Trilogia Suja de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez

21432536_4“Trilogia Suja de Havana” é o primeiro livro do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, lançado em 1998 quando o autor tinha 48 anos e escrito entre os anos de 1994 a 1997, quando Cuba passava por uma gravíssima crise causada pelos embargos econômicos que recebia e pela desmistificação do processo político emergido pela revolução de cunho salvador. A edição mais recente aqui no Brasil é pela Editora Objetiva de 2008, com 348 páginas.

O livro é em sua maior parte autobiográfico e mostra uma Havana sucumbida a diversas mazelas e um povo que apesar disso não se rende e continua tocando a vida como pode. Os pobres e miseráveis constituem a maior parte da população nesse momento. Falta tudo. De comida a material de higiene. De água a roupas. O que não falta é rum, maconha e sexo, sendo em cima dessa trinca que o autor desafoga todas as suas desilusões e frustrações.

Dividido em três partes de contos rápidos e organizados de maneira não linear, a “Trilogia Suja de Havana” é um livro visceral, forte e vigoroso. Um livro no qual podemos sentir o cheiro das coisas, ouvir as frases, suar junto com os personagens e dar uma passeada pelo Málecon no final da tarde. Pedro Juan Gutiérrez conduz tudo sem muito estilo, sem muita forma, mas com um charme próprio como se tivesse suas origens na literatura beat.

Em muitos momentos as histórias narradas pelo autor causam um desconforto imenso ao leitor, mas a leitura é tão viciante que segue-se em frente com mais desejo ainda. Tudo aqui é abusado. Sexo, drogas, bebidas, pessoas, sentimentos. Os personagens são todos desempregados e vagabundos que se viram como dá, tocam a vida como trambiqueiros, mendigos, putas, catadores de lixo e vendedores de qualquer coisa, até da própria família se duvidar.

A verborragia do autor transcende os modos normais de apresentação, com uma energia assustadora na busca da sobrevivência e adequação aos novos tempos. Os personagens aparecem e somem sem razão para depois voltarem com menos razão ainda. Debaixo de toda a sujeira que cobre suas narrativas, vez ou outra nos deparamos com a sua visão sobre a vida em geral, uma visão diferenciada que aparece coberta de lama, mas que surpreende.

Em “Trilogia Suja de Havana”, Pedro Juan Gutiérrez cunha um retrato mordaz, autêntico e voraz do seu país e sua principal cidade, versando livremente sobre vários temas que aparecem imersos em sua narrativa como religião, política, relacionamentos, necessidades e desejos. Um livro que em nenhum momento é fácil, mas que tem aquele algo mais que o diferencia do lugar comum e assim lhe torna essencial.

Mais sobre o autor em: http://www.pedrojuangutierrez.com

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

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