Gravidade, Os Suspeitos, Diana e a polêmica das biografias no Brasil

Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman em Os Suspeitos dirigido por Denis Villeneuve (2013)

Confesso que precisava escrever as críticas com mais frequência, tentar abordar todos os lançamentos, ou os principais, digamos. No entanto, o tempo não tem permitido. Mas seguem algumas observações sobre filmes em cartaz na região. E que merecem nossa atenção.

“Gravidade”

"Gravity"
“Gravity”

 

Praticamente tudo se falou sobre a ficção-científica do grande cineasta mexicano Alfonso Cuarón. Que ele é mestre em fazer planos-sequência, já sabemos há alguns anos, principalmente por aquele de “Filhos da Esperança”: a cena dentro do carro, quando Clive Owen e Julianne Morre jogam uma bolinha de boca em boca. Aqui, o espetáculo técnico se repete: o início, quando os astronautas vividos por Sandra Bullock e George Clooney são atingidos por pedaços de um satélite russo, é impressionante. Aliás, impossível não se encantar com o visual do filme – e tentar descobrir como cada cena foi realizada. Só que não é a técnica pela técnica. Todo o trabalho desenvolvido pelo diretor e sua equipe está a favor da arte. Quando a personagem de Bullock se vê à deriva, no espaço, sozinha, a trama alcança um raro patamar filosófico: é o ser humano solitário, pequeno, indefeso. Nossa pequenez ante o universo. E, ao mesmo tempo, a valorização da nossa casa: poucas vezes o planeta Terra foi mostrado de forma tão bela, e real. Queremos evoluir, alcançamos tanto cientificamente, mas esquecemos de cuidar da nossa morada, do nosso habitat. Há os furos na história que os astronautas de verdade questionam. A exemplo da distância entre o satélite Hubble e a estação espacial, imensamente maior e quase impossível de ser completada por alguém solto no espaço. Isso é o de menos. “Gravidade” se aproxima do real em vários pontos. A realidade não só dos astronautas. A de nós, seres humanos. Se hoje temos computadores, celulares, redes sociais, curas para várias doenças, parecemos viver cada vez mais isolados, distantes um dos outros. O longa é chamado de obra prima por vários especialistas. Talvez seja cedo. Ainda mais por que 2013 tem sido um ano fraco cinematograficamente. Nesse caso, só o tempo dirá. Da maneira como ocorreu com – aí sim – uma das maiores obras-primas do cinema: “2001: Uma Odisseia no Espaço”.

“Os Suspeitos”

Em uma época cujos suspenses se repetem cada vez mais, apelam para soluções óbvias, sustos fáceis, trilhas sonoras clichês, eis um trabalho digno, bem engendrado, que tem violência. Porém, não uma violência colocada ali para chocar. E, se choca, é simplesmente por não partir daqueles personagens encarados como vilões, mas justamente de quem poderíamos chamar de mocinho. Assim, refletimos se tomaríamos a mesma decisão, caso enfrentássemos situação igual. Dá para entender cada atitude dos personagens, em especial o de Hugh Jackman. A trama até é simples. Dois casais de amigos e seus respectivos filhos se reúnem no Dia de Ação de Graças. Até se dar conta que as duas caçulas de cada família desapareceram. Há um suspeito, que tem o Q.I. de uma criança de dez anos. Tem o detetive, que fará de tudo para solucionar o caso. O elenco é bom. Reuniram Jackman, Viola Davis, Terrence Howard, Maria Bello, Melissa Leo, Paul Dano. E Jake Gyllenhaal: o ator compõe um policial introspectivo, que precisa guardar seus sentimentos e não fragilizar ainda mais as vítimas. A fotografia acinzentada, corroborada pela chuva constante, dá o ar de isolamento e tristeza que a história precisa. O desenrolar dos acontecimentos, pausado, vai deixando o espectador cada vez mais aflito, angustiado, e faz as mais de duas horas e meia passarem sem percebemos. Vale lembrar que o título original é “The Prisoners”. E esses prisioneiros não são apenas as meninas sequestradas. Cada um de nós, ao longo da vida, acaba prisioneiro de alguma angústia, situação, pensamento, relação. Da mesma forma que as pessoas apresentadas neste thriller dirigido de maneira competente pelo canadense Denis Villeneuve (do ótimo “Incêndios”, 2010).

“Diana” e a polêmica das biografias no Brasil

O título pode gerar uma expectativa que não se concretiza: não se trata de um retrato da vida inteira, mas de uma história de amor, um breve período de vida da Princesa de Gales. Independente de ser bom ou não (e não me desagradou tanto como a boa parte da mídia especializada, principalmente na Inglaterra), o lançamento desse filme no Brasil, no momento atual, chega em meio ao debate das biografias. Do jeito que a coisa vai, se a turma de dona Paula Lavigne e companhia prevalecer, não teremos filmes como esse produzidos aqui. A discussão atualmente fala da literatura, mas o cinema, o teatro, etc, virão a reboque. Há, vão falar de “Cazuza” e “Somos Tão Jovens”, longas que abordam as vidas de dois ídolos da nossa música e têm cenas apimentadinhas. Mas ambos são filmes “autorizados” pelos familiares dos artistas. “Diana” não. E precisamos, sim, da possibilidade de ver e realizar obras assim.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

One thought on “Gravidade, Os Suspeitos, Diana e a polêmica das biografias no Brasil

  1. Fatalmente, esse tipo de censura atingirá o cinema, como você bem colocou.

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