Desembaraçando os fios entrelaçados…

“A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos de areia negra que um vento brando vai trazendo e levando…”

Eça de Queiroz em “O mandarim’”

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Existem algumas linhas cruzadas entre o cinema, a literatura e sonho. Como uma tentativa de costurar um tipo de tecido com estas linhas, cultivei durante as ultimas semanas o hábito de trocar alguns sonhos por filmes disponíveis na rede interna de computadores, isso que todos chamam pelo nome em inglês Internet. Convenci a minha própria consciência a crer que um filme é melhor do que um sonho, mas antes de continuar esta linha de raciocínio, devo fazer um comunicado, já há algumas colunas venho anunciando de modo velado e agora  digo de um modo claro e nítido, que devo me afastar por um bom tempo da escrita não remunerada de colunas e textos na rede, para me dedicar exclusivamente ao meu romance, ao romance que estou escrevendo, uma coisa que reforçou esta decisão foi  a releitura pela sexta vez de “O Mandarim”, de Eça de Queiroz.

Por sugestão de um dos poucos escritores que merecem ser chamados de escritores em atividade na região, Marcelo Rayel, devo antes confessar que um dos motivos que me levaram a escrever uma coluna neste Cinezen foi o fato do Marcelo Rayel também ter uma coluna por aqui. Existem vários tipos de escritores e para mim os maiores são os que trabalham com afinco e durante muito tempo um livro sem se importarem se os outros, geralmente palermas e bajuladores profissionais sem talento algum para a escrita, os considerarem ou não como escritores.

A principio somos grandes e valorosos dentro de nossas próprias consciências para logo depois, como se fossem raios de um sol , nos tornarmos capazes de atos de valor, inclusive o da escrita de um livro digno de ser lido, o que será o caso do livro de Marcelo Rayel, e também será o caso do livro de contos de Alessandro Atanes,outro escritor que admiro em atividade na região.

Bom. Feito o elogio e o reconhecimento do valor dos amigos, vamos para o texto sobre cinema e literatura. Dizia eu para mim mesmo, prefiro um filme a um sonho e neste período em que coloquei em prática esta minha premissa, vi na rede com uma certa antecedência alguns dos filmes que estão entrando em cartaz agora e outros que ainda irão entrar, os três ou quatro leitores dessa minha coluna sabem que gosto de dar grandes saltos, elipses que tentam torcer a lógica e que  por mim escreveria sem acentuação, num fluxo contínuo de frases, como se estivesse narrando uma infinita corrida de cavalos. Na verdade, o modelo para meus textos é aquela boneca russa com bonecas dentro dela, a matrioshka. Retornando ao meio do novelo, vou tecer alguns comentários sobre os filmes que vi.

Vi em uma destas madrugadas, ‘O Homem de Aço’ de Zack Snyder, e confesso que não foi uma boa troca. Um sonho poderia ter sido  bem melhor do que este filme previsível e meio frankenstein, feito de cenários, direção de arte e até roteiros de outros filmes como  “Avatar”. Definitivamente é uma colcha de roubos de ideias de outros filmes para compor um tipo de ilustração confusa e moralista que tenta sem sucesso se apropriar e superar os filmes anteriores dedicados ao personagem heróico que infelizmente não foi baseado em Nietzsche.

Se o diretor fosse o russo Timur Nurbakhitovich Bekmambetov, que iria investir num ritmo mais vertiginoso e delirante e na violência estilizada, ou o chinês John Woo, que saberia dar um tom épico que resvalasse no mito cristão sem cair no ridículo de comparar “Superman” com Jesus Cristo, talvez o filme cumprisse sua promessa de originalidade, mesmo com uma grande bilheteria gerada pela sempre milionária campanha de marketing e pela curiosidade. Este filme será esquecido rapidamente. Um filme é grande quando não trai nossa imaginação ficando aquém dela, como gosto de exercitar a imaginação, esta deusa do cinema, imaginei Terence Stamp como um dos generais americanos que negociam com o General Zod vivido no filme de Zack Snyder pelo grande e aqui mal aproveitado Michael Shannon, desperdiçado por uma direção de atores que se importa mais com efeitos especiais do que com a linearidade e densidade épica. Viggo Mortensen de ‘ O Senhor dos Anéis’ faria um vilão mais interessante e, Ben Barnes, de “As Crônicas de Nárnia”, um Superman muito mais emocionante e trágico. Henry Cavill não decepciona muito, mas a diferença entre ele e o Superman que seria criado por Ben Barnes em minha imaginação, seria a mesma que existe entre o 007 vivido por Pierce Brosnan e o criado por Daniel Graig. As tentativas de trocar um sonho por um filme sempre serão mediadas pela imaginação.

Saindo um pouco do meu casulo imaginário dos filmes patrocinado pela insônia, o melhor lugar para ver um filme ainda é o cinema, é onde todas estas forças, a do sonho e a da imaginação, desta vez mediadas pela sensação de quebra da quarta parede citada pelos amantes do teatro de Brecht.

"Tabu"
“Tabu”

Falarei agora de dois filmes que vi recentemente na grande tela: “Tabu” de Miguel Gomes e “A memória que me contam” de Lucia Murat.

Começando pelo filme de Lucia, o que temos é uma evocação do passado a partir do presente, mas existe uma certa melancolia que atravessa todo o filme que tem um forte fundo de memória da própria cineasta, a metáfora da água como símbolo da imersão no passado como um sonho, como evocação do irremediável fluxo das ondas do tempo em que o fantasma de uma ex-guerrilheira em coma impulsiona essa evocação para a dimensão do irremediável.

