Videocassete da alma e como os dias caem sobre nós

"Noiva em Fuga"
“Noiva em Fuga”

“Cinema é como um sonho, como uma música. Nenhuma arte perpassa a nossa consciência da forma como um filme faz; vai diretamente até nossos sentimentos, atingindo a profundidade dos quartos escuros da nossa alma.” Ingmar Bergman

Quanto sabemos de nós? Eu soube apenas, aos quarenta, que minha cor preferida era o verde. Eu via as pessoas falando de cores e eu nada. Mas eu trabalhava tanto, eu corria tanto, meu Deus. Como saber o que ia aqui dentro?

Ainda hoje me surpreendo com cada coisa e novidade que descubro a meu respeito. Eu descobri, por exemplo, que gosto de homem gordinho. É o meu tipo preferido. Sim, de repente eu posso me apaixonar por um magrelo, mas não sei. Também nunca tinha parado para pensar nisso. Gosto também de salada de alfaces com castanha de caju triturada. Gosto de vinho tinto quase parecendo suco de uva e não importa que critiquem minha falta de refinamento. Porque hoje, eu não me perco mais.

Eu tenho descoberto muitas coisas a meu respeito. A mais recente foi o insight que tive ao rever a comédia romântica “Noiva em fuga”. É que esse filme resolveu pintar feito neon na cabeça e fui revê-lo. Engraçado revisitá-lo agora. Não é um clássico digno de derramamento de elogios e observações a respeito da fotografia ou do enredo, eu sei. No entanto, é inegável a gama de questionamentos que ele provoca.

Percebi que muita gente se comporta como a noiva em fuga. E o pior: não sabe.

Sim, nós muitas vezes fugimos da felicidade. Todos nós precisamos nos tratar. Muitos de nós antecipamos mentalmente o desgaste de um relacionamento que poderia dar certo ou de um novo emprego que também poderia dar certo, antes mesmo de algo acontecer. Tememos descobrir diferenças quase insuportáveis no outro podendo ser esmagadas no cotidiano. E enxergamos o fim de muitas felicidades antes delas terem acontecido. E quem nos garante que o fim aconteceria? E quem nos garante que o emprego novo não daria certo? E quem nos garante que ela ou ele não seriam o nosso grande amor da vida?

filmando a vidaNo filme em questão, a protagonista, interpretada por Julia Roberts, sempre abandonava os noivos no altar com medo de se entregar. Morrendo de medo da intimidade, do envolvimento e dos dias seguindo a fio e caindo sobre eles.

Querem saber? Os dias caem mesmo sobre nós e ninguém pode segurar isso.

Será que os dias e tudo que vem com eles são capazes de nos fazer deixar de gostar de alguém? Ou somos nós que mudamos ou nem nos conhecíamos direito? No fundo, desconfio, somos um bando de crianças perdidas, negando ajuda para melhorar. Preferimos o leite com Toddy assistindo à sessão da tarde de sempre no sofá a ter que encarar descer para o play e brincar, filmando nossos tombos e risos para passar depois no videocassete da alma.

A noiva do filme, Maggie Carpenter, percebe que precisa descobrir-se, saber quem é de verdade, de qual tipo de ovo gosta. Quando ela se descobre e desiste de ficar se boicotando, numa eterna prevenção de não errar e de não sofrer, vai atrás do jornalista machista Ike Graham, interpretado por Richard Gere e se declara.

Você pode fugir de você e do que realmente queria ser e fazer. Talvez tenha medo de terapias, de ficar contando para um psicanalista de meia idade seus segredos. Eu sugiro que assista a filmes. Concordo mesmo com Bergman quando diz que nenhuma arte perpassa a nossa consciência da forma como um filme faz.

Termino aqui com a fala da cena final, em que Maggie vai atrás e se declara para o jornalista machista Ike Graham dizendo:

“Eu te garanto que teremos dificuldades

Eu te garanto que em algum momento um de nós vai querer pular fora

Mas eu também garanto que se eu não te pedir para ser meu

Eu vou me arrepender pelo resto da minha vida

Porque eu sei, em meu coração, que você é único pra mim”

The end, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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