Contos da Lua Vaga: fluidez cintilante entre simbologias da vida e da morte e eu não tive medo

Eu sempre fui atraída por filmes orientais. Lembro-me bem de um a que assisti por volta dos meus quinze anos, idade em que tudo é intenso e profundo, sobre a história de um ocidental que, náufrago, foi parar numa ilha de samurais. Tanto tempo vivendo ali, tornou-se um deles e o destino de sua vida inteira mudou. Em minha condição de menina, ingressando no colegial, seria tão improvável morar em uma terra longínqua e tão adversa à minha, mas, sinceramente, eu desejei isso. E guardo essa experiência-vontade-desejo até hoje, de viver essa aventura, de visitar uma cultura bem diferente da minha, de treinar outros olhares e pensamentos, de desfazer alguns paradigmas tão enraizados cá dentro. De lá pra cá, foram vários filmes orientais pelo caminho a me arrebatar: “Lanternas vermelhas”, “Adeus minha concubina”, “Amor à flor da pele”, dentre outros.

Sou admiradora sim desse jeito mais vagaroso de sentir o momento presente que os orientais trazem no cerne de sua cultura. Eu gosto disso. Hoje, porém, com o peso massacrante do Capitalismo, muitos têm se distanciado dessa filosofia de vida. Mas eu acredito em essências, acredito que a essência habita os genes de um povo.

Mas tanta divagação assim não veio à toa. É que fui despertada pelo clássico “Contos da lua vaga”, do diretor Kenji Mizoguchi, sobre o qual me atrevo a tecer impressões a respeito para esta digníssima coluna. No entanto, queria agora, em vez de escrever somente, sentar com vocês leitores, assistir ao filme novamente e dar “pause” em várias cenas para conversar sobre elas. Ficaria mais divertido, não? Proporia uma conversa sobre os temas passíveis de ser retirados da narrativa, assim como a fotografia, o figurino, o jogo das câmeras, etc. Tudo isso regado a vinho ou a chocolate quente, dependendo do dia, da hora, das pessoas, essas coisas. Por enquanto, devido à inviabilidade da ideia, conversaremos por aqui. Eu me conformo. Mas se assistirem ao filme, por favor, reparem bem no jogo-movimento das câmeras e depois me contem. Eu me amarrei!

contos da lua vaga inicioBem, antes de iniciar, é interessante dizer que o filme levou o Leão de Prata em 1953, há exatos 60 anos! Também recebeu indicação ao Oscar na categoria de Melhor Figurino – Preto e Branco. Chegou ainda a ser indicado à Palma de Ouro em Cannes. “Contos da lua vaga” é a adaptação dos contos de um autor japonês do século 18, Ueda Akinari. Apresenta também nuances inspiradas no conto “Décoré!” de 1883, do escritor francês Guy de Maupassant.

A história se passa no século XVI, época de muitos conflitos militares no Japão. Trata-se da história de dois irmãos, Genjuro e Tobei, e de suas respectivas esposas, Miyagi e Ohama. Um dos irmãos, Genjuro, quer ficar rico vendendo suas cerâmicas e se tornar um grande comerciante. O outro, Tobei, quer ficar rico para poder comprar uma armadura de samurai. Ambos comportam-se domados pelo ego e completamente cegos, são aconselhados em vão por suas esposas e por sábios do lugar. A ambição, porém, ensina-lhes uma amarga lição ao final.

O enredo é simples e o gênero fantástico. Em nenhum momento choca-se com a realidade da vida cotidiana e braçal, onde a poesia visual e das ideias permeiam. Encaixa-se perfeitamente no gênero proposto, mesclado também por drama. Apesar de a película ser em preto e branco e, em algumas vezes, haver mais sombras que luzes nas cenas, a fluidez cintilante da fotografia nos leva a uma magnífica compreensão do enredo. A câmera, girando devagar, remete a um pincel poético colocando em evidência o personagem em questão dentro de cada cena.

No início, lembra quase o tempo de uma ópera, com cenas que se abrem e se fecham entrecortadas pelo escuro, mostrando o cotidiano de dois irmãos moradores de uma vila feudal imersos em conflitos pessoais. Mas é quando o barco, com as duas famílias, atravessa o lago em meio à névoa densa que adentramos o mundo onírico sugerido pelo filme. Naquele momento, veio em mim a seguinte impressão: trata-se de um filme sobre fantasmas? A mão perspicaz do diretor, junto com a fotografia impecável de Kazuo Miyagawa, nos envolve nos planos das cenas e dão o tom, fazendo-nos antever o que está prestes a se revelar.

