Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos de Fontoura e os limites da biografia

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Gertrude Stein escreveu um livro chamado Autobiografia de todo mundo. Este livro poderia ser um ótimo modelo para as cinebiografias que assolam o cinema brasileiro, porque nele, Gertrude Stein   ao escrever uma biografia às avessas, acaba por demonstrar a impossibilidade não só de uma biografia, mas também de uma autobiografia fora de um campo onde memória e invenção se entrelaçam de um modo irônico e  fantasioso – a biografia para o bem e para o mal é hoje um gênero literário e fílmico. Algumas resultam em belos livros e filmes sobre a impossibilidade de pensar  a vida de um artista através de um  livro ou de um filme, acabam soando como tentativas de fotografar um perfume.

“Somos Tão Jovens”, cinebiografia que narra o período de formação do músico Renato Russo é mais um exemplo dessa impossibilidade: não possui a densidade e ambição épica do filme sobre “Cazuza”, de Walter Carvalho – existem alguns problemas nos dois filmes, talvez  a falta de um grande roteiro. “Somos Tão Jovens” me  pareceu muito mais esquemático, nas inserções de trechos de letras do grupo Legião Urbana nas falas do personagem Renato Russo. Senti falta da figura de Renato Rocha, o negro que fazia parte da banda e que não aparece em nenhum momento. Talvez o maior problema do cinema brasileiro recente seja mesmo a falta de grandes roteiristas, se comparado com outra cinebiografia “Last Days”, de Gus Van Sant, baseado em um período da vida de Kurt Cobain e que, por questões legais, teve de se assumir como uma versão  mais fantasiosa e ficcional do que seus criadores gostariam que ela fosse, mas  com a ousadia de abordar o imenso abismo de incomunicabilidade que o próprio artista tece ao redor de si com o fio dos mitos. “Somos Tão Jovens” até tenta tocar nesse casulo de angústia e melancolia, que também acompanhava Renato Russo, mas soa pueril. Duvido que a época e os personagens tenham sido assim tão pueris, tão novela-das-oito. O filme parece uma refilmagem da série televisiva “Por toda a minha vida”, do capítulo dedicado também ao mesmo personagem e com o mesmo enfoque no período de formação do mito.

Mas nem tudo são equívocos neste filme. A cena em que Renato Russo cria um ritual pessoal de luto para John Lennon é de um lirismo que destoa do resto do filme. Esta cena por si só, já vale o ingresso; a rosa no microfone que aparece em uma cena emblemática do filme e depois encerra o longa aparecendo em uma cena de arquivo foi um outro belo achado. Mas são coisas isoladas dentro de um filme que poderia ter sido mais ousado, se por exemplo adotasse o método da Senhora Gertrude Stein. Leiam o livro dela e entenderão tudo e mais um pouco sobre os limites da biografia , algo que não deveria ter tanta importância assim. Sonho com o dia em que se farão filmes movidos não apenas pelo desejo de agradar a plateia, mas também pela ousadia de surpreendê-la ao adotar pontos de vista  imprevisíveis, inusitados e  fora da lógica publicitária-televisiva. Imaginem como seria o filme se Renato Russo  aparecesse em cena, como o Cristo do  “Ben-Hur”.

Cultura em Santos e região ou mais do mesmo ou a lanterna no fundo do mar devorada pelos tubarões cegos ou da atualidade de Aristófanes

“A cidade e seu esqueleto múltiplo e inevitável, seus animais incendiados e turbilhões de fomes sem fim.”

Cláudio Willer

Tudo o que tenho para dizer sobre o tema já foi dito  na minha coluna anterior, a leitura de “Pluto ou um Deus chamado dinheiro”, de Aristófanes, é capaz de elucidar e iluminar muito mais do que qualquer coisa que eu ainda tenha a dizer sobre um tema tão batido. Esta peça de Aristófanes é uma lanterna no fundo do mar devorada pelos tubarões cegos.  É claro que uma montagem de “Pluto ou um Deus chamado dinheiro” seria como o vento batendo a porta do império dos carguinhos, não estou tão interessado assim em ser absolutamente compreensível, afinal a ditadura está aí, o nazismo psíquico está aí e temos de tomar cuidado – leiam nas entrelinhas o que estou tentado dizer, desde que Patrícia Galvão foi crucificada e bem antes do refrão “Eu só quero é ser feliz, viver tranqüilamente na favela em que eu nasci”  tocar as 2h35 da madrugada na Rádio Saudade FM, bem antes deste eventos pedagógicos, a cultura já estava na UTI da nossa alma. Isso soa um pouco parnasiano demais para parecer trans-pós-tudo.

Calma meus desconhecidos amigos e amigas, a mesma nostalgia paralisante que me obriga a usar o hífen vai apagar todas as luzes antes de instalarmos os interruptores da corrupção e dos esqueminhas.

Eu ia escrever um texto que iria soar menos surrealista e mais psicanalítico, mas a preguiça me pegou no meio do caminho, não foi o suficiente para me iluminar e ela veio sozinha sem o oportunismo galopante e por isso não fui indicado para nenhum carguinho. Eu iria recusar por uma questão de orgulho. Se eu não fosse um negro anarquista e orgulhoso, não estaria escrevendo essa coluna de graça, mas isto foi antes da crucificação de Maurice Legeard, que atenção, não foi nomeado Secretário da varredura das areias da praia do Gonzaga. Aliás proponho aqui para os dois ou três artistas em atividade, esta magnífica performance, vamos todos com vassouras em punho, varrer as areias da Praia como ato metafórico, como evento cultural psicomágico, mas a questão é terrivelmente óbvia, como Michel Foucault que, ao chegar no  Brasil para uma série de palestras, perguntou: “Onde  estão os negros?”, meus pontos de interrogação estão em São Paulo, exilados na megaprovíncia  e a pergunta vai escrita assim mesmo e entre aspas. Como Michel Foucault, que perguntava sem os pontos de interrogação, também pergunto: “Onde estão os artistas do nosso tempo“ e “Onde estão as perigosas e provocadoras obras de arte do nosso tempo?”. Atenção: quem vos fala é aquele que teve dois ou três amores que não deram certo por falta de dinheiro, sei exatamente como esta dama que muitos pensam ser descartável, se sente, esta tal de Cultura, deve achar que estamos todos mortos.

Nota Final: Na qual uma pequena pausa para escrever um livro de contos é anunciada.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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