A vizinha e seu clone

fofoqueiraSerá que elas foram treinadas para fazer interrogatórios pela ONG das senhoras fifi?

Santos, Brasil. Toca a campainha. Vejo no olho mágico que é a Rosarito. Olho para minha avó e digo quem é. E de maneira matreira completo: “Vó, é para você!” e saio correndo para meu quarto antes que o “Efeito Tschebotarioff ” à espanhola rompa todos os alicerces.

A. Coruña, Espanha. Toca a campainha. Vejo no olho mágico que é Ana. E com a mesma cara de resignada que minha avó faz, respiro fundo para me preparar, pois sei que vou perder, no mínimo, quase uma hora do meu dia. Seguro a maçaneta, respiro fundo outra vez, busco forças para o vendaval de perguntas, muitas vezes capciosas.

Baixinha, gordinha, cabelos curtos escovados, maquiada, fala fácil e me acha uma gracinha. Tem entre  setenta e muitos ou oitenta e poucos anos. Estão bem informadas da vida de todos de sua família e vizinhos. E, é claro, comentários não faltam. Seria detetive? Ou espiã? Acho até que ela pode ser escritora, talvez novelista. Criatividade é o que não lhe falta.

Ana ou Rosarito? Tanto faz, a descrição serve para as duas. Às vezes, penso que elas foram treinadas para fazer interrogatórios pela ONG das senhoras fifi em busca da boa moral e bons costumes. Outras vezes penso que, com a idade e o tempo livre, elas decidiram praticar o salto de língua à distância.

O bom de ter conhecido Ana foi entender melhor a Rosarito.  Talvez por uma questão cultural e de criação, aprendi que é falta de educação perguntar o salário de uma pessoa ou quanto custou desde um carro a um vestido novo.

Para elas, perguntar da vida alheia é uma forma de mostrar que dão atenção as  pessoas ao seu redor. Talvez.

Nos meus devaneios imagino se elas não são parentes separadas em um passado dsitinto. Num pesadelo imagino “minions” gordinhos baixinhos clonando-se e tocando a campainha do apartamento em frente. A porta abre e com um sorriso inquisidor, dizem: “holaaaa  niñaaaa!”.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

2 thoughts on “A vizinha e seu clone

  1. Terno,especial, muito se vemos em outras pessoas, almas gêmeas? Ou apenas se complementam?Fora da ficção, isso acontece muito!!! Veja ´´Conduzindo Miss Daysy“ foi um encontro que por motivos, virou uma grande amizade e um amor de verdade!!!

  2. Parabéns, tirando a maquiagem lembra minha mãe em algúns aspectos!!! Gostei muito, pena que essas surpresas agradaveis estão se tornando cada vez mais raras!!! Se atendo quase a ficção!!! Vamos lá acreditando no extraordinario!!!

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