Tudo se desenrola numa cadência quase orquestrada. A cerâmica precisa ser vendida na cidade antes que a luta comece, declara Genjuro. A mulher quer ir com ele, mas o marido determina que ela fique e cuide do pequeno Genichi, filho do casal. Enquanto isso, o outro irmão se despede da esposa e durante a discussão, profere: “Quão alto um homem pode subir sem grandes sonhos? A ambição deve ser sem limites como o oceano”. Ao que a mulher retruca: “Sonhador! Você nem consegue empunhar uma espada.” Mas o marido, cansado de ser pobre lavrador, não a escuta. Assim, ambos os irmãos partem, entre gemidos e esforços, para empurrar a carroça contendo cerâmicas rumo à cidade. “Um pouco de dinheiro acende a ambição dos homens”, um sábio diz assim que eles deixam suas casas.


O filme completo

As ideias fixas acabam por se tornar grandes armadilhas no caminho. Os irmãos, ao experimentar moedas de pratas em suas mãos, acabam por perder-se deles mesmos. Tobei cisma em se tornar um samurai e Genjuro, iludido pela beleza da riqueza, cai num feitiço assustador de uma mulher misteriosa.

Ambas as esposas não queriam kimonos de seda. Elas se alegrariam apenas com a bondade do coração de seus maridos. Uma delas diz: “Eu não preciso de mais nada enquanto (você) estiver comigo”. Mas nem toda a declaração de amor e dedicação delas foi suficiente para impedir a jornada em busca de riquezas dos dois homens rumo à Nagahama. Eles colocaram tudo no forno da vida: as forças, a alma, tudo.

O canto no lago é a parte mais linda do filme. Uma das esposas entoa: “Esse mundo é uma residência temporária.” O excesso de névoa no lago cria uma atmosfera de sonhos. Neste momento, todos já se parecem com fantasmas. Mesmo assim, não tive medo.

“Contos da lua vaga” é cheio de ocasos de seus personagens, sombras e luminosidades. Para quem busca técnica e conteúdo cinematográficos, o filme é capaz de magnificar a sétima arte merecendo o título de clássico, por ser atemporal e arrebatador.

O filme ainda nos presenteia com uma gama de simbologias, a começar pela lua. Já é sabido que o diretor admirava o universo feminino e sua sabedoria, tendo sido considerado um diretor feminista. Suas personagens femininas sempre se apresentaram como mulheres sofredoras, fortes e de grande participação nas tramas. A lua, presente no filme, traz como símbolo a feminilidade, com a força emanada por sutilezas. A lua ainda abarca a ideia do que está encoberto-oculto, ou seja, prestes a ser revelado. Simboliza também a evolução através de suas fases e remete ao mundo onírico. Todos esses elementos estão presentes no filme.

contos da lua vaga filmeOutro símbolo igualmente forte na película de Mizoguchi é o lago. Em várias cenas ele aparece ao longe. Porém, é durante a travessia que ele ganha maior expressividade, tomando todo o campo visual da cena. A vida vira o lago, o próprio lago por onde eles atravessam, numa transmutação metafórica fabulosa.  Tomado de névoa, ali se inicia o viés fantástico do filme. O lago é também um forte símbolo feminino, revelador de poderes místicos. Em sua simbologia maior, representa a transição da vida, morte e ressurreição. Traz ainda o poder de levar seus observadores ou navegantes a refletir, como um espelho, numa mágica contemplação de si mesmos, navegando em inconscientes.

Não é novidade para ninguém que muito do que vemos hoje, foi extraído de clássicos. Muitos bebem destas obras para “criar”. Não sei se somente eu tive a impressão de que “Ghost” teve uma de suas cenas inspiradas em “Contos da lua vaga”. A mesma cena da argila, a confecção do vaso e a infinitude do amor estão no clássico. Em outra cena também, é possível remeter ao gracioso “Noiva cadáver” quando Genjuro envolve-se com Lady Wakasa.

Não resta dúvida de que “Contos da lua vaga” precisa ser visto várias vezes para captar a rima incontestável entre vida e morte, luz e sombra, ambição e gratidão presentes no filme.

O final não assusta, pelo contrário, acalma. Com um desfecho carregado de lirismo e delicadeza, Genjuro ouve da mulher: “Tantas coisas aconteceram. Finalmente você se tornou o homem pelo qual eu esperava.”

contosdaluavagadvdTermino aqui, inacabada e inebriada, por ter mais tantas outras coisas a dizer sobre este filme que não tem nada de previsível. Resta então convidá-los a assistir a esta película, para que a conversa não acabe aqui. Para que esta história nos atravesse e inspire a entender que, como afirma Eckhart Tolle, autor de “O poder do agora” (livro que repousa em minha cabeceira e que anda mexendo comigo), o segredo da vida é “morrer antes de morrer e descobrir que não há morte”.

Um beijo cheio de gratidão, Mô Amorim.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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