Melancolia charmosa ou alegria desajeitada de uma alienígena interior?

simplesmente feliz bicicleta

Você já reparou que tem algo de ingênuo e assustador na felicidade? Enquanto há pessoas que temem nunca alcançar a tal felicidade, outras há que fogem quando a encontram, temendo perdê-la em qualquer esquina. Este assunto é complexo e delicado, já vou avisando. Soa quase como tema-alfinete, que cutuca a consciência adormecida. Por vezes, a monotonia da vida é mais confortável que a felicidade estonteante. Uns dizem que felicidade dá trabalho, que é preciso buscá-la, ainda que nos motivos mais simples ou em altas aventuras. Outros afirmam que felicidade não existe ou que muitos não têm a sorte de tê-la como companheira. Há várias nuances do assunto flutuando no imaginário de cada um.

Mas acontece que felicidade anda meio fora de moda. Você já reparou nisso? Parece até pecado ser feliz neste mundo. No meio intelectual então, para alguns, apresentar-se como feliz é quase assinar o próprio atestado de burrice. A ideia que se prega é que não dá para ser feliz num mundo de injustiças e corrupção como o nosso. Ainda existe a máxima que apregoa que não há felicidade, o que há são momentos felizes.

Aqui pra nós, eu já presenciei cenas em que pessoas felizes foram ferozmente criticadas: “Esse fulano é feliz, hein? O que será que ele toma?” Mas, por favor, não falo aqui de sujeitos efusivos por demais, com aquela felicidade forçada. Estes, confesso, irritam-me às pampas. Não. Eu falo de pessoas com semblante sereno e bem estar genuíno que passeiam entre as gentes e preservam uma aura de paz e harmonia. Falo de gente que contagia.

simplesmente feliz com o instrutorSe você prestar bem atenção, as músicas que fazem sucesso são as mais tristes, falam de traição, abandono e saudade extrema. O povo gosta de um sofrimento. Os filmes de maior bilheteria partem para a solução de um grande drama. Sim, eu sei que na construção de um enredo sedutor sempre há a necessidade de uma dor, um conflito, a busca por uma saída. Mas eu quis ir além quando propus esse assunto. Há muitas ditaduras em nosso tempo. Ser feliz ou ser triste devem se constituir direitos sublimes.

Mas a moda é ficar triste, beber bastante, encher a cara enquanto cita Bukowsk. Sim, é charmoso citar Bukowsk, eu sei. Repito: é mui charmoso citar Bukowsk, atarracar a guria pela cintura e simular qualquer melancolia. Eu só citei o cara para acordar algum leitor ainda adormecido. Adoro Bukowsk! E claro, ser feliz também é encher a cara. Que fique claro aqui que não vou neste texto assumir a pretensão de definir felicidade. Tampouco dividir felizes e infelizes de acordo com seus hábitos e crenças em duas colunas rígidas. Neste terreno da felicidade, tudo é muito relativo e particular.

O que me preocupa é que ser feliz à toa e por nada saiu de moda. Não ter tudo e continuar sendo feliz pode ser possível. Por que não? Não estou aqui promovendo o conformismo, a alienação ou sendo contrária à luta e à indignação necessárias para o exercício da cidadania. Nada disso! Porque afinal, ser feliz também é lutar pelo que se acredita.  Mas nem sempre a aquisição do objeto de desejo é garantia para a felicidade. Pode sim trazer outros sensações, como: tranquilidade, conforto, prazer. Porém, felicidade, desconfio, tem mais a ver com ser do que com ter.

Falo de uma condição, não de um estado momentâneo gerado por uma resposta positiva do exterior. Falo de uma condição interna. Falo de ser feliz apesar das coisas não estarem muito boas ou no lugar. Eu mesma já vi gente infeliz tendo tudo. E vejo o contrário disto também: gente que não tem nada continuar sorrindo. Falo de ser. Ser feliz também é esperar por aquilo que se acredita, como um semeador aguarda com paciência a semente brotar. A felicidade instantânea que todo mundo busca ao adquirir coisas e pessoas tem outro nome que aqui não quero citar. Uma coisa eu sei: há muita gente oferecendo ternuras para quem possui apenas limitados desejos. Receita fatal para a infelicidade está aí.

