Na Terra de Amor e Ódio: Angelina Jolie dirige belo filme sobre guerra da Bósnia

naterra

“Na Terra de Amor e Ódio”, no original In the Land of Blood and Honey, é um belo filme. Trata da guerra da Bósnia e, portanto, é daquele tipo de filme duro de se ver: há atrocidade demais, violência demais, sofrimento demais.

Mas é um belo filme, e é necessário. Muitos filmes já foram feitos sobre as atrocidades cometidas na ex-Iugoslávia nos anos 90, mas são sempre bem-vindos, porque há sempre uma esperança de que eles ajudem de alguma forma a humanidade a repetir essas tragédias.

Isso posto, é preciso tirar o chapéu para Angelina Jolie.

Angelina Jolie me parece uma figura polêmica. Mary, aqui ao lado, me contesta, diz que não acha que ela seja polêmica – mas admite que há muita gente que não gosta dela, que a acha antipática. Para mim, isso é ser uma pessoa polêmica.

No mínimo, é uma pessoa que muita gente considera antipática. Talvez metida, presunçosa, do alto daquela beleza estranha, exagerada, fenomenal. Tem essa coisa de estrela extravagante, mãe adotiva de uma penca de filhos. Já trabalhou em muita porcaria, filmes de ação descerebrados, tipo “Lara Croft”, “O Procurado”, “Salt”, “Sr. e Sra. Smith” – embora tenha também atuado em bons filmes, como “A Troca”, de Clint Eastwood, “Garota, Interrompida”, de James Mangold.

Bem, em suma: nunca fui muito com a cara dela – embora reconheça que é uma cara linda.

Depois de ver In the Land of Blood and Honey, tiro meu chapéu para Angelina Jolie.

Este foi o segundo filme dirigido pela estrela. Antes, em 2007, havia dirigido um documentário, “A Place in the Time”. Ao vermos In the Land, sabíamos que era o primeiro longa de ficção dirigido por ela.

Fez um trabalho respeitável, admirável, como diretora. Não parece, de forma alguma, coisa de estreante. Não tem nenhum tipo de fogo de artifício, invencionice formal, tão comum aos iniciantes. Ao contrário: sua narrativa é sóbria, simples, direta, sem afetações, maneirismos.

E não é um filme fácil de dirigir, de forma alguma. É um filme complexo, com muitos personagens, abordando uma situação limite; há sequências de batalha, de tortura, de estupro. Os atores são de outra nacionalidade – os dois principais nasceram em Sarajevo, na Bósnia e Herzogovina, e os demais também são das diversas repúblicas em que se dividiu a antiga Iugoslávia após o fim do comunismo.

Ficamos, Mary e eu, impressionadíssimos com a competência da moça como diretora.

A surpresa aumentou muito mais quando, nos créditos finais (como se usa agora, não há créditos iniciais), vimos que Angelina Jolie é também a autora do argumento e do roteiro.

O argumento e o roteiro de In the Land são muito bons.

É uma história bastante complexa, a que Angelina Jolie criou, em seu primeiro argumento, primeiro roteiro. Além de toda a situação histórica que é confusa, difícil de se compreender, ela ousou inventar uma trama de amor/ódio entre os dois personagens centrais ousada, multifacetada, cheia de nuances psicológicas que uma douta junta de Freuds e Jungs e escambau apanharia para desvendar.

A comunidade das nações não pode assistir a um genocídio passivamente

As intenções da autora e diretora são evidentes – e bem evidenciados na tela. É uma denúncia da barbárie – a maior barbárie cometida na Europa desde o nazismo e a perseguição nazista a judeus, ciganos e pessoas com os mais diversos tipos de excepcionalidade. É uma denúncia da barbárie que de repente se instala entre grupos de etnia e religião diversos que até então conviviam pacificamente. Mas, especificamente, é uma denúncia da tentativa, à la nazismo, de extermínio dos muçulmanos que viviam na Bósnia e Herzegovina, e sobretudo da barbárie contra as mulheres bósnias, fossem muçulmanas ou croatas, pelos sérvios.

Mas, acima de tudo, o que o filme quer dizer, me parece, é que a comunidade das nações não pode ficar simplesmente assistindo a um genocídio e não interferir.

O que o filme não faz é tentar entender por que razões, por que motivos a barbárie de repente se instala entre pessoas que até um determinado momento conviviam uns com os outros. Por que raios de repente pessoas que estudavam nas mesmas escolas, frequentavam os mesmos bares, as mesmas praças, passam a se enxergar com um ódio secular, milenar, simplesmente por serem de origens étnicas diferentes, praticarem religiões diferentes.

E faz muito bem o filme ao não tentar entender razões, motivos. Simplesmente porque não dá para entender, compreender, explicar.

É inexplicável. Escapa a qualquer tipo de lógica, de raciocínio.

