O filme sobre nada

godivas“Não, diz, o que vês – diz a Branca de Neve ao Príncipe – Através dos teus lábios deduzirei o bonito desenho desse quadro. Se o pintasses, por certo atenuarias habilmente a intensidade da visão. Então, o que é? Em vez de olhar, prefiro escutar”.

Como encarar 75 minutos de filme em o que se vê ou não é o breu.

Sintético o breu e nada abstrato.

Uma proposta audaciosa por certo.

Polêmica?

Merecedora de uma reflexão, sem contornos.

Robert Walser é o autor de “Branca de Neve”, um suiço-alemão, que passou o último terço da sua vida num hospital psiquiátrico, e foi encontrar a morte na neve.

João César Monteiro transfere para a tela, a intensidade do não.

É um filme sobre nada, o branco, sobre a ausência?

Manoel de Barros, poeta brasileiro, partilha dessa ambição do cineasta português João César Monteiro – de entortar os conceitos e fazer-se ouvir.

Com os olhos.

No seu “Livro sobre nada”, diz – “a terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos”.

É Flaubert , assume, que o instiga na direção da “coisa nenhuma”.

“O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852. Li nas Cartas exemplares organizadas por Duda Machado. Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico. Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo. Mas o nada de meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc, etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora.”

Em uma definição menos sensível, nada é 1. Não existência; 2. Pessoa insignificante; 3. Bagatela, inutilidade; 4. Coisa alguma.

Percebem a diferença poética entre o “desútil” do nada e da inutilidade massacrante e constrangedora do escrito no dicionário?

Eu percebo e advogo a favor da poesia.

É de tamanha liberdade poder escrever sobre nada, penso.

João César Monteiro foi um cineasta polêmico, transgressor, e recordo-me com nitidez da época do lançamento do filme em 2000 em Portugal e recordo-me principalmente de pensar, com mais teorias do que hoje porque o tempo da minha existência ainda era pouco, que havia ali uma possibilidade de reflexão.

Uma coceira pensante.

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Impertinente, mas que traz uma sensação de alívio e em última intância de prazer.

“Branca de Neve”, apresenta personagens que não querem serem vistos e naturalmente engolidos de imediato pelos estereótipos do que é belo é bom, e o inverso também se verifica.

Eles são “em cinzentos”, como afirma o cineasta, porque as coisas se encontram, e as cores também.

Em “Metáfora,  Gilberto Gil entoa:

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: “Lata”
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: “Meta”
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Pergunto para sair do branco da página.

“O que cabe na lata do poeta”?

É nada, senhor, é nada.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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