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O Ódio é Cego: Sidney Poitier em grande filme sobre o racismo

Joseph L. Mankiewicz dirige o então jovem astro em trama de tema importantíssimo

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“O Ódio é Cego”, no original “No Way Out”, sem saída, que o grande Joseph L. Mankiewicz dirigiu e foi lançado em 1950, é um filmaço. Um grande filme – e, além disso, um filme importante, marcante. O tema é o racismo; o ódio cego do título brasileiro é o de brancos por negros e de negros por brancos, numa cidade grande dos Estados Unidos – não do Sul Profundo, mas do Norte mais desenvolvido e menos racista.

Eu jamais tinha ouvido falar deste filme. E aqui, antes de mais nada, faço uma rápida digressão. A gente nunca deveria achar que conhece as coisas – porque sempre haverá informações que a gente não tinha. Considero ter razoável conhecimento sobre o cinema americano, em especial dos anos 1930 a 1970. Bastante razoável, até. Mas nunca tinha ouvido falar de “No Way Out” – embora seja de Mankiewicz e tenha no elenco Richard Widmark, Linda Darnell e sobretudo Sidney Poitier.

Foi o primeiro longa-metragem de Sidney Poitier, que estava, em 1950, com 23 aninhos de idade – ele é de 1927. Antes, havia aparecido apenas em três curtas-metragens produzidos pelo Exército americano.

As coisas andam para a frente, a sociedade evolui. Não é na velocidade que gostaríamos, mas anda-se para a frente, melhora-se, evolui-se.

Sidney Poitier é o personagem central deste filme virulentamente, barulhentamente anti-racista, mas seu nome só aparece, nos créditos iniciais, depois do título. Antes do título, como os atores principais, aparecem os nomes de Richard Widmark, Linda Darnell e Stephen McNally.

Não que isso seja um critério racista; não é – é critério comercial. Poitier era um desconhecido, um estreante, Linda Darnell já era grande estrela e Widmark estava em rápida ascensão. Em “Gente Como a Gente” – só para pegar um exemplo, de filme mais recente, e dirigido por um conhecido liberal, progressista, Robert Redford -, os nomes de Donald Sutherland e de Mary Tyler Moore aparecem antes do de Timothy Hutton, que interpreta o protagonista da história, mas era jovem e bem menos conhecido que os atores que fazem seus pais.

Em 1964, 14 anos depois, portanto, desta sua estreia em “No Way Out”, Sidney Poitier ganharia o Oscar de melhor ator por “Uma Voz nas Sombras”. Em 2002 ganharia um Oscar honorário, pelo conjunto da obra – ou, nas palavras da Academia, “por suas atuações extraordinárias e presença única na tela e por representar a indústria com dignidade, estilo e inteligência”.

Qualquer prêmio para Sidney Poitier é pouco. Sidney Poitier é um monstro, um colosso, um herói. Deveria haver estátuas para Sidney Poitier espalhadas pelo país que ele ajudou a tornar menos racista.

Seu Oscar de 1964 foi o primeiro dado a um ator/atriz negro/a. Antes dele, tinha havido apenas um Oscar de melhor atriz coadjuvante para Hattie McDaniel, por sua interpretação de Mammy, a mucama de Scarlett O’Hara em “… E o Vento Levou”. Sidney Poitier abriu o caminho para outros atores que vieram depois, Denzel Washington, Halle Berry, Jamie Foxx, Forest Whitaker. Que haja cada vez mais nomes essa lista.

Sidney Poitier trabalhou em cinco grandes filmes anti-racismo

oódioécego2Eu conhecia quatro belos filmes que são virulentos panfletos anti-racistas estrelados por Sidney Poitier. Em “Acorrentados”, de Stanley Kramer, de 1958, ele e Tony Curtis interpretam dois prisioneiros, um acorrentado no outro, que aproveitam um acidente no veículo que os transportava para fugirem – dois homens que se odeiam, acorrentados um ao outro. Em “Tormentos d’Alma”, de Hubert Cornfield, de 1962, ele interpreta um psiquiatra que recebe a incumbência de tratar de um neonazista, interpretado por Bobby Darin.

Em “No Calor da Noite”, de Norman Jewison, de 1967, Poitier faz um detetive de polícia especializado em crimes de morte que, numa viagem ao Sul Profundo, é preso por um delegado racista, feito por Rod Steiger, acusado de ter assassinado um rico e importante empresário branco. E em “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”, de novo de Stanley Kramer e do mesmo ano de 1967, um casal (Spencer Tracy e Katharine Hepburn) que se tem como avançado, liberal, toma um grande susto ao ver que o noivo que sua filha traz para apresentar em casa é negro.

Há diversos outros filmes que falam de racismo na filmografia de cerca de 50 títulos de Sidney Poitier, como, só para dar um exemplo, “Paris Vive à Noite”, mas esses quatro são especialmente bons – e seu tema básico, principal, é o racismo.

Agora vejo que não são quatro. Com este “O Ódio é Cego”, são cinco.

Racista, o bandido ferido berra que quer ser tratado por um médico branco

Luther Brooks, o protagonista da história, o papel de Sidney Poitier, é um jovem médico que faz residência no Hospital Municipal de uma grande cidade – não se diz o nome dela, o que é a melhor forma de dizer que poderia ser qualquer grande cidade. Ele acaba de passar no exame estadual exigido para que possa clinicar – algo semelhante ao que nós temos aqui na área do Direito, o exame da ordem, e também na Medicina, o exame do CRM –, e sua família está ansiosa para que ele comece a trabalhar na clínica de um conhecido, onde poderá ganhar muito mais dinheiro do que como residente no Hospital Municipal.

Brooks, no entanto, ainda não se sente muito confiante; quer passar mais um ano ali no Hospital, aprendendo mais, pegando mais prática. Ele diz isso quando a ação está bem no início ao chefe da residência médica, o dr. Dan Wharton (o papel de Stephen McNally).

Wharton é uma bela figura. É trabalhador, responsável, bom de serviço, justo. Acha que Brooks é um bom profissional e uma boa pessoa, tem muito apreço por ele, o primeiro residente negro do hospital,.

O Hospital Municipal tem uma ala para presos, para criminosos feridos. Na noite em que a ação começa, um dos médicos da ala para presos faltou, por doença. Wharton manda Brooks para lá, para cobrir a aus~encia do outro médico até que ele volte.

Estamos com apenas uns cinco minutos de filme quando policiais chegam ao hospital conduzindo dois presos. São os irmãos Biddle, bandidos conhecidos pela Polícia; foram pegos assaltando um posto de gasolina, e os policiais atiraram nos dois, nas pernas, para poder imobilizá-los e prendê-los.

Estão deitados em maca, sendo conduzidos para o elevador. O mais falante dos dois irmãos, Ray (o papel de Richard Widmark), cospe no chão ao ver Brooks e manda o homem negro limpar: “Cadê seu escovão?”

E, para o irmão, diz: – “Eu achava que isso aqui era um hospital. Nos misturamos com o Cotton Club!”

Ao saber que Brooks é que cuidará deles, berra que quer um médico branco.

É uma figura em tudo por tudo asquerosa, nojenta, esse Ray.

O bandido morre logo após o médico fazer uma punção

Quando os dois bandidos são instalados em um quarto da ala de presos, Brooks percebe que Johnny (Dick Paxton), o irmão de Ray, parece em estado grave. Certifica-se com o policial que o prendeu que Johnny levou apenas um tiro na perna. Mas vê claros sinais de há algo bem mais grave: Johnny demonstra não ter noção de direção, está um tanto apalermado e não percebe que um cigarro dado por um policial está queimando sua mão.

Brooks suspeita de algo cerebral, e pede instrumentos para fazer uma punção na coluna cervical.

Na cama ao lado, Ray esbraveja, manda que ele tire as mãos negras do seu irmão.

Depois começa a gritar que Brooks está matando Johnny.

Johnny morre logo após Brooks ter feito a punção.