Uma bela jovem se prepara para reencontrar um antigo namorado

Um letreiro diz, na abertura do filme: “Antes da guerra, a República da Bósnia e Herzegovina era parte de um dos países de maior diversidade étnica e religiosa da Europa. Muçulmanos, sérvios e croatas viviam juntos em harmonia.”

Outro letreiro precisa onde e quando: “Bósnia e Herzegovina, 1992.”

Não caberia ao filme explicar, é claro, que entre o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e 1992, com o fim do comunismo na União Soviética e em seus países satélites do Leste Europeu, existiu ali a República Socialista Federativa da Iugoslávia, dirigida durante a maior parte de sua existência pelo Marechal Tito, e que era constituída pela união federada de seis repúblicas: Sérvia, Croácia, Montenegro, Eslovênia, Macedônia e Bósnia e Herzegovina.

Uma bela jovem se prepara para reencontrar um antigo namorado. Nas primeiras sequências, ela está pintando um auto-retrato – de alta qualidade –, num apartamento classe média, enquanto um bebê está no berço a seu lado. Chama-se Ajla, com o j valendo por i – pronuncia-se Aila. (A atriz que interpreta a protagonista é Zana Marjanovic, nascida na cidade de Sarajevo em 1983, nos tempos da paz comunista do Marechal Tito, apenas ridículos nove anos antes dos eventos mostrados no filme.)

Ajla está no apartamento da irmã mais velha (creio, sem absoluta certeza, que seja Lejla, interpretada por Vanessa Glodjo). O bebê é filho da irmã. Não se faz referência alguma ao pai do bebê, assim como não se faz referência explícita a por quanto tempo Ajla esteve fora, onde esteve. A autora Angelina Jolie parece gostar de deixar não ditas algumas informações a respeito de seus personagens.

Ajla se veste para reencontrar o antigo namorado. A irmã faz questão de inspecionar como ela está, mexe no vestido dela, dá o batom para que ela capriche na apresentação.

Ajla caminha pela cidade – uma bela cidade, em paz. Entra numa boate, danceteria, em que uma banda se apresenta. (A música que se faz em Sarajevo e de resto em todas as repúblicas que formavam a antiga Iugoslávia é da melhor qualidade, uma fantástica mistura de influências do Leste e do Oeste europeus.)

O antigo namorado usa uniforme militar. Veremos que ele se chama Danijel (é interpretado por Goran Kostic, nascido em 1971, também em Sarajevo).

Revêem-se ao som de música, e dançam juntos, os namorados que haviam estado longe durante não se sabe quanto tempo.

Estão felizes, ao som de música e dançando, quando explode uma violenta bomba na boate.

Surge na tela o nome do filme, In the Land of Blood and Honey, e nenhuma outra informação. Estamos com exatos 5 minutos de um filme que dura 127.

A guerra havia começado.

Pula-se para daí a 4 meses, conforme explica um letreiro.

Os sérvios estão tomando conta da Bósnia e Herzegovina, com uma ferocidade semelhante à que os nazistas foram tomando país após país, a partir da invasão da Polônia em 1939.

Pretendem exterminar os muçulmanos. Pretendem fazer com que as mulheres muçulmanas tenham filhos sérvios. Cerca de 50 mil mulheres bósnias foram estupradas pelos sérvios durante a guerra, segundo nos informarão os letreiros ao final dos 127 dolorosos minutos do filme.

Ajla é muçulmana. Danijel é sérvio – e não apenas é sérvio, como é capitão do exército sérvio, e filho de um dos líderes sérvios, o (se não estou enganado) general Nebojsa (Rade Serbedzija).

A ação, iniciada em 1992, passará depois pela primavera de 1993, pelo inverno de 1994 e pelo verão de 1995.

É tudo tão duro, tão violento, as atrocidades são tamanhas, que por várias vezes pensei em parar de ver o filme.

A relação entre os dois protagonistas faz lembrar O Porteiro da Noite e A Passageira

Não sei Angelina Jolie viu “O Porteiro da Noite”, se foi influenciada por ele. Em “O Porteiro da Noite”, que a italiana Liliana Calvani dirigiu em 1974, um ex-soldado nazista, interpretado por Dirk Bogarde, tornado porteiro de hotel em Viena, se reencontra, 13 anos após o fim da Segunda Guerra, com uma prisioneira do campo de concentração, interpretada por Charlotte Rampling. Estabelecem uma relação sado-masoquista. Não me lembro muito bem do filme, que vi décadas atrás, e na verdade não tenho nenhuma vontade de revê-lo; minha lembrança é de que é um filme sensacionalista, baixaria, feito para chocar, provocar polêmica.

Mas me pareceu que a relação entre Ajla e Danijel tem algo a ver com aquela mostrada no filme baixaria de Liliana Calvani.

Não que Angelina Jolie tenha procurado baixaria. De forma alguma. O que na minha cabeça liga um filme ao outro é a extrema complexidade da relação entre uma prisioneira e seu carcereiro.

O polonês Andrzej Munk (1920-1961) morreu sem terminar um filme chamado A Passageira/ Pasazerka, que mostrava também uma espécie de reencontro, num transatlântico, de duas pessoas que haviam se conhecido em um campo de concentração nazista. Em Auschwitz, para ser preciso.

Os assistentes de Andrzej Munk terminaram o filme que o diretor não conseguiu finalizar. Preencheram as tomadas que não chegaram a ser filmadas com fotos, com informações sobre o que o realizador pretendia fazer. É um filme extraordinário, A Passageira. Se tivesse sido completado, seria sem dúvida uma obra-prima.

Vi A Passageira uma única vez, em Curitiba, com meu amigo Jorge Teles. Me lembrei bastante dele enquanto via o filme de Angelina Jolie. Tem a ver – embora não creio que a moça tenha visto o filme que os assistentes de Andrzej Munk acabaram realizando.

Infelizmente, o filme teve poucos espectadores – e muita gente que viu detestou

Angelina Jolie rodou seu filme na Hungria, basicamente. Pelo que dá para perceber pelos créditos finais, só uma segunda unidade filmou de fato na Bósnia e Herzegovina. Isso não faz nenhuma diferença. Registro o fato apenas pelo registro. O importante, o fantástico, é que todo o elenco seja de atores das repúblicas que compunham a ex-Iugoslávia.

O filme é tão bom, e a intenção da autora e realizadora é tão boa, que não incomodou o detalhe que em outros filmes me deixa exasperado: o de que as pessoas de país não de língua inglesa falem em inglês.

Tá: a rigor, o certo seria as pessoas da Bósnia-Herzegovina falarem na língua delas. Mas aí o filme simplesmente não teria nem um dólar nas bilheterias americanas.

Mesmo sendo falado em inglês, o filme foi um estrondoso fracasso de bilheteria. Segundo o Box Office Mojo, rendeu nos Estados Unidos pouco mais de US$ 300 mil. Segundo o IMDb, o orçamento (estimado) foi de US$ 10 milhões.

E muita gente que viu não gostou. O belo site AllMovie não se deu ao trabalho de fazer uma resenha sobre o filme – traz apenas uma pequena sinopse; só 10 leitores se deram ao trabalho de dar cotação, e a média foi de 2.5 estrelas em 5. No IMDb, a média da opinião dos leitores foi de 4,5 em 10. Mais: a internet está cheia de comentários furibundos,  metendo o pau no filme; há quem diga que ele não reflete a verdade dos fatos, que toma partido descarado de um dos dois lados do conflito.

Gozado: será que essas pessoas diriam que os filmes sobre o genocídio dos judeus tomam partido descarado de um dois lados?

Uma pena que o filme não tenha conseguido chamar a atenção do público. Porque ele de fato diz algo importante: que a comunidade internacional demorou demais a interferir na guerra interna e acabar com a mortandade, o genocídio.

Os letreiros ao final do filme não dão uma estimativa de quantas pessoas foram mortas na guerra civil na Bósnia-Herzegovina. Diz que aquele foi o conflito que causou mais mortes na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

E aí é dureza ver o filme exatamente no momento em que outra guerra civil cruel mata milhares e milhares e milhares de pessoas.

O ditador sírio Bashar al-Assad é responsável por uma guerra civil que já causou a morte de 100 mil pessoas. Ele é defendido pela Rússia do czar Vladimir Putin, ex-chefe da KGB soviética, e pela China. Naturalmente, tem a simpatia da diplomacia companheira do lulo-petismo.

Tá – as ex-repúblicas iugoslavas são uma coisa, o Oriente Médio é outra.

Mas é tudo tão insano quanto.

É doido. É enlouquecedor.

Talvez o melhor seja não tentar pensar sobre essas coisas todas. Cuidar da netinha linda, ou então, para quem não tem netinha linda, cuidar  do cachorro, do gato. Não são tão bonitinhos, os cachorrinhos, os gatinhos?

Angelina Jolie joga na cara da gente essa coisa sobre a qual seria melhor não pensar.

Tiro o chapéu para ela.

Na Terra de Amor e Ódio
2011. EUA. Drama. De Angeline Jolie. Com Zana Marjanovic (Ajla), Goran Kostic (Danijel), Rade Serbedzija (general Nebojsa), Vanessa Glodjo (Lejla), Nikola Djuricko (Darko), Branko Djuric (Aleksandar), Fedja Stukan (Petar), Alma Terzic (Hana), Jelena Jovanova (Esma), Ermin Bravo (Mehmet), Boris Ler (Tarik), Goran Jevtic (Mitar), Ermin Sijamija (Vuc).
127 min.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *