Um peixe chamado Wanda, paradisos e outras ficções

"Um Peixe Chamado Wanda!
“Um Peixe Chamado Wanda!

Ah, Mon Amour… Se você viesse assistir a um filme comigo, eu não te emprestaria meus olhos, porque gosto de saber das cores que os outros enxergam sobre as mesmas coisas que vejo. Talvez eu sugerisse dois ou três títulos, todos igualmente inusitados e você iria rir. Eu, eu mesma, adoro quando você ri comigo. Começaria então propondo que assistíssemos “Um Peixe Chamado Wanda”. E sei que você iria me adorar mais por isso.

Então, calmamente, eu poderia fazer pipocas na manteiga e separar um vinho (sim, mulheres também escolhem vinhos). Você ficaria olhando outros títulos de filmes na estante, como por exemplo, “Tomates verdes fritos”. Eu, ainda procurando guardanapos e taças, diria para você que este filme aquece o coração.

Você voltaria ao título inicial: “Um peixe chamado Wanda” perguntando mais a respeito e dizendo que não se encontram mulheres por aí que tenham, na estante, filmes assim.

Eu, meio nonsense, esboço um riso de canto de boca à la Bette Davis enquanto  termino de colocar a geleia de pimenta, as torradinhas, os damascos, as castanhas, as nozes e amêndoas em potinhos artisticamente separados. Além do vinho, um pouco de água numa jarra cai bem e já está tudo pronto para começar nossa sessão de cinema em casa.

Mas qual assistir? Você pergunta diante de tantos DVDs. Como sempre, fica perdido. Como sempre, quase perdido sem mim. Eu pergunto se você já viu “Tapete vermelho” e me diz que não. Eu digo que este tem todas as emoções e vários gêneros dentro dele. Este filme faz você rir, chorar, refletir. É um daqueles filmes que faz muito ou quase tudo por você. Pergunto se já viu “Sideways” e me diz que sim. Você me olha e me acha estranha. Não fala nada e me tasca um beijnho. Na estante nos olhando estão “O mágico de Oz”; “Jules e Jim”; “Contos da Lua Vaga”; “Quanto mais quente melhor”; “Janela Indiscreta”, entre outros.

"Janela Indiscreta"
“Janela Indiscreta”

Você escolhe “Cinema Paradiso” e eu me orgulho de você. Cá dentro nós já sabemos que vimos esse filme, sem exagerar, umas dez vezes.  A película começa e nos ajeitamos no aconchego um do outro. Tão bom ter você aqui. É porque fica mais fácil sonhar com você ao lado. E você tem sido meu roteiro favorito.

Quanto à magia do cinema, eu sempre soube que quando assistimos a um filme, abre-se para nós um olho maior que o nosso. Sim. É um grande olho que olha por nós, além  de nós. É a chance, a grande chance, de colocar as lentes de outra pessoa e ver, de um jeito diferente, o que vimos quase todo dia. Ali, projetado, vemos, inicialmente, o que todo mundo vê. Mas desse olhar, surgirão outros. É como se por um momento o diretor do filme nos desse seus olhos. Assistir a um filme é pegar emprestado outras lentes e ampliar nossa visão de mundo.

"Jules e Jim"
“Jules e Jim”

Enquanto isso, cai lá fora uma chuva fininha. E o encontro nesta minha sala humilde e particular de cinema fica mais mediterrâneo com todos os improvisos do nosso encontro. Regados a vinho e aos nossos “paradisos”, ficamos até tarde conversando sobre cada cena do filme, a fotografia, a trilha sonora, a entrega de Totó à sétima arte e tantas outras maravilhas que envolvem a magia do cinema.

De repente nos assustamos com um barulho. Quem se joga da estante querendo atenção? “Um peixe chamado Wanda”! E começa a outra sessão!

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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