Entre penumbras e aconchegos

"A Costela de Adão"
“A Costela de Adão”

Hoje eu acordei clássica. Acordei com vontade de ver na grande tela cinema um homem de atitude olhando para mim. Refiro-me àqueles homens antigos que pegavam na cintura da guria com a maior segurança do mundo. Hoje eu acordei com vontade de ter sido  Katharine Hepburn. Vontade de ouvir músicas que me levem para longe, no tempo e no espaço.  Eu acordei com vontade de ter nascido no antigamente. Acredito que as pessoas ficavam mais confortáveis sendo gente naquela época.  Bem mais que agora.

Mas apenas acordar clássica, não me garante um dia clássico. O frio acabou minguando meus ossos. Eu fui me encolhendo dentro deste domingo de agosto. Comi frutas aquecidas no forno com canela e pensei na vida. Eu me olhei várias vezes no espelho. Há dias que faço isso. Fico analisando o desenho do meu rosto e se, por acaso, alguém vai perceber nele tristeza ou preocupação. Pensei também nas atrizes tendo que interpretar garotas felizes, mesmo estando tristes. Conseguem?

Quando o relógio marcou três horas, interrompi a confecção deste texto, que envolve leitura e escrita simultaneamente, para ver a família de um aluno que está com leucemia. A escrita da gente é interrompida toda hora pela vida. É sério que você não sabia? Interrompida também pela vida dos outros que atravessa a vida da gente. Um escritor não senta ininterruptamente e escreve-tece um texto. Não. Ele escreve e toma banho. Ele escreve e liga para a mãe. Ele escreve e olha as notícias e ainda pensa em seu amor. Se tiver um. E se não tiver, pensa do mesmo jeito, inventando-o.

Assim, quando você lê um texto meu, não pense que eu o escrevi sem interrupções. Não, não. Ele decanta dentro de mim. Muitas vezes, preciso ir para a rua captar os movimentos externos e retornar ao meu canto submerso.

"A Mulher Absoluta"
“A Mulher Absoluta”

Depois que voltei do hospital, com um pouco mais de esperança, porém ainda meio alterada, sentei-me em um café e fiquei pensando no texto, em como torná-lo compreensível ao leitor. Os muitos pensamentos ficaram flutuando acima da cabeça ao sabor de um chá de maçã com canela.  Fiquei um tempo ainda ali olhando a cidade pelo vidro da cafeteria. Passado algum tempo, veio uma família sentar perto de mim e só falavam sobre viajar para Miami. Meus nervos doeram por causa do tom da conversa, da futilidade.

Saí dali e quis pegar um cinema. Percorri com os olhos a lista de filmes em cartaz, mas me perdoem, nenhum me atraiu. Nem é culpa dos filmes. É meu estado: acordei clássica, com uma melancolia charmosa. Não estou para filmes atuais no momento. Não estou no clima para os filmes em cartaz. E de repente, posso até metaforizar a vida de agora. Da mesma forma, não estou a fim de encontros sociais altamente efusivos. Prefiro penumbras, aconchegos.

E como já disse nessa coluna, faz um tempo que tenho lido sobre cinema. Mas juro, sem a sistematização de uma estudante voraz. Tenho lido apenas por prazer, buscando pontos luminosos não captados na tela. Tenho sondado a vida e o olhar de alguns diretores e roteiristas. Tenho lido, com pose de curiosa, a respeito de peculiaridades de diretores antigos.

Assisti outro dia a um documentário sobre George Cukor e me afeiçoei por ele. Fiquei impressionada em como ele me pareceu humilde e delicado, ainda mais ao dirigir mulheres. Foi ele que acabou revelando algumas atrizes como a talentosíssima Katharine Hepburn. E eu fiquei imaginando como foi para alguns diretores terem dirigido mulheres fortes que já sabiam como olhar, como atuar. Seriam os diretores domadores de leões ou apenas homens, meros homens que apresentam aos atores o mundo dos sonhos? Ou, ao contrário: apresentam ao mundo os atores dos sonhos?

