A Filha de Ninguém de Hong Sang-soo, Ondas do Destino de Lars Von Trier e o Manifesto Sabiá

asondasdodestino

Quem acompanha minha coluna sabe que sou um admirador incondicional de Lars Von Trier e de seu sentido épico para uma psicopatologia da vida cotidiana. Acaba de ser lançado em DVD “Ondas do Destino”, o primeiro filme dele que vi no Cine Arte Posto 4. Neste “Breaking the waves” existe a mediação e construção das camadas narrativas pensadas como uma set-list de Vjs, como se Andrei Tarkovski fosse um Vj elaborando uma set-list com paisagens e canções dos anos 60 e 70. E  isto é utilizado no filme para acentuar o distanciamento brechtiano. Lars é alguma coisa entre Brecht e Tarkovski com um pouco da crueldade artaudiana elaborada como ironia.

http://www.youtube.com/watch?v=IAechmRMKxc A Filha de Ninguém

Desde a primeira coluna já deixei bem claro que o que faço não é crítica cinematográfica, tampouco me interessa a resenha, este esquartejamento e nivelamento por baixo do ensaio crítico. Godard costuma dizer que a crítica de cinema acabou, melhor do que afirmar que o cinema acabou – percebam, esta é a diferença crucial entre acreditar e saber. Godard vem aí com seu novo filme “Adeus à linguagem” e Lars volta a estudar as camadas obscuras da Europa em “Ninfomania”.

http://www.youtube.com/watch?v=b_3Nio8P5gQ Ondas do Destino

Sou partidário do embaralhamento entre ideias, coisas, lugares e pessoas, sou pela fusão de diferenças, o que leva não ao cinema de Godard ou de Lars, mas ao do coreano  Hong Sang-soo que em um de seus últimos filmes “A Filha de Ninguém”, vai longe no embaralhamento entre  os processos de escrita e os processos de apreensão do mundo pela memória e pelo sonho. Ele está construindo com sua filmografia uma poética da fusão entre o cinema e o sonho. Em uma espécie de ressonância com Hong Sang-soo eu e meu amigo Kleber Nigro escrevemos um manifesto ornitoonirológico, que pode ter nascido da sensação provocada pelo filme do coreano. Eis abaixo o manifesto que havia sido publicado anteriormente como Nota na rede social Facebook:

Manifesto Sabiá

Conversando com um amigo sabiá, rimos muito das reclamações que fizeram de seus cantos. Ele disse que os cantos que mais incomodam são os quânticos desatrofiantes, que interiorizados oniricamente na cidade geram como primeira reação uma imediata indignação com os véus cegantes da pseudo exterioridade, e tem como consequência um acordar-revolta contra o próprio canto-reza (ele nomeou esse processo como ornitoclash anticósmico). Disse ainda que repelimos os cantos dos sabiás e dos sábios com a mesma ignorância que destruímos as abelhas humanas, atordoados e anulados pela pluriesquizofonia congelante e assassina do irreal. Tive de concordar, e rimos ainda mais. Quando lhe perguntei sobre os limites da desrazão, ele voou.

Depois me deitei no sofá e sonhei que ele não havia voado e havia começado uma convenção telepática de Pássaros do mundo inteiro e o Sabiá pousou em cima da lâmpada da sala e começou um canto-diálogo com o ‘Ele’ que é o eu dos sonhos:

Sabiá: – Nós somos o mesmo pássaro, mas de todas as formas de asa o seu olho é a mais bonita, a asa fechada no circulo, com todos estes fios finos.

Ele: – Supercordas para receber as imagens do cosmos disfarçada.

Sabiá:- O canto do olho cria todos os sóis, você é um Sabiá diferente dos outros.

Ele:- Eu sou um Sabiá, porque é o que todos nós dizemos quando encontramos vocês, definição é o assassinato pela nomeação.

Sabiá:- Sim, vocês cantam isso com o olho-boca, mas a porta , o que vocês chamam de bico em mim, é  em outro lugar na cabeça e é também um ovo que vocês quebram por dentro.

Ele:- O cérebro, o nome do nosso bico é cérebro.

Sabiá:- Então a flutuação dos raios é para dentro dos fios, aqui o ar é delicado e podemos conversar, mas meus eus estão chamando e tenho de voar para fora do seu dentro.

Eu acordo e não consigo  mais pensar em outra coisa a não ser na origem da palavra ‘ Sábio’ e na ligação entre o canto dos Sabiás e o canto quântico dos Pré-Socráticos.

Fim do Manifesto Sabiá

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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