O irmão do morto presencia uma conversa do médico residente com seu chefe

A morte se dá à noite – Brooks fica de plantão a noite inteira. Pela manhã, ele conversa com seu chefe, o dr. Wharton. Questiona se seus procedimentos estavam certos. Wharton diz que muito provavelmente estavam, que muito possivelmente seu diagnóstico de problema cerebral era o correto, mas argumenta que poderia haver outros motivos para a morte que não questões cerebrais – mas insiste em que Brooks procedeu corretamente.

Brooks prossegue no questionamento de suas próprias ações:

– “Existe a possibilidade de que eu o tenha matado. Não existe?”

– “Não seja tolo.”

– “Que eu tenha sido pouco cuidadoso na punção da coluna. De que seu irmão falando mal dos negros tenha me alterado.”

– “Não quero ouvir você dizendo nada parecido com isso aqui dentro novamente. Você é um médico capaz. Você era o médico no comando. Você fez o que achou que era certo e acabou.”

Essa parte da conversa se dá num corredor do hospital. Um homem está sentado num banco do corredor. Wharton pergunta a um funcionário quem é ele – é George Biddle (Harry Bellaver), irmão dos dois bandidos. George é surdo e mudo, mas é capaz de fazer leitura labial, e a essa altura já está contando o que ouviu para Ray, usando linguagem de gestos.

Os dois médicos, Wharton e Brooks, entram no quarto em que está Ray. Ray reafirma que Brooks matou seu irmão.

Quando os dois médicos estão novamente sozinhos, Brooks pede que seja feita autópsia no morto, para tirar as dúvidas. Wharton lembra que naquele Estado só se pode realizar autópsia com autorização de alguém da família, e Ray seguramente não iria permitir. Ou se o diretor-geral do hospital autorizar.

“Sou pró-bons médicos, sejam eles pretos, brancos ou com bolinhas na pele”

O dr. Wharton pedirá ao diretor-geral do hospital, Sam Moreland (Stanley Ridges), que autorize a autópsia.

O diálogo entre os dois é antológico – o que não é de se estranhar, já que Joseph L. Mankiewicz é um dos autores do roteiro, juntamente com Lesser Samuels, e Mankiewicz é um dos melhores escritores do cinema americano de todos os tempos.

Moreland já havia lido no jornal da manhã uma pequena notícia na página policial a respeito da prisão dos irmãos Biddle, e da morte de um deles em circunstâncias não esclarecidas dentro do hospital. Teme que a imprensa investigue o caso, faça furor com o tema, o que seria péssimo para o hospital e para ele pessoalmente, que agora, como administrador, tem que passar o tempo todo suplicando por verbas às autoridades municipais – e o prefeito prefere instalar bebedouros nas praças com seu nome do que investir em melhorias para o hospital, que aparecem bem menos para os eleitores.

Teme que a questão de um médico negro estar envolvido possa piorar ainda mais a situação.

Não que ele seja contra os negros, diz Moreland. Ele foi a favor de aceitar Brooks na equipe, e no ano seguinte vai querer ter mais um negro na equipe, se possível dois.

– “Sou pró-negros”, diz ele.

E então o dr. Wharton diz uma frase estupidamente brilhante:

– “Eu não. Sou pró-bons médicos, sejam eles pretos, brancos ou com bolinhas na pele.”

Moreland não é um sacana, um safado. Ao final desse diálogo fascinante, ele aconselha Wharton a jamais deixar de usar o jaleco branco, trocá-lo pelo terno de administrador. E finaliza assim:

– “Sam Moreland, M.D. (medical doctor, a sigla usada para designar médico). Significa algo diferente agora: Master of Double-talk (mestre em mentira).”

De qualquer maneira, para o bem do hospital, Moreland não admite que haja autópsia. Não quer mexer mais naquele caso – tudo o que quer é aquilo seja esquecido.

Linda Darnell, bela atriz, corpo escultural, faz a ex-mulher do bandido morto

Me alonguei bastante nessa descrição, mas é preciso dizer que tudo isso que relatei acontece nos primeiros 15, no máximo 20 minutos de filme. O drama está apenas começando.

E ainda é necessário apresentar uma outra personagem importante na história – Edie Johnson, a ex-sra. Johnny Biddle, o papel de Linda Darnell.

