O sagrado escondido e o sagrado deslocado

Juan de los Muertos dirigidos por Alejandro Brugués (2011)

Para mim o Sagrado está intensamente nas menores coisas do nosso cotidiano e o cinema ao ampliar estas coisas em uma chave trágica ou épica diluída pela nossa neutralidade geral ao sairmos da sala de cinema e contornarmos o satori que é sair de um filme e entrar em outro muito mais enigmático. Estou dizendo uma coisa óbvia, mas é o óbvio que vai nos iluminar, o óbvio e nossos atos falhos. Dois filmes recentes “Juan de los mortos”, de Alejandro Brugués, e “Gravidade”, de Alfonso Cuarón,  promovem um deslocamento do sagrado para o mesmo ponto, no caso a dimensão da perda  que parece ser a matéria do tempo.

Em  “Juan dos Mortos” a carne perde toda a sua vocação para transcendência e se desvincula totalmente do espírito ou da metafísica. O Sagrado aqui é deslocado para a amizade que é ela mesma a pulsação da energia da vida. Estamos falando de um filme de zumbis que satiriza os filmes de zumbis. É uma sátira e não apenas uma comédia, mas sua cena final que me lembrou a cena final de “A Fúria do Dragão”, com Bruce Lee, ganha  uma bela dimensão épica. Uma das coisas que tento fazer nesta minha coluna é louvar este retorno do sentimento épico dentro dos filmes costurado com o a ideia da vida como uma tragédia que não precisa necessariamente encontrar sua resolução no niilismo. “Juan dos Mortos”  é um ótimo elogio da singularidade de um individuo contra a massificação, seja ela da ideologia do consumismo ou da ideologia de um outro tipo de totalitarismo.

"Gravidade"
“Gravidade”

“Gravidade”, de Alfonso Cuarón, é como “Alien, o oitavo passageiro”, de Ridley Scott, um estudo sobre a solidão e a  força do feminino, mas possui mais camadas de significado.  O espaço sideral aqui é espetacular e indiferente como a natureza nos filmes de Malick, mas sem os closes meditativos – aqui também temos uma dimensão épica que atinge seu Opus na cena final. Existe uma questão dentro do filme de Alfonso Cuarón que me tocou mais, o modo como o Outro dentro de nós se funde com a energia da vida e se torna  uma irradiação da consciência: em uma das melhores cenas do filme o sonho aparece como o espaço onde essa consciência pode se manifestar. É este espaço interior que inclui o Outro em nós que nos liga à vida. Estou sendo lírico em excesso, mas meus dez ou onze leitores poderão me perdoar, o lirismo como a paixão é uma doença incurável.

Em tempo a partir do dia 17, o Grupo Garage,  formado pelos artistas Costa Villar, Marcio Garrido, José Manuel , Olegário Monteiro, Jeanice Ferreira, Tatiana Justel e Marcelo Rayel,  estará  com uma exposição que tem como tema “O Sagrado contemporâneo” na Galeria de Arte no 2º piso do Teatro Municipal de Santos.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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