O que se Move de Caetano Gotardo, Elena de Petra Costa, O Grande Mestre de Wong Kar-Wai, Além da escuridão – Star Trek de J.J. Abrams – ou dor, luto, luta, paixão e amizade

"O Grande Mestre"
“O Grande Mestre”

“O que se Move”, do poeta e cineasta Caetano Gotardo, é um filme em três episódios sobre a dor da perda que se interligam entre si, a dor funda sua poética no filme através da canção que floresce como uma explosão delicadíssima no meio da impossibilidade de expressar seu ‘Opus profundum’ de outro modo. As mães do filme cantam. Caetano Gotardo consegue um equilíbrio entre a delicadeza e a intensidade no primeiro episódio protagonizado por Andréa Marquee, em uma das interpretações mais marcantes do cinema brasileiro em décadas, um filme que precisa ser visto com urgência por todos porque consegue tocar no ponto sensível da nossa blindagem contemporânea, ali onde dorme a humanidade mais profunda, no coração de nossas trevas interiores, uma canção pode abrir uma fresta e deixar entrar um pequeno raio deste sol da dor.


Trailer de “O que se Move”

“Elena”, de Petra Costa, caminha na mesma direção de “O que se Move”, de Caetano Gotardo: aqui temos uma filha e uma mãe que enfrentam a dor da perda, a mãe como que emerge de um buraco branco e atravessa a sombra emudecedora de um silêncio difícil, a filha que dança com as palavras, uma dança oceânica em volta dessa dor, desenhando uma espiral e criando um tipo de filme-poema do atravessamento. O que o canto significa no filme de Caetano, as imagens da memória e seu resgate em uma chave de sonho, significam em “Elena”. Ambos são filmes que se aproximam espantosamente do poema. Ambos são objetos estranhos na cinematografia brasileira, e essa estranheza fundada pela coragem é o maior trunfo destes dois filmes.


Trailer de “Elena”

Em “O Grande Mestre” (ao que me parece, ainda inédito no circuito comercial dos cinemas do Brasil), Wong Kar-Wai também se interessa pela imagem como um campo de atravessamento da dor, no caso da dor da paixão e de sua impossibilidade. É  extremamente engenhoso o modo como ele associa à luta com o luto e ambos com a paixão no filme, coreografias onde os elementos ganham uma hiper-realidade, a água da chuva, na luta inicial do filme, nunca foi filmada desse modo. W.K.W. transfigura a linguagem publicitária em imagem de sonho: o filme narra a trajetória de Yip Man – já havia sido realizada uma trilogia de enorme sucesso de bilheteria na China sobre este mesmo personagem -, mas Wong Kar-Wai, não apenas adapta essa trama ao seu léxico cinemático, vai um pouco mais além ao realizar um filme de kung fu com nuances operísticas. Algumas cenas de luta lembram muito as da trilogia “Matrix”, de Larry e Andy Wachowski. O final abrupto do filme, como um corte que quebra a organicidade da trama, pode bem ser um mote para uma seqüência, que será muito bem vinda…

“Além da escuridão – Star Trek” é um filme sobre a amizade como uma força acima das regras do ‘ raciocínio, da razão. A escuridão do título é exatamente este lugar ocupado pela racionalidade nos dias de hoje, como em “Prometeus”, de Ridley Scott, temos neste filme de J.J. Abrams, este filho mais esperto de Spielberg, um semideus humano, um ubermesch, um além-do-homem que atende pelo nome de Kahn. O filme dialoga com muita inventividade com a série e com os já antigos filmes baseados nela (filmes e séries do século passado, como eu e a maioria dos 12 leitores desta coluna)

Sem mais para o momento, me despeço desejando a todos um bom despertar. Em julho, deverá ser lançado em São Paulo, meu novo livro RETORNAREMOS DAS CINZAS PARA SONHAR COM O SILÊNCIO, que já pode ser comprado no site da editora. Os que comprarem pela internet receberão o livro autografado. Para comprar o livro acessem este link: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=183

Um grande abraço e até a próxima coluna.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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