Mergulho na sala escura dos sonhos

Minhas Tardes Com Margueritte
Minhas Tardes Com Margueritte

Há quanto tempo você não vai ao cinema? São tantas coisas a fazer antes que a segundona chegue, não é mesmo? E você se vê envolto a inúmeros afazeres, sem quase conseguir respirar. A rotina vai engolindo sua vida, que de vida não tem nada a não ser compromisso e mais compromisso. E é sobre isso que vamos conversar: vida. E sobre a alma que precisa respirar.

Vou confessar a vocês que há vários motivos que me fizeram escolher Santos para viver, as neste texto vou me ater a apenas um deles: os velhinhos de Santos. Não quero que soe desrespeitoso tratá-los assim. A maior parte é mais jovial que muito quarentão que conheço.

Por isso, enquanto escrevo, vou tratá-los de mocinhos e mocinhas da terceira idade, pois é assim que eu os sinto e vejo. Talvez porque muitos deles descobriram o que muita gente ainda não descobriu: que a vida é uma eterna juventude e sempre é tempo de amar, segurar as mãos um do outro e ir ao cinema juntinhos.

Sei que talvez eu mude de ideia quanto a continuar vivendo em Santos. Temo que essa cidade vire um formigueiro de carros tentando chegar a algum lugar. Não sei ainda. Por enquanto, Santos ainda me encanta e me alarga o peito ao pensar em continuar vivendo aqui para tornar-me uma mocinha feliz da terceira idade.

Cartas Para Julietta
Cartas Para Julietta

Para que entendam, eu explico: Santos é a cidade em que eu nasci. É a cidade da memória da minha infância e adolescência. Eu fiquei fora por longos quatorze anos e quando consegui me instalar aqui, nem acreditei.

Eu gosto das ruas e calçadas com folhas espalhadas; gosto de ver as pessoas colocarem cadeiras de praia mesmo à noite para olhar o mar; gosto do centro velho e de seu silêncio antes dos transeuntes chegarem; gosto da fartura de água de coco oferecida na orla; gosto de ver o pessoal correndo e suando mesmo depois das onze da noite; gosto de comer milho verde no pratinho no Gonzaga enquanto olho as lojas; gosto do horizonte flutuante e de ver os navios passando; gosto dos surfistas; gosto dos jogadores de tamboréu e gosto de todas as sensações que esta cidade me dá.

Sou capaz de me divertir sozinha tranquilamente. Como morei no interior de São Paulo, posso falar um pouquinho, por experiência, do que é ver muitos moços de sessenta agindo como se tivessem 130 anos!

Assim, quando eu vinha passear aqui, era justamente o contrário que eu via: mocinhas de 75 anos ou mais, perfumadas e, algumas, de cabelos na cor roxa, indo passear com as amigas ou com companheiros. Andando devagarzinho, delicadamente, caminhando para a fila do cinema. Ninguém mais acha a cena linda?

Sim, nossos mocinhos vão muito ao cinema! Garanto que mais que você e eu. Ou nunca viu vários deles nas bilheterias em nossa cidade? Não adianta falar que por eles serem aposentados têm todo o tempo do mundo. Em outras cidades do nosso país há muitos aposentados que ficam em casa grudados na TV, esperando a visita de um filho ou parente. É sério.

E por que nossos mocinhos e mocinhas da terceira idade escolhem o cinema?

Ah, meus queridos… Cinema é magia, troca de emoção, poesia em movimento, trégua na rotina, mergulho na sala escura dos sonhos.

O Exótico Hotel Marigold
O Exótico Hotel Marigold

Então, antes de você cair naquela de viver de lembranças-memórias que correm em contraposição ao tempo real, vá ao cinema e sonhe! Vá ao cinema e viva!

Sonhe com você, com o amor, com seu personagem preferido.

Sonhe pegando carona na lente de outros. Viaje nas imagens, cenários, diálogos e na música que embala nossas salas de cinema.

Aperte forte novamente a mão de alguém.

A vida é preciosa e pode ser desfrutada com prazer.

Enquanto termino este singelo texto, desejando que sua vida tenha mais vida, penso em tantos filmes inspiradores e que trazem essa magia que nos remoça: “Cinema Paradiso”, “Cartas para Julieta”, “Elsa&Fred”, “Minhas tardes com Margueritte”, “Nunca é tarde demais”, “O exótico Hotel Marigold”, “Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim” e tantos outros.

Ei, psiu… Convide quem você ama para ir ao cinema e vai ver que a vida pode acontecer não apenas nas telas. Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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