Quarto, de Emma Donoghue

quartolivroEm 2008 o mundo se abismou com o austríaco José Fritzl de 73 anos. Ele confessou ter mantido a filha Elisabeth presa em um sótão por 24 anos e teve 7 filhos originados da incestuosa relação. A pequena cidade de Amstetten, distante a 130 quilômetros de Viena, ganhou notoriedade mundial com o caso. A escritora irlandesa Emma Donoghue foi uma das pessoas que se assustaram com a história e partiu dela para compor seu sétimo romance.

Lançado em 2011 por aqui, “Quarto” (Verus Editora, 352 páginas, tradução de Vera Ribeiro) recebeu elogios diversos onde foi publicado e arrebatou o prêmio de melhor livro do ano de jornais respeitados como o New York Times dos USA o e Independent do Reino Unido, além de elogios rasgados de escritores como Michael Cunningham de “As Horas”. O barulho que nesses casos quase nunca justifica o volume alcançado, aqui pode ser plenamente justificado e compreendido.

Emma Donoghue apresenta ao leitor o carismático e inteligente Jack, um menino que acaba de completar 5 anos e está vislumbrado com as possibilidades da nova idade. Jack é o narrador da história toda e é através dos seus olhos que somos apresentados ao mundo do jeito que ele percebe. Como uma criança típica dessa faixa etária, a curiosidade passa a ser mais aguçada e os questionamentos mais presentes na relação com a mãe, a única pessoa que conhece.

Os dois vivem em um quarto sem luxos, com direito a tevê e uma clarabóia para que a luz natural entre. A comida e coisas básicas que necessitam para viver vêm daquele que Jack chama de Velho Nick. O Velho Nick surge somente a noite e faz Jack dormir dentro do guarda-roupa, enquanto faz barulho na cama junto com a mãe. A relação que mais tarde se explica, trata-se de um seqüestro, um caso de cárcere privado em que a mãe está presa há 7 anos.

Essa primeira parte de “Quarto” é a que mais comove e brilha. Tratar de um tema tão espinhoso, oriundo de uma personalidade doente e cruel, poderia assumir formas imorais, sensacionalistas ou mesmo insossas. Ao optar por narrar a trama pelo menino, a autora consegue inserir uma delicadeza emocionante. Jack é um personagem fantástico, que faz o leitor rir mesmo quando o mundo não permite, e cativa ao ponto de não se querer mais esquecê-lo.

Essa primeira parte em que a vida dos personagens são apresentadas, carrega uma dose de tensão que eleva o livro para patamares maiores. Até a sua metade quando a fuga da “prisão” é realizada, nos deparamos com uma história que pode sem medo carregar a alcunha de brilhante. A segunda parte, na qual Jack precisa conhecer um mundo que nunca viu, diminui um pouco esse deslumbramento, mas também chega carregada do mesmo mérito na essência.

“Quarto” pode ser analisado por diversos lados. Da privação de necessidades básicas a sobrevivência inteligente em um ambiente hostil. Do amor entre mãe e filho ao processo mágico de descobrir as pequenas coisas que estão em todo lugar. Da incrível maldade que o ser humano pode ser capaz de produzir ao sensacionalismo impraticável de parte da imprensa atual. Todos esses lados caminham juntos e comungam para criar uma obra sensível e poderosa.

Site do livro: http://www.roomthebook.com.

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

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