Tenho medo ainda da excessiva medicalização da felicidade. Tenho medo de gente reclamando da vida nos consultórios e saindo com receitas, em vez de tentar mudar a vida, seguir seu coração. Tenho medo da ideia de que felicidade é ter corpo perfeito; é ter carrão e apartamento suntuoso; é viajar e tirar foto em monumentos internacionais. Tenho medo quando vejo fotografia-margarina de família feliz enquanto o amor e a paixão foram embora faz tempo.

Felicidade para mostrar e não para sentir: comprovantes falsos de um sentimento que não está ali, quando felicidade muitas vezes depende da coragem de tomar decisões. Nessas horas me vejo-sinto como uma alienígena interior, tendo renunciado a situações que aos olhos dos outros representam a felicidade suprema e que, para mim, são apenas acessórios para uma vida cômoda e tranquila.

simplesmente feliz dancando

Sim, também existe o contrário. Apresento a vocês a sociedade dos extremos! E de repente surge a ditadura da felicidade em outros cantos e não se respeita mais alguém que está triste ou sofrendo com depressão. Eu já vivi alguns lutos sem ninguém ter morrido. Recolhi-me à minha tristeza pontual e fiquei ali quietinha, sentindo minha dor. Os ocidentais pouco sabem disso ainda, ou seja, sobre suportar bravamente uma dor. Há pessoas que quando são flagradas tristes, são açoitadas. Vejo pessoas sofrendo tragédias particulares e outras tantas querendo que elas se ergam rapidamente de suas dores e lágrimas. Cada um tem seu tempo de dor e casulo. Cada um tem seu direito de ser e estar triste; de ser e estar feliz. O que defendo aqui é a autenticidade. É a liberdade de ser e sentir o que quiser, sem rótulos e carimbos.

O que me irrita é alguém ser massacrado por ser feliz ou por ser triste. De não poder ser o que quiser em liberdade. Este texto fala disso. E foi vasculhando a memória que me lembrei de um filme que estreou em 2008 com o título “Simplesmente feliz” do inglês Mike Leigh. Para os que me acompanham nesta coluna, sabem que sempre busco no cinema a arte de explicar a vida. Curto e defendo o cinema como terapia sim! Conheço e leio alguns psicanalistas que fazem uso dessa arte para provocar seus pacientes, chamando-os à plateia a fim de torná-los protagonistas de suas próprias vidas.

Poppy Cross, a protagonista de “Simplesmente feliz”, parece uma boba de tão feliz. Ainda mais quando é colocada no meio de tanta gente carrancuda. Sally Hawkins interpreta Poppy, uma professora de escola primária, otimista e divertida. Atrapalhada e originalíssima. Tanto nas roupas como nas aulas que prepara para seus alunos. Zoe (Alexis Zegerman) é sua melhor amiga, com quem divide o apartamento e suas impressões sobre a vida. Ocasionalmente, Poppy é questionada pelo fato de não ter um marido, filhos e um emprego de grande visibilidade e, mesmo assim, ser feliz. Essa é a grande sacada do filme: não precisar ter tudo o que os outros têm para ser feliz. Não precisar seguir modelos.

O filme traz ainda cenas engraçadas e nervosas, como quando um belo dia Poppy resolve que vai aprender dirigir. Encontra-se então com Scott (Eddie Marsan), um instrutor nervoso e perturbado. As cenas são hilárias com os constantes ataques de riso de Poppy contrastando com os ataques de raiva do instrutor. Já experimentou ter ataques de riso perto de gente carrancuda? Fica mais engraçado ainda. Sem contar as cócegas que sente ao passar pelas mãos de um massoterapeuta assustador depois de uma coluna travada. Sim, pessoas felizes também ficam doentes, travam a coluna e choram. Claro que em menor número. Mas vocês conseguem perceber como a vida nem sempre segue uma regularidade?

Sally Hawkins encarnou muito bem o seu papel, dirigida por Mike Leigh, roteirista e diretor. “Simplesmente feliz” recebeu uma indicação ao Oscar de melhor roteiro Original. Sally, como feliz protagonista, levou o Globo de Ouro de melhor atriz, duas indicações ao European Film Awards, nas categorias de melhor atriz e ganhou também o Urso de Prata como melhor atriz, no Festival de Berlim.