É o dr. Wharton que descobre que o bandido morto tinha uma mulher. Como esposa, ela poderia autorizar a autópsia, e então Wharton vai com Brooks até o minúsculo apartamento em que ela vive, numa região pobre, degradada da cidade.

Infelizmente para os dois médicos, Edie já não era mais sra. Johnny Biddle: haviam se divorciado algum tempo antes.

Wharton não se dá por vencido, e tenta fazer com que a mulher convença o cunhado, Ray, a permitir a autópsia.

Edie não promete nada aos dois médicos – mas acabará indo visitar Ray no hospital.

Estamos aí com uns 25 minutos de filme.

Um registro sobre Linda Darnell. Hoje bem pouco conhecida, ela teve diversos papéis importantes durante os anos 1940, em filmes de bons diretores: Sangue e Areia e A Marca do Zorro, ambos de Rouben Mamoulian, O Tempo é uma Ilusão, de René Clair, Paixão dos Fortes, de John Ford, Anjo ou Demônio? e Entre o Amor e o Pecado, os dois de Otto Preminger, para citar só alguns.

Era uma mulher bonita, de corpo escultural, e tinha uma presença forte. Morreu cedíssimo, aos 41 anos, num incêndio.

Richard Widmark pedia desculpas a Sidney Poitier por ter dito aquelas frases racistas

Como qualquer outra obra, “No Way Out” tem que ser entendida dentro do contexto em que foi feito. É preciso lembrar sempre que o filme é de 1950; em diversos Estados do Sul, havia leis garantindo a segregação racial; era um apartheid, sem esse nome. As marchas pelos direitos civis, pela igualdade racial só viriam no final dos anos 1950, começo dos 1960. Apenas em meados dos anos 1960 o então presidente Lyndon Johnson sancionaria leis federais garantindo a igualdade de direitos e derrubando as legislações segregacionistas ainda existentes no Sul.

A quantidade de imprecações racistas que há no filme, e o peso delas, é absolutamente assustador aos olhos de hoje. Usam-se dezenas de vezes os termos “negro”, “negroes”, “nigger”, “niggers” – palavras hoje absolutamente impensáveis. Esses termos são acompanhados de todos os tipos de adjetivo – preto sujo, negro fedido.

O IMDb registra que Richard Widmark – um ator que se cansou de fazer papel de vilão, e fez aqui um dos vilões mais sórdidos do cinema americano – deixava claro seu desconforto ao pronunciar aquela montanha de sujeiras racistas. Consta que várias vezes, ao final de um dia de filmagem, ele pedia desculpas a Poitier – e os dois eram bons amigos.

Vários produtores contratados pela 20th Century Fox demonstraram interesse em produzir o filme – Otto Preminger, Sol C. Siegel, Nunnally Johnson. Mas o próprio chefão do estúdio, Darryl F. Zanuck, fez questão de assumir a produção.

Dois pequeninos detalhes: em outubro de 1949, anunciou-se oficialmente que Anne Baxter seria a estrela do filme, no papel de Edie Johnson. Não tenho a informação de que por que ela acabou sendo trocada por Linda Darnell. Em 1950, o mesmo ano deste “O Ódio é Cego”, Anne Baxter faria sob a direção de Joseph L. Mankiewicz “A Malvada”, uma de suas melhores atuações.

O outro detalhinho: o cartaz original do filme foi assinado por um até então desconhecido. Foi seu primeiro trabalho no cinema. Era Saul Bass (1920-1996), que se tornaria o mestre dos créditos iniciais e trabalharia com Hitchcock em “Psicose”.

oódioécegodvdO Ódio é Cego
1950. Drama. De Joseph L. Mankiewicz. Com Sidney Poitier (Dr. Luther Brooks), Richard Widmark (Ray Biddle), Linda Darnell (Edie), Stephen McNally (Dr. Wharton), Mildred Joanne Smith (Cora), Harry Bellaver (George Biddle), Stanley Ridges (Dr. Sam Moreland), Dotts Johnson (Lefty), Amanda Randolph (Gladys), Bill Walker (Mathew Tompkins), Ruby Dee (Connie), Ken Christy (Kowalski).
Preto e branco.
106 minutos.

Sérgio Vaz
Sérgio Vaz

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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