Três notas sobre o filme Amor Pleno, de Terrence Malick

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1.

O que acontece é que escrevo cada vez menos para dizer cada vez mais, não como o filósofo Wittgenstein, que Marjorie Perloff sabiamente associa com uma poética do dizer-silêncios e não do silenciar, como é erroneamente interpretado pela maioria – leiam  A Escada de Wittgenstein. Faço esta pequena nota dissonante de abertura para poder me reportar ao silêncio dentro dos filmes de Terrence Malick,

Já havia comentado em uma coluna anterior a respeito de seu filme  “A Árvore da Vida”, na época me referi a uma certa ecometafísica presente nos filmes de Terrence desde “Cinzas do Paraíso”. Neste “Amor Pleno” (To the wonder) ele se aproxima ainda mais do universo de Andrei Tarkovski, mas dentro não de um sutil desencanto, que era o centro do discurso nos filmes do russo, mas na periferia de um olhar que  funde sua ecometafíca do silêncio a uma ética do entre. Tratarei com mais profundidade disto em um futuro livro de ensaios, voltemos ao silêncio em “Amor pleno”. Existe um concerto de câmara feito com vozes nos filmes de Malick, as imagens dos personagens é apenas um esboço de uma energia que existe para que suas vozes possam atuar. Essa alternância entre imagens da natureza e vozes interiores que podemos ouvir em parte por causa das imagens, que se tornam metáforas do que é dito por elas, parece ser um dos vetores dos filmes de T.M.

Os parâmetros para analisar seus filmes são mais fenomenológicos do que epistemológicos, por exemplo: Minha amiga está dormindo e existe um mistério no seu rosto, no fundo dele como no fundo de um oceano estão as imagens vivas de um sonho que só poderão ser traduzidas quando ela acordar, submergir e reduzir tudo a palavras ou seja, cobrir todas as imagens vivas com uma voz, a sua própria voz, talvez  a mais nobre função da nossa voz seja mesmo essa de tentar comunicar o sentido, a narrativa e o símbolo das imagens de sonho; pois bem, é exatamente isto o que tenta fazer Terrence Malick em seus filmes. Para ele, o mundo sonha com a nossa vida e nossas vozes interiores são ecos de perguntas que fazemos para o próprio mundo – existem elementos panteístas nos filmes de Terrence Malick, mesmo que o enredo, esse esqueleto de borboleta que são os enredos nos filmes dele, toquem em questões metafísicas endereçadas a uma ou outra religião. Por exemplo, aqui temos um padre interpretado por Javier Barden,  um padre que duvida da própria fé para afirmá-la de um modo mais intenso como uma pergunta, exatamente como fazemos com o amor, exatamente como faço agora enquanto me pergunto e seguindo a mesma lógica que norteia os filmes de Malick, pergunto para o mundo: O que ela está sonhando nesse momento? O desejo de saber – isto é algo muito próximo de uma indicação de onde se encontra este “To the Wonder” do título original. Porque ao acordarmos , estaremos eu/ela dentro do mesmo sonho.

2.

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Escrevi um texto para servir de prefácio para o  livro de crônicas de  Mariana Ianelli, que acabou não entrando no livro. Curiosamente, este texto parece falar  algo sobre  este filme de Terrence Malick, por isso, reproduzo o texto abaixo:

são os anjos dos fatos por isso é silencioso o infinito.

A vida humana é como um Sol, seus raios interiores tocam as coisas e os fatos , deixando neles esta luz que só percebemos quando ela está em seu estado natural de sonho invisível, fatos e coisas ao serem transportados para a dimensão das palavras se tornam mais silenciosos, este é o mistério que pode envolver uma carta ou um livro, principalmente um livro como este, onde os fatos ganham não apenas a cor invisível da dimensão das palavras, também se emancipam e procuram o teor sagrado do indizível, que paradoxalmente foi  delicadamente dito, deixando intacta sua condição,  apenas uma poeta teria esta delicadeza de deixar intocado apenas aquilo que em si mesmo não procura  a dimensão da palavra sem contudo deixar de tocar levemente com a palma das mãos, neste indizível…

Podemos pressentir no silêncio que envolve estes textos como um véu que a vida humana é ela mesma o Verbo, que ela é uma fonte objetiva do sagrado, um  Sagrado que é vizinho da alegria, da contemplação e da ironia socrática. Um grande sufi disse certa vez  ‘os poetas procuram mais a poesia do que o amor, mas como o amor procura a mesma coisa que eles, acabam se encontrando ambos em um mesmo deserto. Este livro foi escrito contra este Deserto, por alguém que o conheceu intimamente quando ele ainda era um jardim. É óbvio para mim hoje, que esse deserto foi iluminado pelos fatos e pelas coisas que são os insuspeitos raios deste Sol que atravessam somente o tempo-eternidade. Também é óbvio para mim que os que condenam a si mesmos a uma redução da vida do espírito,  não sabem que não existe a vida do não espírito, ou seja,  que não existem dicotomias e que  tudo habita poeticamente o mesmo lugar onde é possível o tempo-eternidade. Todos habitam o mesmo mundo de  onde alguns fatos se distanciam  e  desaparecem no tempo cronológico e  outros  permanecem sendo no tempo-eternidade das coisas reencontradas ali, onde a noite em claro transcende a memória e sutilmente toca no indizível.

E o que são estas  crônicas escritas no decorrer dos tempos, senão evocações  desta ligação entre o tempo-eternidade  e  esse misterioso sonho que se dissipa dentro do tempo cronológico. Cantando no deserto do tempo, as  coisas estão silenciosamente chamando pelo nome dos mortos e de  tudo aquilo que na vida  está imantado pela visão como oração  e anti-profecia, aqui  os fatos que de um modo ou de outro tocaram de leve no indizível ou no sublime  e estão tentando materializar-se não como lembranças, mas como mistérios visíveis. Somos simples servidores deste mistério onde as palavras  sempre foram um reflexo da luz deste Sol no oceano dos mortos, nós, somos como ilhas, como tigres, como pássaros e estas outras ilhas, onde pousaremos por pouquíssimo tempo, estas com quase nenhuma terra são os anjos dos fatos

3.

Amor-Pleno-204x300O filme pode transmitir uma sensação de incompletude, parece ter um final em aberto. Obviamente Malick fez isto de propósito, um filme que parece ser sobre o amor, mas na verdade fala sobre ‘a sensação da maravilha’ ou da ‘Graça’, ou seja, fala sobre ‘este lugar de sonho real’ que é para onde os melhores momentos do amor podem  nos conduzir, lugares dentro do mundo que só quem ama além da medida, a ponto de perder a si mesmo, pode encontrar.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

2 thoughts on “Três notas sobre o filme Amor Pleno, de Terrence Malick

  1. Marcelo, admiro sua coragem por escrever sobre esta obra tão delicada, embora acredito que é preciso ver o filme para senti-lo, muito mais do que interpretá-lo.
    Se fizesse uma analogia com a literatura, diria que este filme é um diálogo com “Água viva”, da C. L., uma obra sem forma que intenta comunicar o incomunicável.
    Contradizendo um pouco do que eu escrevi, percebi no filme o deus de Rousseau: O homem em contato com a natureza, tanto é que boa parte dos conflitos acontecem no “cimento”
    Abraço!

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