O tempo perguntou para o tempo, quanto tempo o tempo tem e o tempo respondeu girimunho

girimunho

Cego
de ser raiz
imóvel
de me ascender caule
múltiplo
de ser folha
aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo

Mia Couto

Quero ser árvore. Quero fincar os meus pés na terra e nutrir-me da seiva, do alimento, da perfeição da natureza. “Girimunho”, documentário de Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina, acolhe-me no escuro com o ritmo frenético e alucinógeno do batuque dos pés na terra e de mãos fortes. É um transe, de um tempo meu, em que a possibilidade de sanidade esgotou-se.

Entrego-me então, sem reservas, ao embalar doce, materno de Bastu e Maria do Boi.

A ansia é tamanha, preciso recuperar o meu tempo na urgência e Bastu ensina-me de pronto e com sabedoria, a primeira lição: Menina, o tempo não para, quem para somos nós.

Bela lição Bastu, mas o que se faz com a angústia de ver-se envolvida em um redemoinho diário e carnívoro?

Sentada no sereno da noite, ela responde-me: “Imagine a vida”.

Penso que posso e para auxiliar na tarefa, fecho os olhos e escuto as risadas largas e gostosas dela e de Maria do Boi. Bocas abertas como a imensidão do oceano, engolindo com satisfação os girimunhos do mundo.

Bastu perde seu Feliciano. Feliciano faleceu e Maria do Boi faz reviver a carcaça da cabeça do boi para que a festa aconteça. Estão, naturalmente, ligadas pelo ciclo da vida e da morte, do fim e do começo.

Feliciano a visita após a morte, mas ela não tem medo. Por que teria, se escuta e compreende os fenômenos naturais bem de perto e sem necessidade de tradução. Maria do Boi até recomenda que se ele aparecer em imagem e espírito, que o abrace e o beije porque o sobrenatural também se acolhe.

Menina, diz Bastu, você me lembra minha neta Branca. Tenho três, duas meninas e um menino, recorda e soma. Como tudo é simples para mim, pergunta em jeito de enigma, se uma é Branca, como será o nome da outra?

De repente, em frente ao Oráculo de Delfos e envolvida no emaranhado complexo dos fios do conhecimento, sinto-me soterrada sem conseguir fazer uma conexão simples e genuína.

girimunho2Bastu, respondo eu, se uma é Branca, a outra deve ser – hesito um pouco, respiro e entrego-me a sorte de minha pitonisa do sertão mineiro brasileiro.

Preta. O nome de sua outra neta é Preta.

O esforço foi do tamanho do seu sertão e não vou arriscar o nome do neto – deixo claro.

Bastu ri e eu observo seus cabelos.

Vou dar um passeio, quer vir comigo? – pergunta-me no susto e me retira do foco. Guardo um relance de fios brancos tecidos em trança em uma cabeça atemporal. Admiro seu cabelo.

Aceito, preciso respirar os ares da infância, do ingênuo. Paramos na casa de Maria do Boi para beber um café fresquinho, daqueles que só o domínio do tempo permite.

O tempo, penso eu, é um bicho indomado, ardiloso e vil. De mansinho vai passando, rodeando, e sem pedir consentimento, dá o bote e fim.

Sandice sua, diz Bastu, a gente não tem começo, nem fim. A gente, menina loura, a gente não é jovem, nem velho. A gente vive, menina.

Menina, a gente vive.

Anoto, palavra por palavra, essa síntese do viver humano e bem ao lado, na outra página do meu caderno, uma frase de Manoel de Barros já lá está. “ O meu quintal é maior que o mundo”.

Leio-a em voz alta e elas sorriem entre um gole de café e outro. Esse Manoel sabia das coisas.

“O futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do atual presente. E basta”.

Luarmina e Zeca Perpétuo são os protagonistas de “Mar me quer”, definido pelo próprio autor, o escritor moçambicano, Mia Couto como “um conto grande ou um romance pequeno”.

Alinhavam às margens do Índico com a linha grossa do tempo, esse diálogo sobre o futuro e questionam-se também sobre o presente e o que já passou.

“A senhora que gosta tanto de aves me responda: penas de pássaro se gastam?

Me “suficiento” com a resposta de Luarmina, mas não resisti a perguntar a uma e a outra. Maria do Boi puxa o fumo do cachimbo e na baforada de fumaça vem a resposta.

Me conta um segredo e faz-me prometer que não irei revelá-lo a ninguém – uma coisa só nossa.

Respeito, assim como o sonho de Bastu de conhecer São Paulo e suas luzes.

Nesse momento, Zeca Perpétuo se aproxima e diz assim:

“Pois, lhe digo, minha Dona. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga”.

E prossegue entusiasmado: “Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual a uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra”.

A tela escureceu. Despeço-me de Bastu e Maria do Boi com um agradecimento eterno pela escuta.

Bastu! – chamo-a antes de partir.

Diga, menina.

Vou seguir seu conselho – vou imaginar a vida.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

5 thoughts on “O tempo perguntou para o tempo, quanto tempo o tempo tem e o tempo respondeu girimunho

  1. Vivi!!
    Também quero ser árvore e seguir imaginando a vida…
    Relato de beleza sem fim. Fico feliz em saber que o mundo ainda é um lugar encantado!
    Girimunho vive em mim!
    Beijos e obrigada,
    Fabi

  2. Quanta delicadeza contida em “Girimunho”, ao abordar uma questão tão humana, tão comum quanto o tempo, que invariavelmente recai sobre todos, sem exceção… E o texto de Vivi, como não é de surpreender, traz sempre um olhar de escritora – que é o que ela também é – e acrescenta ainda mais a uma obra que já tem muito a dizer. Desta vez a coluna não poderia estar melhor. Bravo!…

  3. Viviane, como sempre , um texto emocionante.
    Mia Couto iniciando já dá idéia do que vem a seguir.
    Não conhecia o filme e assim que tiver oportunidade verei, certamente.
    Obrigada pelos momentos que passei lendo suas reflexões.
    Silvia

  4. Vivi!

    A poesia transborda em cada palavra colocada do seu texto, eu acho incrível como você nos transporta para o filme, E que vontade me deu de ver, porque eu tenho ouvido falar dele.

    O que mais me toca são as frases.

  5. Vivi, que olhos delicados os seus a observar com tanta gentileza o mundo que nos cerca e aos seus personagens. Parabens mais uma vez, sou sua admiradora eterna.

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