O filme tenta esboçar uma espécie de inventário da geração dos anos 60 que está no Poder nos dias de hoje, o que fica para mim deste filme é o doloroso e tristíssimo olhar do personagem de Franco Nero mirando a câmera como se ela fosse um abismo.

“Tabu” de Miguel Gomes é um filme com muitas camadas de diálogos com o romantismo, com Eça de Queiroz, com “Aurora” de Murnau, com a colonização portuguesa na África e por isso com a história de Portugal. Aliás, isto une os dois filmes, o de Lúcia e o de Miguel Gomes, a onipresença delicada em um e brutal em outro da história como um pano de fundo para forças maiores do que ela, que os gregos chamavam de destino e que nos dois filmes é um forte elemento trágico , seja o de um amor impossível  entre deslocados do mundo em “Tabu” ou o melancólico inventário de uma geração que perdeu a fé em seus sonhos utópicos em  “A memória que me contam”.

"A Memória que me Contam"
“A Memória que me Contam”

Em tempo: Lucia Murat estava presente na sessão do filme no Cinesesc no domingo, dia 14 de julho, e disse para o público que seu filme também dialogava com as recentes manifestações que se espalharam como um grito pelo Brasil inteiro. O filme ergue um incômodo espelho onde vemos manifestações similares em outros países e épocas, mas desta vez o contexto é completamente outro. Os manifestantes de hoje não são tão ingênuos e existe uma super-organização por trás dos manifestos de hoje, uma organização que parte do interior e se alimenta de toda e qualquer possibilidade de fracasso e não caminha na direção de um sonho ou de uma idéia apenas, caminha na direção do real e do possível e parte de um grande conhecimento do real e do possível para suas ações, sejam elas pacíficas ou não, estão todas legitimadas pelos fracassos e avanços das gerações anteriores.

Até a próxima coluna, teremos mais algumas até que eu inicie meu retiro para escrever.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

2 thoughts on “Desembaraçando os fios entrelaçados…

  1. Ariel,lindo texto!!!! Merecidas referências a Atanes e Rayel. ,grandes escritores.Você como sempre generoso e visionário.
    Viver a vida como um poema

  2. Cara, tô de lenço na mão, aqui

    Meu “muito obrigado” fica até pequeno pela avalanche de emoções, ideias, pensamentos, sonhos, desapontamentos, gritos sufocados, desencontros, perdas, ganhos, haveres e deveres, a porra da “coisa morna” que feito uma doença de comer parece que quanto mais corro, mais ela me persegue

    Sim, meu caro, já fui chamado, para os quatro ventos e pequenas vitrines para pequenas leituras de “escritor nas horas possíveis”. Volto a repetir: como se escrita só valesse em horário comercial, ou só valem aqueles que tem a escrita como ganha-pão. Seria como dizer que a obra do Maestro Gilberto Mendes pouco valeria, posto que era bancário, que Carlos Drummond de Andrade poderia ser classificado nessa categoria, posto que era funcionário público, ou que outro mestre, Moacir Scliar, fosse um diletante, visto que era médico.

    Sabe, nesses dias ruins onde tento me desvencilhar da “coisa morna”, tento me por sobre as próprias pernas e tudo o que olho em volto são pessoas com a marca dos cinco dedos estampadas no rosto. E aí o coração (o meu, ou o de qualquer um) vai entrando nessa vil maquininha de carne ralada e na outra ponta o patê daquilo que seria um coração vibrante e justo, os espíritos elevados, das pessoas que se movimentaram por amor. Não o amor de verdade, de mentira, de sonho ou de usurpação, interesseiro ou de um passeio livre no amanhecer ao longo do mar. Simplesmente, amor.

    Nunca imaginei que esse sofrimento, pessoal, eventualmente pudesse ser coletivo, com histórias depredadoras do romântico “amor não correspondido”, que nos dias de hoje teria o seu equivalente no “amor (des)ingenrenciado”. E o efeito colateral que dessa substituição do amor pelo poder, a covardia dos momentos difíceis a fácil opção de se afastar de quem se ama, a sangria ininterrupta acaba respingando em absolutamente todo mundo.

    Não concordo!

    Lamento, mas não concordo!

    Porque faz o amor perder a possibilidade de seus pontos-chave. Nada mais anda, parece, se você ordenar que o amor refugue. É falta de colhões! É como se esgueirar na eventualidade do nome ser maior do que a opus. Não se trata de uma questão de ego. É covardia mesmo! É não querer que chegue sua vez dos cinco dedos estamparem o próprio rosto.

    Porque só aprendi o salto pela minha queda. E o valor do salto. E o significado do salto. E as implicações de se erguer, e as hesitações, pela vicissitude. O quanto hesitei diante do abismo, das vezes em que não me joguei e das vezes em que me joguei. O risco da aterrissagem, as turbulências de chacoalhar a aeronave, das 12 horas encolhido no assento do meio, tendo numa ponta seis séculos de tradição literária e uma civilização construída no texto e, na outra ponta, a fácil classificação de potências como “escritor nas horas possíveis”.

    Vai, meu poeta! Vai! Porque você é um dos poucos, quiçá o único, que, dos bonecos de Farnese, é capaz de nos entregar somente a cabeça. Vai, poeta, nos mostrar o tecido verbal a serviço da segunda clínica. Pegue esse escudo e nos proteja desses biltres e apedeutas que tanto assolam essa vila, que nos deixam rendidos ao morno, dessa gente mesquinha e covarde.

    Meu muito obrigado, meu muito obrigado, meu muito obrigado!

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