Eu sou do tempo

Gente que quer aparecerOntem eu acompanhei minha filha mais nova até o ponto de parada de ônibus, aqui perto de casa.

Embora inicialmente ela abdicasse da companhia, foi ótimo eu ter insistido, pois pudemos trocar tantas impressões, contar e recontar histórias enquanto o ônibus não vinha…Não vinha. Santos anda assim mesmo. Ou não anda. Ah, como são poderosas essas empresas de ônibus Brasil afora.

Dia desses, eu precisei comprar um carregador de bateria para o meu celular, pois o que eu tinha pifou. Olhe que eu sou cuidadoso! Minha carteira de identidade, não fosse pela foto atrasada, poderia ser dada como tirada na véspera, quando isso aconteceu em sessenta em quatro.

Depois do dono da loja ter testado o novo carregador, enquanto ele fazia o troco, eu comentei sobre a má qualidade de tudo o que se encontra no mercado e ele concordou comigo, lembrando até da geladeira em uso ali, na loja, que ele ganhou de presente de casamento no início da década de oitenta. É tudo assim. É culpa dos chineses…

– Até do que é fabricado aqui?

– Sim, é conseqüência!

Voltando um pouco no tempo; íamos a caminho do ponto de ônibus, quando minha filha pára, abre a bolsa, se apóia no muro de uma casa e desembala um band-aid.

– Está com bolha no pé, filha?

– Não! O sapato – com pouco uso – está trincando dos lados e a rachadura fica mordendo a pele.

Bem, isso foi ontem!

Hoje, há pouco, na sala – aproveitando que ela está em férias e são raras as nossas oportunidades de conversarmos ultimamente – enquanto ela esperava pela mãe, para irem à farmácia e à loja de cosméticos, nós falávamos da qualidade zero das lixas de unhas.  Partira dela a iniciativa de comentar a ausência de durabilidade desse material e eu complemento dizendo que, no caso das lixas de unhas, serve como escusa o fato dos salões de beleza ou manicure usarem as lixas apenas uma vez para cada cliente.

Mas a qualidade é indecente!

Agora eu volto aos sapatos e dizia a ela que o consumismo tomou conta do mundo. Até os mais miseráveis economicamente entram na onda do comprar, comprar qualquer coisa, instigados através da mídia, quando no meu tempo não tínhamos estoques de roupas e muito menos de calçados…Duráveis calçados.

Eu já trabalhava e tinha no armário duas calças, três camisas, um paletó “desparceirado” (não era um blazer), duas gravatas herdadas, alguns pares de meias (umas já cerzidas), meia-dúzia de lenços (não havia homem sem um lenço num bolso das calças ou do paletó), dois cintos, um suspensório, um bom par de sapatos, um par de chinelos, um par de alpargatas (para andar sobre as pedras limosas, nas costeiras) e um par de chuteiras (quando o jogo, entre equipes que tinham camisas, era “calçado”, ninguém entrava em campo sem chuteiras) e uma sunga (saqueira).  A camisa, o calção e as meias, geralmente eram do próprio time.

O par de sapatos era da melhor qualidade, agüentava duas trocas de solas e saltos e, depois, mais duas meias-solas e saltos, antes de “quebrar um galho” e receber uma palmilha de jornal ou papelão, até o próximo pagamento. Usado seis ou sete dias da semana (cinco no trabalho, um em baile e talvez outro no cinema), o único par de sapatos durava bem mais de um ano.

Hoje, além do consumismo desenfreado nos supermercados e magazines, o homem e a mulher, em sua maioria, ainda quer um estoque de roupas e de calçados para “aparecer” diante dos outros.

Aí, quando eu digo que estamos emburrecendo, vocês implicam comigo.

2 thoughts on “Eu sou do tempo

  1. Também passei por tudo isso, amigo. Tive um paletó de Cotellet – não lembro se a grafia é esta – comprado nas “Casas Rouxinol”, que durou décadas.

  2. Somos frutos de uma mesma época, Miro.
    Paletó de veludo comprado na Rouxinol e que durou décadas…Eram outros tempos.
    Hoje, nada é feito para durar, nem mesmo a memória.
    Abração!

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