Crítica | O Homem de Aço

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É época de blockbusters: a temporada traz uma série de atrativos para quem gosta do bom cinemão. Recentemente, “Além da Escuridão – Star Trek”, mais um acerto do competente J.J. Abrams, que tem conseguido, na reformulação da franquia, aprofundar ainda mais questões políticas e sociais contemporâneas, já retratadas nas séries clássicas, em meio à ação extremamente realizada e desenvolvimento de personagens.

Personagens… Foi-se a época de vilões caricatos. Isso até pode fluir atualmente, melhor em animações, comédias. O público já conhece de cor e salteado estereótipos do cinema, e sai na frente quem desenvolver conflitos que apresentem figuras complexas, que gerem algum tipo de identificação no espectador. É assim com o Khan de Benedict Cumberbatch no longa de J.J. Abrams. E assim com o General Zod de Michael Shannon em “O Homem de Aço”, a mais recente versão do Superman para as telonas.

| A história do Superman no cinema

A história é de origem. Os kryptonianos utilizaram todos os recursos naturais do planeta, que entrou em colapso. Jor-El tenta alertar os conselheiros. Em vão. E General Zod busca um golpe de estado para tentar salvar seu mundo. A sociedade evoluiu de tal forma, que os bebês são desenvolvidos em laboratório e já nascem com algum destino traçado: ser médico, militar, construtor, etc. Zod foi criado para defender Krypton a todo custo. Jor-El, que questiona a Lei, e sua esposa, Lara, têm o primeiro bebê de maneira natural em séculos: Kal-El. Zod comete um crime e é banido para a Zona Fantasma. O bebê é enviado á Terra. Kal-El é batizado de Clark por seus pais adotivos Jonathan e Martha. Descobre aos poucos seus poderes. Quando criança, sente-se deslocado, diferente. Há um corte na história e já o vemos adulto, em viagem, quando salva pessoas na explosão de uma plataforma de petróleo. A repórter Lois Lane investiga os “milagres” realizados por alguém que se mantém anônimo. Até a descoberta de uma nave no Pólo Norte, resquício de antigos kryptonianos. Outra nave é identificada aproximando-se da Terra. É Zod, que descobriu o paradeiro de Kal-El que, caso não se entregue, verá a Terra ser atacada.

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“O Homem de Aço” acerta em vários pontos. E tem problemas primários. Desenvolve bem seus dois principais personagens e alguns coadjuvantes. Russell Crowe, Kevin Costner e Diane Lane ganham destaque. O primeiro, pai natural do protagonista. Depois, os pais adotivos. Crowe sai-se bem nas cenas de ação e dá autoridade necessária a Jor-El. Costner e Lane encarnam a sabedoria do homem comum, do campo. Algumas cenas emocionam, ainda mais quem é pai, mãe. Amy Adams, a mais sexy de todas as versões de Lois Lane, é jogada no meio da ação, o que soa forçado, mas relembra a donzela em perigo das primeiras aventuras do herói, no fim dos anos 30 nos quadrinhos, e nas animações dos irmãos Fleischer, exibidas em matinês de cinema nos EUA durante o comecinho dos anos 40. Christopher Meloni, da ótima série “Law & Order: Special Victims Unit”, é presença bacana e ideal para seu papel.

Furos na trama saltam aos olhos: Jor-El precisava revelar ao inimigo que teve um filho de forma natural? Por que Lois Lane precisa embarcar na nave de Zod? No entanto, o saldo geral tem tudo para agradar a fãs dos quadrinhos e ao público que não acompanha os gibis: o design de produção e os efeitos visuais apresentam Krypton de forma impressionante, da mesma maneira que a destruição de Metrópolis e as lutas, que lembram as acrobacias aéreas de Goku e seus rivais na série animada “Dragon Ball Z”. Aqui há bastante barulho, bastante fogo, prédios caindo. E poderia ser diferente com superseres se confrontando? O problema a reparar num futuro filme é como a sociedade lidará com um alienígena que matou milhares de pessoas?

