A gente se apaixona pelas palavras

"O Lado Bom da Vida"
“O Lado Bom da Vida”

Bate um frio aqui no sétimo andar e eu preciso me agasalhar. Não sei escrever quando estou com frio. Nem com fome. Mas consigo escrever enquanto tanta coisa lá fora me espera. Sei adiar a vida muito bem quando a tarefa é escrever. Sou boa nisso. Posso ficar aqui horas. Sei que o mundo acontece justamente agora enquanto escrevo. Mas escrever, às vezes, é mais emocionante que viver.

Soa paradoxal, eu sei. No entanto, escrever funciona como uma breve paradinha para aquela fotografia panorâmica da situação. Como um diário pessoal em que você registra sentimentos e fatos. Quase sempre mais sentimentos que fatos.

E a cada quinze dias é isso: passo a semana que antecede a entrega do meu texto para esta coluna, pensando sobre o que poderia escrever. Eu não sou nenhuma especialista em cinema. Nem um curso de roteiro em São Paulo eu consegui fazer. Até tentei, mas faltou a grana e depois surgiu outro emprego. Vocês sabem como são essas coisas. E a gente sempre acaba deixando o prazer para depois.

Isso não quer dizer que eu não leia a respeito e não pesquise mais intensamente sobre especificidades do cinema. Mas nem sempre acho legal trazer conhecimentos técnicos para meus textos.

"Comer, Rezar, Amar"
“Comer, Rezar, Amar”

Eu, sinceramente e bem de perto confessando, não assisto a filmes para depois vir aqui e contar tudo para vocês. Não assisto a filmes como quem vai fazer o dever de casa. Isso estragaria todo o processo. Estragaria o meu processo. E tem mais: assisto aos mesmos filmes repetidas vezes. E faço isso também com livros. Preciso voltar naquelas páginas, naquelas frases e palavras que me fizeram acordar de algum sentido envenenado ou da mesmice da vida.  Preciso voltar em frases que me dão esperança e uma sensação quente no coração novamente. Eu confesso que já comprei livros só por causa de frases impactantes em meio às suas páginas.

Bem, sou suspeita mesmo. Talvez estranha. Eu escolhi cursar Letras justamente por causa das palavras. Eu sou vidrada nelas. Sou capaz de passar uma tarde inteira refletindo sobre uma frase que eu achei espetacular. Se eu tivesse carro, talvez meu adesivo fosse: I LOVE THE WORDS. Uma pessoa me ganha, claro, pelas ações. Mas eu presto muita atenção em suas palavras. Elas revelam o que mora dentro do coração. Às vezes, acabo de conhecer alguém e comento impressionada: gostei do que você disse!

A gente se apaixona sim pelas palavras do outro.

Sei também que as palavras trazem armadilhas escondidas em suas combinações e que há muita arte na manipulação da oralidade por parte de gente letrada e mal intencionada por aí. Mas aqui sugiro outra abordagem que permeia a simples contemplação. Mas calma! Nada assim tão cansativo. Hoje não, hoje não quero me cansar.

Por isso, separei algumas frases marcantes que saíram a boca de personagens ou narradores em vários filmes memoráveis. E assim como nos livros, nos filmes, o que me prende são as palavras, pequenas frases, diálogos. Eu sei que tem a fotografia, o efeito especial, a trilha sonora e etc. Mas eu sou feita de palavras. Eu adoro as palavras.

"500 Dias com Ela"
“500 Dias com Ela”

Não pretendo nem me arrastar, mas quero deixar aqui registrado os últimos a que assisti. Bem, no filme “Comer, Rezar, Amar”, a frase que me impactou, por exemplo, foi esta: “Às vezes, perder o equilíbrio por amor faz parte de uma vida equilibrada”. É uma cena muito legal em que a personagem de Julia Roberts leva uma bronca daquele gostosão do Javier Bardem. Ela queria desistir dele, mas ele foi mais persuasivo. Mulheres adoram homens decididos assim.

Mas a coisa nem sempre flui tão feliz. Em “Ele não está tão a fim de você”, a gente quebra a cara com tamanha sinceridade do personagem que alerta a mulherada dizendo: “A regra é essa: se um cara não te ligar, ele não quer te ligar! Se um cara trata você como se não desse a mínima, ele, genuinamente, não dá a mínima… sem exceções!” Nessa você descobre que os homens são mais óbvios do que parecem. E você, só você, foi quem quis se enganar.

Outro que me fez parar para pensar nas relações foi o gracinha “500 Dias Com Ela”, lançado em 2009: “Se é pra amar, me ame de verdade, se é pra viver que seja juntos, se não for assim nunca mencione tal frase ‘eu te amo’, pois para algumas pessoas ela pode significar o mundo.”

Essa frase deve ter sido eleita pela maioria como a frase para mandar para um amor bandido, aquele que iludiu você com palavrinhas prontas de amor.

No desenho animado “Irmão Urso”, há uma frase singela e bem verdadeira: “Você não pode se esconder do amor. Ele te pega de surpresa.” Ah, e como é verdadeira..

Em “O Lado Bom da Vida” aparecem duas frases igualmente lindas. A primeira delas: “A vida raramente te dá momentos como esse, e é um pecado não aproveitá-los.” E a outra: “Eu te amo. Soube no momento em que te conheci. Lamento ter levado tanto tempo para entender, apenas estava emperrado.”

A gente parece que fica alimentado com frases assim. Desculpem-me, mas eu saio do cinema com vontade de anotar tudinho no meu moleskyne.

Eu ainda não sei se é pra dar esperança ou se para contemplar algo doce que foi dito, ainda que na ficção. Mas estas frases me habitam de uma forma feliz.

E pra terminar, deixo aqui uma que me fez chorar bicas quando vi e ouvi em “Diário de uma Paixão”: “Eles não se entendiam. Raramente concordavam em algo. Brigavam sempre. E se desafiavam todos os dias. Mas, apesar das diferenças, tinham algo importante em comum: eram loucos um pelo outro.”

Bem, queridos, talvez o frio, a solidão, alguma esperança quebrada tenham me levado a trazer hoje um texto tão romantizado para esta coluna. Talvez quando o tempo esquentar, quando eu me sentir mais forte, eu escreva um texto como se tivesse pólvoras nos dedos. Por enquanto é só. Um Beijo.

Mô Amorim

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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