Não sou uma lata

estereótipo (1)

Creio que até hoje não superei a fase dos sete anos, aquela de questionar tudo. Por ponderar demais, meus amigos de direita pensam que sou de esquerda e os de esquerda pensam que sou de direita. A verdade é por que alguém tem de estar à direita ou à esquerda? Será que os tão radicais leram de verdade Marx, Keynes e Adam Smith? Pois, lendo um pouco do que eles escreveram já dá para perceber como deturparam suas teorias na prática.

Qualquer tipo de etiqueta e rótulo é irritante. Não somos latas. Não dá para colocar um  rótulo de ervilha ou tomate, pois, às vezes, vai ter atum e outras milho. E, quase sempre, será tudo junto e misturado. O conteúdo do vasilhame varia e sempre vai variar.

Sempre fui a menina CDF de vestido cor-de-rosa.  Lembro que, ainda na época da faculdade, uma colega veio dizer que nunca imaginou que seria legal ir à balada comigo. Oi? Um nerd não se diverte?

Mais de uma década depois, em Madrid, saí com uns colegas de um curso que fiz lá.  Como velhos hábitos não morrem, sim, ainda sou a CDF que adora usar vestidos… E alguns são cor-de-rosa. Aliás, é melhor explicar que fui com uma bolsa de estudos, antes que já escute um ” tá podendo…”  Na balada tocou aquelas músicas “brasileiras” que, em teoria todas brasileiras devem sair se rebolando. Humm, que esquisito, a brasileira não saiu sambando. De repente, para a felicidade dos meus ouvidos, o DJ mudou o repertório. Começo pular e, de repente, vejo a cara de espantos de meus colegas e escuto que não tenho cara de quem gosta de Ramones. Perdão, qual é o dresscode para gostar?

O fato é que vemos somente pedaços de um todo. Julgar alguém só por uma peça da trocentas que existem para formar o quebra-cabeça de mais de mil peças que somos é muito superficial. Será mesmo que o hábito faz o monge? Sim, dá pistas de quem está dentro, mas estereótipos são sempre enganosos.

O engraçado da história é que quem gosta de julgar pelas aparências alguém pode acabar entrando num padrão e seus preconceitos num estereótipo.

O etiquetador-alternativo é o que te olha com cara de reprovação se você está com uma bolsa de couro. Torce o nariz se você está comendo um bife. Seus argumentos são nobres, apesar de algumas contradições.  É vegetariano porque preserva sua saúde e respeita os animais, mas fuma cigarro (tabaco faz bem?). E o outro cigarro que fuma é comprado de um pequeno  homo sapiens que vive marginalizado na sociedade tão criticada pelo etiquetador-alternativo. Só que ele não percebe que somente legitimiza aquilo que tanto critica.

Nessa linha, há um variante, aquele que te olha torto se você trabalha como um louco para se sustentar. Diz que seu ideal de vida é burguês. Vai para a todas as manifestações para mudar a sociedade. Conta com orgulho que foi garçom em algum país na “gringolândia”, só esquece de contar que o papai (em muitos casos um representante da burguesia) mandava dinheiro todos os meses para ele. Aliás, faz isso até hoje, pois o ser ainda vive com os pais ou em um apartamento que seja da propriedade da família.

O contrário tampouco é animador. O rotulador-fascista diz que bandido bom é bandido morto e te olha fuzilando quando você fala de Direitos Humanos. Se você fala que não concorda com pena de morte e é à favor da distribuição de renda, já te vê com um boina vermelha na cabeça.  Também há a variante religiosa que tenta te convencer que o seu credo é melhor e que por isso é uma pessoa melhor do que as demais.
O impressionante é que você pode passar do burguês sem alma  a uma espécie de hippie que come criancinha dependendo da pessoa que vive para julgar os demais por fragmentos.

Há ainda o pobre coitado que vive em um “mimimi” eterno. É um grande sofredor. Tudo dá errado para ele. Tudo para você dá certo. Mas se você olhar bem de perto, o coitadinho na realidade é você. A pessoa tem preguiça para tudo e não vê o esforço de ninguém. A culpa é do papa, do governo, do FMI, do ex, do vizinho… Ele nunca se vê responsável por aquilo que lhe acontece.

A variedade é grande, há o rotulador intelectual, o elitista, o fashionista, o Politicamente correto, o preconceituoso declarado… É uma infinidade. Essas pessoas são tão caridosas que cuidam da vida alheia mais que as delas.

Cada um tem uma maneira de ver a vida. Cada um nasce com um jardim. As plantas e flores escolhidas cabem a nós. Nascemos para ser jardineiros de nossas vidas e não etiquetadores das flores alheias. Mesmo porque vemos uma parte, nunca vemos o todo da vida de ninguém.  A vontade mesmo é dizer: “Vão todos à m…!” Entretanto, a etiqueta que vão nos colocar será de sem educação.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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