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Zack Snyder compreendeu o poder do personagem e colocou, na tela, tudo o que imaginávamos para o Homem de Aço fora dos quadrinhos. Os nostálgicos, especialmente aqueles da geração que presenciaram Christopher Reeve vestindo o uniforme azul e a capa vermelha, irão chiar. Já estão reclamando. Dá para entender essa reação: a mesma de alguns críticos que se vislumbraram com o longa de Richard Donner em 1978, definitivamente um clássico e uma das melhores histórias de super-herói já contadas.

“Superman: O Retorno” (2006), de Bryan Singer, fez todas as reverências e homenagens necessárias e possíveis ao clássico. Numa época que a plateia estava ávida por heróis passíveis de erro e multidimensionais. Era preciso mudar. Mudar a maneira de mostrar o herói, de situá-lo no mundo. Os ideais e o caráter estão lá. E ainda serão desenvolvidos numa continuação. Mas Kal-El/Clark Kent/Superman não é mais/somente um escoteiro. É alguém em busca de um lugar na sociedade, aprendendo a lidar com suas “diferenças”, fato bem mostrado no filme.

A repercussão da revelação de um alienígena nas instituições (religiões, governos, etc), tão alardeada nas entrevistas do diretor e produtores, deverá ser detalhada em futuros longas. Neste, apenas o exército entra em cena. Já uma atitude no último ato pode chocar os adeptos do cânone. Algo a ser debatido.

A trilha sonora de Hans Zimmer, egresso da trilogia “Batman” de Christopher Nolan (neste, produtor e autor do argumento, em parceria com o roteirista David S. Goyer), dialoga bem com as cenas, os personagens e o público. Tentar compará-la à trilha clássica de John Williams é um equívoco. São épocas e propostas diferentes. O compositor alemão cria uma aura alienígena, de ficção científica, e introduz melodias dramáticas quando necessário.

Enquanto isso, a fotografia dessaturada colabora para uma ambientação menos fantasiosa, e que também traduz o sentimento de isolamento dos personagens. Não caberiam neste longa tons coloridos, grandes contrastes.

Por outro lado, a forma como o filme foi montado, com alguns flashbacks introduzidos em meio à ação, pode incomodar. Talvez se a trama fosse linear, nosso envolvimento com o desenvolvimento e os dramas de Kal-El seriam maiores.

Tudo isso, porém, seria irrelevante caso o intérprete de Superman não correspondesse. E o britânico Henry Cavill veste o uniforme e convence. Melhor que Brandon Routh, de ”Superman Returns”, tem porte para as cenas de combate, corresponde dramaticamente quando é preciso e, até ao viver Clark na fase adolescente, convence. Colocá-lo ao lado de Christopher Reeve é outro erro. Reeve é inesquecível. Um Superman perfeito na virada dos anos 70 para os 80. Que conseguia diferenciar bem Clark do herói, fazendo-nos acreditar serem duas pessoas diferentes. A abordagem de “O Homem de Aço” é outra. Cavill vai bem, obrigado.

“O Homem de Aço” é um bom reinício para o herói no cinema e abre espaço para um tão aguardado filme da Liga da Justiça. Se funciona enquanto filme, entretém o espectador médio, e não esquece dos fãs de quadrinhos, público tão exigente no quesito adaptações. E faz várias referências. Lana Lang é citada rapidamente, Pete Ross está lá em Smallville, a Lexcorp, empresa de Lex Luthor, aparece mais de uma vez, o logo da Wayne Enterprises pode ser visualizado rapidinho no satélite, o robozinho Kélex, de “O Retorno do Superman”, atua ao lado de Jor-El em Krypton. O cotidiano do Planeta Diário fica para uma próxima.

Mostrado como um herói ainda em formação, fica a torcida para que a nova franquia Superman consiga amadurecer junto com seu personagem. Potencial para isso, há.

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2013. EUA / Canadá / Reino Unido. De Zack Snyder. Com Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Kevin Costner, Diane Lane, Christopher Meloni, Antje Traue, Laurence Fishburne, Ayelet Zurer.
143 minutos.

Estreia no Brasil: 12/07/2013 (teve sessões de pré-estreia desde 28/06)

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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