologia para isso é que a criança está resolvendo conflitos internos, modulando a realidade através do mundo imaginário, ou seja, colocando devidamente as peças do quebra-cabeça emocional em ordem.

E o que dizer da nossa predileção por determinado filme? E a correspondência forte com alguma personagem? Ou ainda, o contrário, quando temos pavor ao considerar assistir a um gênero que não nos atrai?

"Dormindo com o Inimigo"
“Dormindo com o Inimigo”

Lembro-me quando saiu “Uma babá quase perfeita”, com Robin Williams. Eu assisti a este filme inúmeras vezes. Na época, cogitava, não sem sofrimento, minha separação. Mas claro, pensava nas crianças, como todo bom pai e mãe pensam. Mas aquele filme, de certa forma, funcionou como terapia para mim, uma espécie de amortecedor. Ele me ajudou a antever a situação e, assim, processar melhor tudo dentro de mim. Aos poucos, passei a vislumbrar uma vida feliz para os meus filhos, mesmo não tendo mais seus pais morando juntos. Eles também assistiram ao longa o mesmo número de vezes que eu. E desconfio que, em alguma parte interna deles, tenha feito um bem tremendo.

Além disso, já conheci mulheres que passaram por violência doméstica dizerem que “acordaram” depois que assistiram ao filme “Dormindo com o inimigo”, com Julia Roberts.

Afinal, o que o cinema pode fazer por nós? Quais as portas que ele abre ao iluminar nossas retinas? Muito mais do que respostas, hoje eu trago perguntas. Sim, são as perguntas que abrem as portas. Feito lá atrás como Sócrates propôs. A resposta, muitas vezes, pouco importa. São as perguntas que corroem estruturas aparentemente indestrutíveis.

Faça perguntas para você. (Pausa).

Foi numa época meio sem rumo na minha vida, em relação à escrita, que assisti ao clássico “O fabuloso destino de Amélie Poulain”. Sei que um monte de gente foi tocado por este filme, mas eu extraí dele a inspiração para escrever num formato diferente. Este longa representou pra mim uma nova maneira de criar. As cores, a proposta do filme, a fotografia, o enredo, enfim, tudo me inspira até hoje. Sou capaz de escrever um poema para cada cena do filme. Ele transborda em mim.

Outra película que me impulsionou na escrita e no trabalho mais focado no meu blog ‘Estripiti-se’ foi “Nome próprio”, com a Leandra Leal. O filme conta a história de uma blogueira ferrada que desatou a escrever como forma de salvar-se. Toda aquela fúria retratada na grande tela acionou algum botão interno em mim e passei a escrever jorrando, feito metralhadora.

Não sei se agradou a quem lia, na época. Só sei que escrevi e continuo escrevendo para mim. No fundo, é isso: eu me curo a cada letra, verso, estrofe. E sou, sim, muito perigosa, escrevendo.

Também preciso revelar: bebo do cinema para continuar escrevendo. Acontece que, depois, as palavras escorregam de mim, pelo canto da boca, pela ponta dos dedos. Mas não espero esvaziar. Não espero ficar com saudade delas. Corro, pego algum livro, assisto a algum filme, congelo imagens na alma, leio, sinto, reflito. É assim que sou alimentada.

"Nome Próprio"
“Nome Próprio”

No fundo, bem lá no fundo, eu me sinto alguma personagem de filme que escreve em tempo integral, que mora em alguma livraria e que compra frutas numa quitanda simpática. Ficção ou não, as nuances do meu desejo permeiam meu dia, tornando-o repleto de flashes, cenas, imagens e sensações felizes. Talvez, todo o mais visto pelos outros acerca de mim, seja apenas, um mero disfarce.

No fundo, ele também achava isso:

“Falar sobre sonhos é como falar de filmes, uma vez que o cinema utiliza a linguagem dos sonhos; anos podem passar em um segundo e você pode ir de um local para outro. É uma linguagem feita de imagens. E no verdadeiro cinema, cada objeto e cada luz significa alguma coisa, como em um sonho. ” (Federico Fellini)

Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

One thought on “O cinema que nos abre para a parte mais honesta de nós: o sonho!

  1. Mais uma crônica apaixonante! Parabéns pelas doces palavras, Mô!

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