O que você vai fazer com o Sol que ainda resta?

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De tempos em tempos, algo na vida nos compele, instiga e inspira. Seja uma frase ouvida na rua, um poema ou um filme. A vida nos fala e nos sacode de várias maneiras. São os constantes sinais a nos fazer abrir os olhos de dentro para enxergar.

A vida, porém, tal como se apresenta, tende a nos amortecer, anestesiar e arrancar a nossa lucidez. E daí cria-se a esteira robótica sob nossos pés que nos leva cada dia para mais longe de nós mesmos e da realização de nossos sonhos, desde os pequenos até os mais impossíveis, porém, necessários para que o brilho não se despeça de nossos olhos.

Ficar na ponta dos pés, atrás de algum muro protetor espiando a vida, não pode nos caber mais! Enfiar a cara e lambuzar-nos neste tutano que se chama existência é o que nos moverá. Para quem ainda não percebeu, estamos em tempo de mudanças e quem quiser resistir, será sugado pela sua própria inércia, seja no campo pessoal ou universal (palavras de Madame Mô).

Sabe, eu não consigo lembrar precisamente em que ano eu assisti ao filme do qual vou comentar hoje. Só sei que foi num sábado daqueles em que suas crianças querem pizza e pipoca tudo junto. É até gostoso relembrar que durante a infância dos meus filhos, eu sempre passei meus finais de semana com eles, integralmente.

E foram muitos sábados deliciosos, que quando entardecia, íamos a uma locadora perto de casa para ver algum título novo de filme. Ficávamos horas lendo sinopses.

Sinceramente, não botei muita fé quando me deparei com “Last holiday” na prateleira. No Brasil saiu com o título “As Férias da Minha Vida”. Sim, de cara já dá pra ver que não se trata daqueles filmes candidatos ao Oscar. Mas eu não estou nem aí para o Oscar. Eu quero é ser feliz! E querem saber? Depois de “degustado”, descobri que o filme mexeu comigo e com um monte de gente que conheço.

Trata-se de uma história singela, como são todas as histórias que nos tocam profundamente.

Georgia é a personagem principal, uma mulher simples (interpretada por Queen Latifah), que viveu de dieta praticamente a vida inteira. Com a autoconfiança lá embaixo, sua vida se resumiu sempre a apenas agradar aos outros, esquecendo-se de si e permitindo que sua vida continuasse sem graça. Poupando, segurando emoções e tentando fazer tudo e tudinho corretamente.

Com uma vida pacata, ela cozinha depois do expediente. Cozinhar funciona para ela como um passatempo, talvez o único. Mas não tem um amorzão para provar seus quitutes. O cara de quem ela gosta é apenas uma ideia, assim como todos outros sonhos que ela coleciona em um pequeno caderno, chamado de livro de possibilidades.

De repente, vem o prognóstico: três semanas de vida. Ao que ela responde: “Eu não vou aceitar isso! Quando a gente acha que vai acontecer uma coisa maravilhosa, acaba descobrindo que vai morrer? Eu devia ter enfiado o pé na jaca. Por que eu, Senhor? Por quê? Eu fiz tudo certo!”.

Este foi o desabafo dela. E parece que é o desabafo de um monte de gente que pouco faz pela própria felicidade e prefere obedecer a padrões e protocolos.

A cena dela na igreja é uma das mais tocantes.

E como não tinha nada a perder, resolve torrar seu dinheiro e transformar todas as possibilidades de seu caderno em realidades. Praga acaba virando o destino escolhido por Georgia. Nina Simone e mais um monte de cantores com músicas pra lá de bacanas embalam essa reviravolta na vida de nossa personagem. Que delicia vê-la na primeira classe desfrutando tudo de bom que a vida oferece. Ela quase me vinga no filme: eu, que tenho medo de avião e nem consigo passear em Pedro de Toledo por conta da preguiça e falta de grana.

Fica engraçado mesmo quando ela olha para o céu e pergunta para Deus: “Tá de brincadeira, né?”

Incomoda perceber que Georgia só se permitiu enxergar a beleza da vida quando descobriu sua doença. Muitas pessoas se escondem a vida inteira atrás de um emprego, de desculpas como falta de tempo, por exemplo, para não irem atrás de seus sonhos e do que querem de verdade.

Será que precisa acontecer algo muito drástico para sabermos quem somos e o que queremos?

Georgia não acreditava que merecia alcançar as coisas que sonhava. Talvez nem um simples livro de possibilidades você tenha aí contigo. Talvez você fique pensando no que os outros vão dizer, achar. Preciso te contar que até para sonhar é preciso uma pitada de coragem.

As.Férias.Da.Minha.VidaE vou confessar outra coisa também: Eu já assisti a este filme, pelo menos, umas onze vezes. E eu estou treinando minhas loucuras.

Penso hoje ser impossível ser feliz sem a liberdade de sonhar. No entanto, e para tanto, é imprescindível a coragem! Se puder, assista ao filme e depois me responda: O que você vai fazer com o Sol que ainda resta?

Um beijo e uma vida cheia de possibilidades, Mô Amorim.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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