Românticos Anônimos: Mas o que dizer antes do verbo Amar?

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Alguns filmes obedecem a um gênero muito rígido. Outros, porém, conseguem trazer um frescor e originalidade capazes de não ser enquadrados em qualquer tipologia rápida. É o caso de “Românticos anônimos”, que recebeu predicados de comédia, no entanto, emocionou muita gente.  Trata-se de um filme franco-belga. Película delicada e não bruta. Não é frio, mas também não é quente como os de Almodóvar, que já proporcionam tons alaranjados de sol no pensamento, mesmo antes de comprar o bilhete. “Românticos anônimos” é uma comédia romântica que não tem piadas repetidas. Aliás, não espere por elas. Espere por uma fábula divertida e tocante, assim fica melhor.
Jean-René é dono de uma fábrica de chocolate e um tímido crônico. Angélique é uma talentosa doceira, igualmente tímida, que sabe fazer chocolates como ninguém. Na verdade, ela poderia prosperar muito, mas sua timidez não deixa. Os dois são frágeis. Os dois se notaram de imediato. Notaram-se existentes um para o outro, dentro agora, de um mesmo universo: o chocolate. Mas diferente da relação que ambos mantêm com este manjar dos deuses, não se colocaram como predadores um do outro. Ao contrário, assustaram-se imediatamente sabendo-se caça, presa. Jean-René e Angélique descobrem-se apaixonados, mas infelizmente, a timidez crônica não quer deixar este romance acontecer.

romanticos2E querem saber? Quase ninguém leva a sério este elemento presente em mais pessoas do que imaginamos: a timidez crônica ou a fobia social. Jean-René procurou um psiquiatra. Angélique buscou um grupo de ajuda “Emotivos anônimos” para tentar a cura. O próprio diretor, Jean-Pierre Améris,  disse que se inspirou na sua própria timidez patológica para escrever o roteiro.  Mas é claro que deu um tratamento carinhoso ao assunto, por vezes dramático. E por tratar assim, algo que soaria como um drama, “Românticos anônimos” torna-se quase comovente. A plateia, desconfio, sente pena de Jean-René na cena do restaurante, por exemplo, em que troca as camisas sucessivas vezes, de tanto suar.

Talvez, o tímido crônico nada mais seja do que aquele que escreve no pensamento muitas palavras antes de dizê-las. No entanto, entre o ser amado e o romântico anônimo, existe o verbo. Mas que verbo dizer, o que dizer, antes do verbo Amar?

A vida parece estar cheia de entendidos no amor. Cada um mais especialista que o outro. É uma verdadeira competição de teorias. Na prática, claro, a coisa não é tão simples assim. Quando é com a gente, tudo fica estranho e nebuloso.

“Românticos Anônimos” é a imprevisibilidade. Foge, de fato, do óbvio. Para quem abomina piada pronta, é a pedida certa. Até o cinéfilo mais exigente encanta-se com a delicadeza do filme. Quanto ao elenco, não há o que temer: os atores estão nos tempos certos para a constituição de seus personagens. Com gestos mínimos, porém, precisos, atuam milimetricamente encaixando-se no enredo. Nada sobra em “Românticos anônimos”.

E de repente, era como se Jean-René olhasse Angélique e dissesse: “Se não fosse essa timidez, eu me casaria com você”.
E durante toda sua duração, o filme revela o amor, flutuando ali na tela através das cores da narrativa e, claro, dos chocolates. Quantos chocolates! A espera da declaração, do primeiro toque na mãe dela, parece uma existência debruçada para não cair. E a plateia, torcendo, espera.


Na vida real, há um monte de Jean-Renés e Angéliques por aí. O tímido, de tão tímido, evita o toque e o passo rumo ao outro. É como se tivesse de pedir desculpas por compartilhar o mesmo ar. Mas essa patologia não se cura com chocolates, só com amor, acreditem.

Há várias situações engraçadas e, ao mesmo tempo, constrangedoras no filme. Uma das falas cortantes é esta: “Com coragem ou sem coragem, você precisa ir.” E, de alguma forma, todos nós já fomos tímidos o suficiente alguma vez para travarmos em determinada situação.

Jean-René a deseja demais. Quer levá-la para tirar os sapatos sobre o gramado. Quer tirar sua camisola fina à noite no quarto. Quer vê-la nua andando pela casa. Quer beijar todo seu corpo e alma lambuzados de chocolate. Quer sentir todos seus cheiros. Quer fazê-la gargalhar. Ambos querem a intimidade que só o amor proporciona. Mas como rasgar o véu que os separa? O final não decepciona.

Romanticos-AnonimosCom certeza, todo tímido guarda uma lua extravagante ou um sol de fevereiro no peito. Mas muito bem escondidos. Tímido não explode, implode. A explosão é por dentro e só ele sabe. Então, tudo fica mais intenso e tenso.

Talvez, queridos leitores, vocês estejam se perguntando por que sei tanto sobre o assunto? Ora, não me façam ruborizar! Que Deus ajude todos que, com vergonha de sentir tanto, teimam em se esconder. Uma coisa é certa: o tímido pode até tentar disfarçar, mas o amor de qualquer ser aparece escancarado feito neon nos olhos de quem ama. Um beijo, Mô Amorim.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

2 thoughts on “Românticos Anônimos: Mas o que dizer antes do verbo Amar?

  1. Mô Amorim, gostaria de dizer que adoro os seus textos (revelo que os seus textos e os da Viviane são os meus preferidos nesse site), mas nunca escrevi para elogiar os ótimos artigos que vocês escrevem nesse site através da coluna Godivas, mas dessa vez, me “atrevi” a escrever para elogiar o que você escreveu sobre esse filme incrível que é “Românticos Anônimos”. Você consegue transmitir em palavras, o mesmo prazer que temos em assistir aos filmes e acredite, isso é mais incomum encontrar do que pode imaginar, por isso mesmo merece os maiores elogios. Voltando ao filme “Românticos Anônimos”: está aí, um filme que gosto demais, delicado, com roteiro redondo e ótimo elenco e que ainda faz com que eu me veja na tela, afinal, me identifico pacas com o “tímido crônico”, Jean-René. Parabéns e que você e a Viviane continuem contemplando a nós cinéfilos com ótimos artigos, de filmes que merecem ser descobertos e revistos sempre. Abraços,

    Marcelo Reis

  2. Marcelo Reis, muitíssimo obrigada por suas palavras. Na verdade, escrever para o Cinezen é um exercício, antes de mais nada, de conversa com o leitor que propriamente um exercício de escrita. Acredito que, tanto eu quanto a Viviane, esperamos isso: saber-conhecer quem nos lê e sentir como as palavras caem em cada leitor. Mais uma vez, obrigada por nos acompanhar… Um abraço, mô amorim.

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