A Rainha Diaba: crítica à ditadura e a censura não viu

Rainha Diaba lembrando muito Almodóvar

Eu estava procurando algum filme do Almodóvar para assistir online. Eu queria um pouco de laranja e vermelho na minha horinha de folga, algo original. De repente, encontrei “A Rainha Diaba”. Bateu curiosidade. Deu vontade de ver como o mundo se portava em 1974, época do filme. Vasculhei alguma nota sobre o longa e me surpreendi com a lista de premiações que tal produção recebeu. E querem saber? Que filmaço!

Talvez os leitores desta coluna estranhem um pouco, já que meus textos costumam ter como objeto filmes suaves, reflexivos e românticos. Este, por exemplo, não lembra em nada toda a filmografia anterior comentada por mim aqui no Godivas. Mas não tinha como ignorar alguns monstros atuando em papeis improváveis. Nesses casos, considero a escrita me pedindo algum atrevimento e eu, claro, permitindo. O filme tem tiros, sangue, drogas, prostituição. Mas também tem um Rio de Janeiro que pode ser captado em flashes inocentes.

O elenco me atraiu de cara ao constatar os grandes nomes da dramaturgia nacional como Milton Gonçalves, Odete Lara, Nelson Xavier, Iara Cortez. Esta última ressoou em minha memória no papel de dona Xepa na televisão. Eu era criança, mas consigo me lembrar. O filme começa com “Índia” na voz de Paulo Sérgio. Aliás, a trilha sonora é maravilhosa, conduzida por Guilherme Vaz.

O filme foi apresentado ao público em 1974. Foi dirigido por Antonio Carlos Fontoura, sim, o mesmo que dirigiu recentemente “Somos tão jovens”.

rainha diaba maquiando-seÉ quando toca “Fica nos meus braços só mais um instante” que o filme começa. “Por hoje é só, meninas. A visita da rainha está chegando.” – diz Violeta, interpretada por Iara Cortez, referindo-se à Rainha Diaba, travesti que controla a distribuição de drogas na cidade, interpretado por Milton Gonçalves. Sei lá, depois de assistir a este filme, fiquei meio decepcionada como a atuação dessa nova leva de atores. Mas voltemos ao filme.

A Rainha Diaba recebe então seus “súditos” enquanto depila a perna na cama com uma navalha. Aliás, essa navalha vai trabalhar muito no filme. Ela está preocupada, pois está perdendo o tráfico para os filhinhos de papai. Enquanto isso, toca no radio um rock cheios de “uhs” na Eldorado Faixa Jovem, 98.1 mega-hertz. Robertinho, um dos seus, virou alvo da polícia e Rainha Diaba declara: “Se arrastam o Robertinho para a cadeia, está todo mundo ferrado.”

Faz-se necessário um plano. Resolvem fabricar um novo bandido e entregá-lo à polícia, como se fosse o homem procurado. Uma espécie de bode expiatório. É aí que entra Bereco, interpretado por Stepan Nercessian, um garoto cheio de si que se torna a isca perfeita.

Calças boca de sino, cigarrilhas, óculos Ray-Ban, cartazes de cigarro Carlton, um raro prazer. O filme é uma verdadeira imersão na década de 70 para quem tem curiosidade em saber como era. Lá, todo mundo fumava. O rádio sempre ligado foi uma ideia genial para a trilha musical ser inserida naturalmente na trama. É possível ouvir o radialista anunciando as sardinhas Gomes da Costa e logo em seguida, a Discoteca do Chacrinha. Com um cenário totalmente kitsch que lembra Almodóvar, o filme também remete às cenas de sangue de Tarantino.

Talvez a primazia com que foi dirigido, “A Rainha Diaba” tenha escondido uma crítica à Ditadura quando faz referência à tortura. Mas ainda bem que a censura da época não entendeu. A interpretação magnífica de Milton Gonçalves rendeu-lhe o Candango de Melhor Ator no Festival de Cinema Brasileiro de Brasília de 1975. O ator foi peça central na narrativa cinematográfica. Unido aos elementos estéticos, dialogou perfeitamente com as nuances da trama, intensificando sua perfomance numa irreversível imersão dramática.

http://www.youtube.com/watch?v=CxnXUUF611Q

“Bora, Bereco’’ era o que dizia Catitu (Nelson Xavier) em cada lugar em que assaltavam. Assim, o nome do jovem aventureiro ia sendo espalhado para seu próprio azar. Opalas e Mavericks conduziam os assaltantes. Caminhões de antigamente com a faixa ‘’INFLAMÁVEL’’ escrita no tanque apareciam na tela. Pôster do Roberto Carlos na parede do prostíbulo e a gíria ‘’babado’’, com a conotação de “novidade”, trazem sabor especial ao filme. Pipa voando, meninos jogando fubeca, porcos sendo criados sem cercados, longas subidas sem pavimentação, barracos em meio ao verde numa favela quase humanizada e o típico pivete sendo enganado por se achar o tal. Essa foi sua armadilha: achar-se esperto.

No rádio toca “ainda estão a dançar, no vento alegre que me traz…” contrastando com a aridez da situação de crime e traição que impera no mundo do tráfico. Em uma das boates, cujo nome é ‘’Leite da mulher amada’’ trabalha Isa, mulher que sustenta Bereco. Ela declara seu amor ao pivete: “Passei esse tempo abilodada por tua causa. Tu nem tava aí, penei paca, vagal.” E Isa canta majestosamente “Molambo”.

rainha diaba 3“A Rainha Diaba” pode servir ainda de material riquíssimo à Linguística, com suas gírias contextualizadas num encaixe perfeito dentro da trama. Expressões como “cafofo desbaratinado”, que quer dizer arrumado, são joias em alguns diálogos do filme.

Bem, eu fui fisgada. O filme é maravilhoso. Tenho certeza de que quem se propor a assistir a este filme irá enxergar a grande riqueza artística que ele guarda. E talvez, possa até encontrar mais elementos estéticos e estilísticos que eu. No mais, amigos, o final inesperado com um solo de guitarra espetacular e cenas de sangue à la Tarantino, é de tirar o fôlego. Não há mais nada a dizer, nem sequer refletir a respeito de qualquer assunto que porventura o filme evoque. Ele próprio se basta dada a majestade de sua concepção. Um beijo a todos e até a próxima imersão no mundo fantástico do cinema, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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