Depois de Maio: Quando o inferno é rosa

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Um filme sobre o movimento. De dentro para dentro e de dentro para fora, mas de uma forma circular porque um impulsiona o outro. “Um indivíduo, por mais particular que seja, não pode se tornar ele mesmo se não passar pelo movimento coletivo da história, que não é apenas a sua”, afirma Olivier Assayas diretor de “Depois de maio”.

A contextualização histórica é necessária, mas não rivaliza com os meandros internos da rede de amizade e amor que se estabelece entre os personagens – um grupo de amigos recém-saídos do Ensino Médio “em algum lugar de Paris”.

A incertude geográfica, o “não lugar”, abre a possibilidade de transposição para realidades diversas que transcendem o tempo e o espaço.

Permite a discussão sobre esse momento da vida em que “todos os sonhos são possíveis” – a transição da adolescência para a juventude. O filme retrata as experiências próprias da época pessoal e histórica, como as drogas, o conhecimento do corpo do outro, a liberdade nos cabelos compridos envolvidos em écharpes de variadas cores.

A busca do auto-conhecimento em toda a sua plenitude. “Depois de maio”, não representa só um marco no calendário em que um mês sucede ao outro. É muito mais do que isso. É o vento de noroeste que prenuncia a chuva, mas antes aquece e tonteia. A emoção do passeio de bicicleta, onde o amor vai na garupa.

Com delicadeza, as escolhas pessoais de cada um dos personagens vão sendo compartilhadas. Quando na cena em que a paixão se torna um travessão para contar uma nova experiência. Gilles – num registro autobiográfico do diretor Olivier Assayas -, ilumina com uma lanterna o rosto de Christine – uma jovem engajada no movimento político. Ele – imbuído de um sentido estético em construção – apura na beleza, a descoberta de um novo sentimento.

E o movimento de que falo é panfletário – no sentido de que se propaga com intensidade e também circular, porque as separações movidas pelas escolhas dos jovens personagens prometem um reencontro.

Como uma correspondência que se troca – ás vezes as respostas tardam em chegar, outras extraviam-se.

Mas quando chegam, trazem sempre mudanças.

Como no reencontro entre Gilles e o amor personificado que levava em sua garupa, Laure.

Laure veio antes de Christine, e partiu porque precisava mais de movimento que Gilles. Mas o reencontro entre eles é possível, acontece e depois desfaz-se como bolinhas de sabão – sobem e explodem.

Essa cena cativou-me. Envolvida nas brumas alucinógenas, Laure imola-se – atirando-se da janela numa fogueira imaginária em que possivelmente, rememora em pedaços de lembranças, o diálogo recente entre os dois:

– Você têm muita sorte – diz Laure. Você sabe o que vai ser: pintor.

– Você é que está certa – replica Gilles. Vive o presente. Tenho medo de perder a minha juventude.

Em que medida essa divisão de alma nos alimenta (para não dizer atormenta), não obstante a idade que tenhamos. A linha do tempo, nesse caso também, é circular e a reflexão entre essa dicotomia impõe-se de tempos em tempos quando já não podemos mais respirar.

O professor em sala de aula explica a Gilles: “Não é preciso ter uma alma refinada para compreender que nossos prazeres são apenas vaidades.”

Gilles não compreendeu. Os prazeres são necessários e as vaidades não serão em vão, por isso ele pinta com arrojo.

Em “Depois de maio”, existe uma ternura. Um tempo extenso para olhar para o caminho longínquo com a mochila nas costas.

Gosto de viagens e especialmente de trem. Gosto daquele bater de portas, de abrir espaços entre um vagão e outro e sentir o trepidar do movimento nos pés, podendo sempre que se quiser, ver as pedrinhas que ficam no trilho.

Depois de maiocapa“Entre nós e o céu – retorna o professor de Literatura enquanto Gilles desenha com compasso o símbolo da anarquia em sua mesa – o inferno e o nada, há apenas a vida que é a coisa mais frágil do mundo.”

“Depois de maio”, expõe a fragilidade da vida e as escolhas que se fazem num tempo em que existia um compromisso com a transformação social e uma vontade de cuidar da vida com carinho. Hoje, penso no excesso de proteção, na vida que fica engarrafada, presa em pequenos frascos. Na falta de respiração e lembro da sensação de liberdade que senti toda vez que no filme extensos bosques verdes misturavam-se com jovens sentados em círculo como numa gigantesca cirandinha.

E nesse caso, o anel que era vidro não se quebrou – intacto como a poeira de maio que paira ainda por aí.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

3 thoughts on “Depois de Maio: Quando o inferno é rosa

  1. Vivi, quando sai um livro seu? É muito talento pra deixar antes de maio, imune à ventania dessa poeira literária. Mil beijos.

  2. Já ví comentarios ou critícas sobre o filme, detesto e ao mesmo tempo adoro filme sem finais definidos, depende do grau de inspiração no momento em produzir um final particular só meu é maneiro, experimente é dez!!!

  3. É um tema que sempre volta, o conhecer a vida e os perigos e prazeres dela o descobrimento se envolve em armadilhas e na confusão que ela gera, talvez ficaremos até o fim de nossas vidas em um filme sem final, apenas se renovando!!!

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