Cukor disse que simplesmente dirigir alguém não quer dizer que ele precisasse chegar para o ator e dizer: “Faça a cena desse jeito, assim.” Como um pintor que mostra seu traço tão único, um ator fornece uma atuação única. Ou seja, o ator já traz subsídios. George Cukor adorava atores e seu universo. Ele respeitava-os, sendo o grande lapidador de várias divas do cinema. E viva Cukor!

"My Fair Lady"
“My Fair Lady”

Vasculhar esse mundo de cineastas me fez refletir sobre como talvez o mais difícil para um diretor seja coadunar sua arte ao que o público espera. Talvez, numa atitude quase zen, observar o mundo lá fora, que a cada momento se encontra numa cadência e, parar. Simplesmente parar e não agir. Esperar a voz do mundo soar aos ouvidos. E enfim, fecundar, dirigir.

Um diretor pode até dizer à mocinha: “Não, não. Pise firme, mas não cerre os punhos. É uma cena de amor, não de luta.” Mas é ela quem vai dar o brilho à cena e isso é algo que foge do controle. Pode ali nascer uma grande estrela ou uma farsante, uma mulher apenas bonita querendo ser atriz. E quem será o diretor corajoso a lhe dizer a verdade? Há algo invisível que fala pelo corpo do ator, da atriz. E cabe ao diretor deixar esse dom fluir.

Cabe ainda ao diretor a arte de retratar-criar malandros apaixonantes, humanos desajeitados cheios de charme e carisma; de aceitar tornar real o roteiro de uma peça teatral ou dar vida a um livro, adaptando-o ao cinema; sentir quem nasceu para determinado papel ou ainda, quem apenas interpreta a si mesmo. Acontece.

Um bom diretor precisa saber dirigir atores humanos e não robóticos. Com certeza, não basta ter boas ideias. E o que estudar para dirigir um filme, além da grade curricular de uma faculdade de cinema? Eu ando pensando sobre tudo isso. Fazer cinema é recriar outro mundo. E me parece um universo fabuloso. Não consigo conceber o ofício do cinema-criação sem o debruçar prolongado sobre a Filosofia e a Psicanálise; sobre a Sociologia e a História. Há tanta bagagem cultural nesses caras que fico pensando na enorme frustração que alguns devam sofrer por causa da ignorância do grande público.

Um diretor pode bem revelar um ator, antes de este ator tornar-se quem ele se propôs a ser. Vi repetidas vezes cenas de Katharine Hepburn, antes de ela tornar-se Katharine Hepburn. Quando ela ainda não tinha uma identidade como atriz. Eu, como fã inexperiente de cinema, fiquei feliz e agradecida.

Está quase anoitecendo e ainda estou aqui, pensando em tudo que li sobre cinema clássico. Várias indagações passeiam pela cabeça. Dentre elas a que mais batuca na caixola é: É tudo fantasia ou o cinema mostra alguns prismas de realidade guardados no interior do imaginário coletivo? Há pessoas que nasceram apenas para revelar outras? E se Cukor não tivesse cruzado o caminho de Hepburn? E por que este dia de inverno combina tanto com a lista de clássicos que ainda desejo assistir?

Eu vou guardar essas ruminações para o próximo texto. A lista de filmes que tenho de assistir dele é extensa, mas já escolhi alguns: “Vítimas do Divórcio”, 1932; “Mulheres”, 1939; “A Costela de Adão”, 1949; “A Mulher Absoluta”, 1952; “Assim Nasce uma Estrela”, 1954; “Minha Linda Lady”, 1964.

George Cukor
George Cukor

Sobre Cukor, Almodóvar disse: “Cukor (George) é um dos meus realizadores preferidos. Era um mestre a dirigir mulheres”. E sobre a vida, Cukor escreveu: “Se você encarar a vida de frente, reconhecer suas deficiências e se analisar com cuidado, tentar não sentir inveja, ressentimento ou autopiedade, acho que você terá a possibilidade de gostar da vida.”

Eu gostei de ter acordado clássica, entre penumbras e aconchegos. Pretendo fazer isso mais vezes. Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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