Os Estagiários: Porque todo ferrado precisa de um plano, nem que seja trabalhar no Google!

Cena do filme Os Estagiários com Owen Wilson e Vince Vaughn de Shawn Levy (Foto: Divulgação)

Tudo começou com um passeio no shopping. Depois de muito bater perna, minha filha sugeriu um cineminha. Deixei que ela escolhesse (mas não sou boa nisso, fico tensa). Deixei relutando, confesso. Ela sentiu que eu não estava à vontade com o filme escolhido, meio estilo Sessão da Tarde. Mesmo assim, compramos os ingressos. Afinal, em histórias de amor, mesmo entre mães e filhas, alguém tem de ceder.

Nos primeiros minutos do filme fiquei incomodada com receio da previsibilidade tão comum em comédias americanas. Mas depois, tudo foi melhorando. Foi melhorando mesmo! E querem saber? Não chega a ser um filmão, mas é fiel ao que se propõe. Depois de algum tempo, ele esquenta e te envolve.

O longa conta a história de dois quarentões: Billy McMahon (Vince Vaughn) e Nick Campbell (Owen Wilson), que acabam de perder seus empregos obsoletos. Totalmente sem rumo e desatualizados para o mercado quase totalmente tecnológico, Nick começa a trabalhar como vendedor de colchões, enquanto Billy pesquisa na Internet alguma saída. Ambos estavam ferrados, mas como todo ferrado precisa de um plano, Billy convida o amigo, também ferrado, para pleitear uma vaga no Programa de estágios do Google.

Era evidente que eles não teriam chance, já que quando pensamos no perfil dos candidatos para trabalhar no Google, logo imaginamos jovens nerds antenados nas mais novas tecnologias. Mesmo assim, loucamente tentaram e eu adoro isso! Sempre há alguma habilidade escondida em nós capaz de abrir portas, até as mais difíceis. E a capacidade de arriscar-se e de não recuar diante do desconhecido continua sendo a tábua de salvação para quem não quer se afogar neste mar de incertezas que hoje vive o mercado de trabalho.

Mas vejam: que tipo de equipe pode se configurar quando dois quarentões, que vivem de verdade, de repente são jogados no mundo de jovens que vivenciam tudo através do computador, com emoções planas como a tela deste seu monitor agora? Claro, altas descobertas para todos. É muito legal sentir o entusiasmo de Billy, o personagem de Vince Vaughn. Tipo, dá pra ficar a fim dele mesmo! Ainda mais quando usa os aprendizados dos anos oitenta para motivar os mais novos, desenterrando a cena do filme Flashdance para motivar sua equipe. Contagiante! A plateia no cinema se empolgou junto.

Enquanto o filme rodava, eu pensava em mim e num monte de gente sobrevivente. Sim, nós que fomos crianças na década de 80 somos verdadeiros sobreviventes. Digo isto porque cresci achando que meu único desafio na idade adulta seria aprender Datilografia. Tudo bem, podem rir desta menina-moça pura de família quase boa.

Bem, isto é quase um drama para muitos da minha geração. Lembro-me da Olivetti que meu pai comprou e com ela a pressão de aprender a datilografar. Vencido este desafio, passa um bocadinho de tempo e eis que surge o computador. Mas que merda é essa? E eu que achava que tinha apenas a máquina de datilografar para vencer, deparo-me com outra máquina mais esquisita ainda, cheias de ícones na tela: um computador!

Daí você percebe que não tem jeito, que a vida é uma série de acontecimentos novos que vão empurrando pra frente até os mais desajeitados como eu, para longe do ponto inicial. Cabe a nós empacar no mesmo lugar ou seguir o fluxo e buscar a renovação.

A cena da entrevista é engraçada, assim como várias outras em que os dois amigos vão conhecendo o interior da grande empresa Google. Mas mais do que engraçado, o filme funciona como um profissional coaching gerenciando nossos sonhos e frustrações, pois nunca é tarde para recomeçar, para se reinventar. Esta é a grande lição do filme. Há certas habilidades que não envelhecem com a gente, pelo contrário, vão sendo aprimoradas. Enquanto os adolescentes que com eles conviviam debatiam-se em suas próprias limitações, os quarentões trouxeram uma gama de possibilidades sobre ser feliz.

Claro que a propaganda durante o filme é muito forte, como um grande anúncio em neon nos gritando “Google” o tempo todo. Ainda estou para ver outro exemplo de product placement no mundo do cinema com foi com este filme. Para onde vai a câmera, você enxerga as cores que definem o Google. Mas tem algo inteligente nisso tudo: não há uma exaltação da marca a fim de promovê-la cegamente. Os conceitos inseridos dentro da trama acabam por deixar a empresa em segundo plano, tornando-a até simpática para quem assiste.

osestagiariosposterEntão, meus queridos, peguem a pipoca e convidem pessoas de espírito leve para acompanhar vocês neste filme que fala sobre correr riscos e a importância de não temer parecer ridículo. Talvez o maior empecilho para certas realizações seja o medo do ridículo. Que grande bobagem! Nem tudo deu certo no filme, mas não é assim na vida também?

E no meio desse universo todo de informações dinâmicas onde googlar já virou verbo, só nos resta deletar todos os medos, startar mais experiências e nos lançarmos no mundo desconhecido que se abre para nós! Porque a vida e toda sua magia, queridos, nunca estão offline.

Um beijo cheio de f5 para vocês, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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