A Parte dos Anjos, de Ken Loach

a_parte_dos_anjos_02Da segunda metade da década passada em diante, o diretor britânico Ken Loach tem engatado uma sequência de trabalhos que além de mostrarem uma qualidade elevada, tem ajudado um pouco a diversificar o seu cinema, como por exemplo, ocorreu com “À Procura de Eric” em 2009 e agora com“A Parte dos Anjos”, lançado esse ano por aqui. A verve engajada e política apareceu de maneira mais forte nesse período em “Rota Irlandesa” (2000) e “Ventos da Liberdade” (2006), mas deu uma relaxada nos outros dois longas citados.

Ken Loach faz cinema desde o final da década de 60 e sempre mostrou uma paixão em mostrar questões sociais e políticas na telona. Isso, de certa maneira, até engessou a própria criatividade e em determinados momentos aparecia como um tema geral a ser explorado de maneira contínua. Isso já não ocorre em “A Parte dos Anjos”, que situado em Glasgow na Escócia até apresenta temas como o desemprego, a falta de oportunidades e a violência, mas opta por outro caminho para conduzir a história em uma aventura bem peculiar.O filme concorreu a Palma de Ouro em Cannes e levou o prêmio do júri na edição do ano passado, fazendo de Ken Loach quase um membro honorário do festival, de tanto que ele vem aparecendo por lá com seus filmes. Centrado na figura do jovem Robbie (Paul Brannigan), o roteiro de Paul Laverty, costumeiro parceiro do diretor, apresenta uma história de aprendizado e de busca por um futuro melhor, que apesar de tão explorada anteriormente, aqui é apresentada por um viés diferente, regada ao tradicional uísque escocês.

O longa começa em um tribunal, onde alguns delinquentes e azarados são colocados para prestar serviços comunitários como alternativa aos seus danos. Nesse grupo está Robbie, colocado sob a batuta do paternal Harry (John Henshaw, o nome mais conhecido do elenco). Através dele o jovem perdido e violento conhece as maravilhas do uísque e recebe ajuda na forma de lidar com a namorada que recentemente teve um filho seu. O rapaz vai mudando e assim passa a perseguir um futuro distante daquele círculo de violência que está inserido.

partedvdEssa peregrinação por dias melhores ganha tons divertidos e leves, o que conquista o espectador quase que de imediato. O título do filme tem origem em como é chamada a pequena parcela do uísque que vai evaporando nos barris com o passar do tempo, explicada didaticamente em visita a uma destilaria. “A Parte dos Anjos” não é o melhor filme do diretor de filmes como “Kes” (1969), “Terra e Liberdade” (1995) e “Pão e Rosas” (2000), mas é um dos mais simpáticos e bem dosados e assim mantêm o cinema de seu diretor ainda vivo e vibrante.
Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *