Eu Não Faço a Menor Ideia do que eu Tô Fazendo Com a Minha Vida

eunãotenho

Tornei-me por acaso uma quase especialista em escrever sobre trailers. O primeiro foi “Elena” de Petra Costa, que pelo impacto da frame, do seccionado, não consigo ainda, e depois do filme visto por completo, escrever sobre ele.

Agora, é “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida”, de Matheus Souza.

A história de Clara, uma jovem contemporânea que procura a agulha “it” no seu palheiro de desejos. Filha de médicos e de forma hereditária estuda Medicina, mas com a convicção zero ground – aquela que não aumenta porque é da sua natureza estar no chão.

Um amigo pergunta-lhe: “E aí, qual é a sua história?” E sem resposta nem na ponta, nem no centro e fim da língua, ela resolve ir experimentar todas as histórias até que chegue a uma que possa chamar de sua.

Clara, com a sua pedra no meio do caminho, dialoga comigo quando diz: “Quer saber, eu posso fazer o que eu quiser”.

Estamos em pontos diferentes de vida: ela em curva ascendente e eu naquele ponto do fiel da balança – já não dá mais para voltar para trás e o futuro é nebuloso (risos).

Será a crise dos 40 anos? . pergunto para o meu umbigo ainda visível.  E de repente, ao escrever anos, reparo a semelhança com a palavra nãos – é só mexer um pouco e transformamos nossos anos em limitações.

“Eu Não Faço a Menor Ideia do que eu Tô Fazendo Com a Minha Vida” é protagonizado por Clarice Falcão, que também é compositora. Para apaziguar o impacto da frase vasculho em suas letras respostas para sair do buraco negro.

Mas antes,  uma reflexão retirada do trailer:“Eu tô cansada de pensar com a cabeça dos outros ou de aproveitar o pensamento das outras pessoas porque o pensamento já estava pronto mesmo”.

Com a cabeça livre de pensamentos alheios (dentro do possível), inicio a minha busca.

Como ainda estou no íncio do processo, penso:

Nada gosta de não fazer nada
Todo telefone quer tocar
Uma janela é tão infeliz fechada

“Pra ter o que fazer”, diz Clarice Falcão

E o que você faz para ser feliz? – ela pergunta

Você feliz o que que faz?
Você faz o que te faz feliz?
O que faz você feliz você que faz.


Clarice, essa pegou fundo e as perguntas são muitas e as respostas idem.

De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha
De todos os loucos do mundo eu quis você
Porque a sua loucura parece um pouco com a minha

Então tá, vamos falar sobre o amor.

Quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do 8° andar,
Invés disso eu dei meia volta e comi uma torta inteira de amora no jantar
.

A loucura justifica essas escolhas do coração torto, talvez de um anjo ainda mais torto que diz: Vai, vai ser o que você quiser na vida.

E nossa conversa caminha sem sobressaltos, até esbarrar numa “Caixa verde”.

Nem todo eco é chato
Chato é o eco que repete

Quantas vezes repetimos padrões, nossos e dos outros?

E quer saber? “ Para os diabos os conselhos de vocês”, brada bem baixinho porque afinal ainda é uma boa menina.

Bateu a desilusão. “I’m nobody”, canta Clarice dedilhando o seu violão.

Eu não sou ninguém

E antes que você diga que não pode ser

Você vai ver

A

Impossibilidade de ver

A mim

Só não deixa eu ser ninguém
Na sua vida

Dou-me conta que andamos em círculo, como a gravata que insiste em não dar o nó. Pausa para respirar. Vamos sentar um pouco e lembrar do quanto já vivemos e que justifica estarmos ainda aqui discutindo sobre o sentido da vida.

Você começa – peço à Clarice.

Se não fossem as minhas malas cheias de memórias
Ou aquela história que faz mais de um ano
Não fossem os danos
Não seria eu

Concordo. A coisa vai acontecendo entre o nosso eu e todos os outros (nossos e dos outros) que deslizam por esse tobogã – que imagem estranha essa!

 Se a vida decidisse mudar de roteirista

Talvez fosse uma boa solução e modo de encontrar imagens mais felizes e menos esquisitas como a de um tubo gigante cercado de água por todos os lados, para explicar o que eu tô fazendo com a minha vida.

Entusiamo-me com a possibilidade, e se a vida realmente decidisse mudar de roteirista?

E o gênero trocasse de repente num instante
Quem sabe
A gente
Podia
Ser

Parece que vamos chegar à uma conclusão. Sinto um certo alívio (pressinto, porém que transitório).

Desculpe a interrupção, você ia dizendo que a gente podia ser…

Protagonista

 

Protagonista? pergunto. O dicionário está sempre perto e confesso que tenho uma mania com o significado das palavras porque alguém muito poderoso resolveu explicar (talvez com a melhor da intenções, e não vou continuar com a frase que tem a ver com o inferno) o que uma coisa significa retirando então a possibilidade libertadora de todos os outros sentidos, e isso está intimamente ligado com a questão que suscitou essa conversa com as letras de Clarice Falcão. O protagonista é o responsável por determinadas ações, o principal ator de uma peça teatral e também na vida de todo dia.

 

Algum dia alguém me disse

Acho que foi um homem

“Contanto que você estiver ok com isso”

E eu acho que estou  

Tem dia que a gente acorda, olha no espelho e se pergunta: “O que é que eu estou fazendo aqui” e o mais curioso é que não me recordo de ter esse questionamento em outro lugar, ou diferente circunstância.

eunaotenhoposterO espelho é determinante porque permite o encontro com o tempo já vivido. Fotografias e vídeos revelam o desenrolar das rugas e do minuto a minuto, muitas vezes posado, em grande parte retocado, mas o espelho é simbólico e sem photoshop.

Dialogamos com o nosso eu quase adormecido, antes da maquiagem, da barba feita – da preparação para o mundo.

Não sei qual foi o homem que conversou com Clarice Falcão sobre as coisas da vida, mas concordo que o mais importante é estar inteira.

Acho que isso é um ok.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

4 thoughts on “Eu Não Faço a Menor Ideia do que eu Tô Fazendo Com a Minha Vida

  1. Vivi!
    Você amou escrever, eu amei ler e agora vem uma vontade danada de conferir o filme.
    Vou lá!!
    Beijos e muito obrigada sempre!!!!
    Fabi

  2. Oi, Vivi!

    Foi depois de você ter comentado sobre Elena que fui assistir e fiquei encantada.
    Ainda não tinha ouvido falar sobre “Eu Não Faço a Menor Ideia do que eu Tô Fazendo Com a Minha Vida”, parece ser interessante…
    Só pelo título já merece ser visto, afinal, às vezes a gente acorda com essa sensação, mesmo sabendo aonde se quer chegar.

    beijos e parabéns pela coluna.

  3. Li seu texto com prazer, Viviane. Lembrei-me de um livro recente, infantojuvenil, “A mocinha do mercado central” de Stella Maris Rezende – sobre viver muitas histórias para escolher/complementar a sua. O que, no fundo, os leitores como nós somos, fazem o tempo todo…
    Vou pensar – e assistir ao filme (embora não goste muito da Clarice Falcão, confesso).
    Beijo
    Susana

  4. Lindo texto, Vivi!… Difícil não se interessar pelo filme. Necessitamos, invariavelmente. de respostas para certas perguntas. Ou, ao menos, precisamos viver em busca delas.

    Beijos,

    Bárbara

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