A mulher do filme

Rita Hayworth em "Gilda"
Rita Hayworth em “Gilda”

Não é a mulher do vizinho, nem a do seu chefe. Não é a mulher proibida. Nem a do comercial de bebida. É a mulher do filme. E naqueles 100 minutos em média de duração da película, ela pode ser sua. Você é o mocinho e ninguém precisa saber. As luzes estão apagadas. Sua noiva ou esposa ou ‘sei lá’ está sentada ao seu lado, sugando a Coca-Cola no canudinho. Olhar perdido, ingênuo e você? Sonhando com a mulher do filme. São pouco mais de 100 minutos em que a mulher do filme pode ser sua. Você entra na história. Você mergulha. Você é o mocinho. Era assim desde garoto, desde os gibis do Batman. Você mergulha na trama e depois disfarça.

Sua namorada, dependendo do filme, segura em sua mão. Você percebe um ser feminino ao lado. Mas o que você quer é a mulher do filme. Anseia pela próxima cena em que ela adentra a sala de justiça ou a cozinha de uma linda casa espaçosa americana.

Ela pode ser Vivien Leigh em “E o Vento Levou”, Marlene Dietrich em “O Anjo Azul”, Rita Hayworth em “Gilda”, Ava Gardner em “Os amores de Pandora”, Grace Kelly em “Janela Indiscreta”, Brigitte Bardot em “E Deus criou a Mulher”, Elizabeth Taylor em “Gata em Teto de Zinco Quente”. Ou ainda, Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo”, Claudia Cardinale em “A Moça com a Valise”, Sophia Loren em “Ontem, Hoje, Amanhã”, Catherine Deneuve em “A Bela da Tarde”, Jane Fonda em “Barbarella”, Jacqueline Bisset em “A Noite Americana”, Penélope Cruz em “Volver”, Kirsten Dunst em “Maria Antonieta”, Scarlett Johansson em “O Grande Truque”, Natalie Portman em “Closer – Perto Demais” e por aí vai.

E quem é a mulher do filme? Que peso ela ocupa em sua mente cheia de dígitos de impostos absurdos e pendências financeiras? Qual a profundidade psicanalítica do lance? Ela pode te salvar com seus lindos cabelos ondulados escondendo delicadamente a tez suave de seu colo e ombros?

Neste momento, se você é homem e está me lendo, um riso subversivo tomou teu rosto, aposto. Calma, eu te absolvo. O cinema traz essa poética da liberdade. Você pode sonhar com a mulher do filme, mesmo tendo a escolhida ao lado.

Ava Gardner
Ava Gardner

Neste exato momento, sua namorada, esposa ou ‘sei lá’, sorveu a última gotinha de refrigerante pelo canudinho e você aí, vidrado nas atitudes selvagens e gestos precisos da Scarlett Johansson para salvar o mundo, rodeada de caras másculos. E claro! Você também deve ser um, cheio de bíceps e tríceps para detonar. De repente até vem uma vontade de voltar para a academia. Neste momento, seu abdômen está contraído, imagino.

É nítido e certo que o cinema traz em si um reservatório da mitologia afetiva. Muito do que não se consegue obter na vida diária no que tange a relacionamentos, busca-se num enredo, nem que seja para ser vivido na tela mental e particular, dentro do compartimento tão mínimo dos minutos do filme.

Você pode ficar entorpecido pela mulher do filme, mas quando as luzes se acenderem, irá encarar a mulher ao lado que talvez já esteja com a cabeça deitada sobre seu ombro ou dando beijinhos em seu pescoço.

Ficar ou não com ela depois do filme? Ficar com a mulher do filme? Isso é você quem vai decidir. O filme acaba e somente os créditos aparecem agora na tela. Todo mundo vai ao pouco se espreguiçando e ensaiando a volta à vida.

Vocês já saíram do cinema. Por alguns segundos, ainda enquanto combinam o lugar pra jantar, a mulher do filme aparece em raro reflexo nas vitrines. Neste momento, você já busca o argumento de que na tela do cinema são apresentadas caricaturas e não pessoas de verdade. Então você sofre enquanto caminha para o estacionamento, ao pensar que a Penélope Cruz  não é a moça do caixa.

Pizza ou sushi? Você pergunta à sua companheira. Nem sabe o que ela respondeu e manobra o carro. Sopra. Respira. Volta à realidade. Sua “mina” é bonita. Inteligente, nem se contesta! Carinhosa e dedicada. Você vai voltando e sonha com algum cenário de cinema onde  vocês se encaixem.

Penélope Cruz  em "Volver"
Penélope Cruz em “Volver”

Sushi! Tem em todo lugar. Estacionar o carro é que são elas. Mas você não é nenhum mutante do filme X-men dotado de poderes para nessas horas facilitar a vida. Olha pelo retrovisor, analisa a rua, conquista a vaga e finalmente descem para jantar.

A moça que vem servir quase se parece com a japonesa do filme “As panteras”.  Chega! Você impõe a si mesmo. E começam a conversar sobre o cardápio.

Um pé roçando sob a mesa no seu calcanhar. O cheiro do cabelo da sua namorada. Um sorrisinho meigo e promessas de amor. Pronto! Você quase voltou e a mulher do filme não representa mais problemas.

O sushi cai leve e você prefere não experimentar o saquê. Amanhã é segunda e você não é nenhum 007 em missão secreta em Praga, tampouco estará rodeado de modelos lindas e traíras da KGB. E o pior: talvez você tenha mesmo que pegar a Anchieta. Depois de antever o mal, você não dispensa o saquê e despeja goela abaixo de uma vez. Olha para sua amada e quase quer chorar em seu colo. Calma, não é pra tanto. Fiquem sempre tranquilos meninos: as mulheres não dormem durante os filmes!

Até breve, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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