E foi numa daquelas idas despretensiosas ao cinema, que conheci “Simplesmente feliz” e me encantei. Assim, meus queridos, esta é a prova de que a versatilidade do cinema é incrível para tratar de temas variados, como por exemplo, a felicidade.

Um ponto aqui é indiscutível: a felicidade é subjetiva. Porém, às vezes fico pensando que, por conta de protocolos e pressão do mundo, muita gente que pensa que é feliz, na verdade, só obedece a massa. Em contrapartida, suspeito que há tantos outros que não sabem que são felizes. Só saberão quando for tarde demais. E o sumo que tiro desta nossa longa conversa? Que felicidade é ser verdadeiro com você mesmo. Ser honesto de fato com o seu coração.

Poppy em “Simplesmente feliz” lembra uma Amélie Poulain desajeitada e meio brega. Mas cumpre o seu papel enquanto, através de suas falas e gestos, vai apresentando sua concepção própria de felicidade e nos atiça a buscar nosso próprio conceito do que é ser feliz. A busca, repito, é sempre íntima e particular.

simplesmentefelizE assim termino mais uma participação nesta coluna com poeminha do espirituoso Mario Quintana que se torna aqui oportuno:

“Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!”

Um beijo suave e feliz, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

6 thoughts on “Melancolia charmosa ou alegria desajeitada de uma alienígena interior?

  1. Alienígena é você que consegue chegar aos planetas profundo da alma e trazer a tona, o sentimento, questionamento, e o que é melhor de uma forma inteligente, sensível .
    bjs

  2. Mô AMORim uma moça de família quase boa que com seu semblante sereno derrama sementes de amor por onde passa … olhar para a Mô é como “olhar e perceber” uma flor, uma borboleta enfim o belo que a natureza nos oferece e que com a pressa do dia a dia não o percebemos. Talvez não consiga explicar em palavras mas é aquela florzinha que nasce em meio às ervas daninhas, azulzinha, e que milhões de pessoas passam e não percebem, porém você percebe a sua beleza – uma definição minha à essencia da MÕ AMORim.
    Mô que leva o amor embutido em seu nome – você é uma pessoa muito especial (não digo isso à toa) e a cada dia que passa a admiro mais e procuro aproveitar o que de bom você me passa.
    Adorei o texto – falar de felicidade é difícil – mas você com sua simplicidade a definiu bem.
    Eu costumo dizer que é na simplicidade que encontramos a felicidade. Na simplicidade da natureza, do cantar dos pássaros, na flor, nas ondas do mar, no barulho da noite, no cheiro bom da dama da noite, no sorriso de uma criança, enfim tantas coisas que deveriam nos fazer felizes e certamente como você escreveu ser verdadeiro com você mesmo e honesto de fato com o seu coração – o que não é fácil, acho que é uma conquista de cada um – gostei do ser feliz e infeliz você classificar como direitos sublimes.
    Enfim sou uma boba que adora seus comentários, todos.
    Um grande beijo
    Cida

  3. Parabéns MÔ Amorim você merece e muito que Deus te abençoe e que vc continue sendo essa pessoa linda e maravilhosa, que Deus nos deu o privilegio de ter vc por perto, beijos

  4. Para todos que têm visitado esta coluna, eu quero agradecer. É muito prazeroso compor um texto que converse com o leitor. Esta sempre foi minha proposta ao escrever para este site. Eu agradeço pelos comentários postados. Obrigada mesmo. E a você, Cida, que palavras lindas. Eu fiquei emocionada. Muito mesmo. Não sei se mereço. Eu me percebo tão cheia de falhas a cada dia. Bem, só posso dizer, minha querida, que teu carinho provocou minha mudez. Guardarei tuas palavras no meu coração e tentarei ser isso tudo que vc escreveu a meu respeito. Um beijo e continuem comigo. Muito obrigada!

  5. Mô, querida!!!
    Sempre nos trazendo doces e inusitadas reflexões…
    Deu uma saudade da Poppy,.. Porque eu tenho saudade de personagem, alguns vivem comigo!
    Obrigada por trazê-la de volta e poder perceber o quanto sou (somos) “Simplesmente feliz”!!
    Bjim

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