Minha prece

Pastel-de-feiraEncontrei uma gravação sua. Com seu vestido rosa – cor que você escolheu como sua desde que sua personagem favorita passou a ser a Ranger Rosa, do seriado ‘’Power Ranger’’, que marcou nossa infância com brincadeiras no pátio da escola. Você cobria o rosto com um sorriso, depois com as palmas da mão e, de alguma forma, você era de novo aquela linda menina rechonchuda com quem estudei minha iniciação no mundo escolar.

Vejo estas gravações porque você não está mais aqui, como prometeu com a veracidade de Jesus Cristo ao prometer seu retorno para levar os seus para junto do Pai. Para quem se encontra, um mapa leva a perdição.

Acho que só não me perdi porque encontrei nas orações em  Deus – uma cadência de palavras que me dava a ideia falsa de intimidade com o criador do universo -, não só um ouvinte, mas uma rotina que funcionava como uma terapia. Abrir meu coração com uma verdade proferida da boca de criança ingênua. Uma alegria de periférico ao ver um ônibus vazio.

A Rua Francisco Neves guarda nossos cheiros e todo gosto bom de pastel de feira num sábado de sol, que se mistura a tantos outros cheiros que eu tenho medo que tudo o que sinto ainda vá com eles. Que eu não tenha mais esse sabor de achocolatado Nescau na boca, que cria em mim uma espécie de esperança por saber que algo ainda é doce no mundo.  Ou talvez Deus, que talvez também só exista na minha cabeça, me ajude mais por pena do que por dedicar a mim esse tal amor incondicional que é sinônimo de perdão eterno.

Nossas fotos estão todas coladas na porta do meu armário, onde realizo uma exposição tão intimista quanto os artistas nem tão compreendidos assim da estética contemporânea. Vendendo minhas memórias tão baratas como uma oferta de um camelô apregoando suas mercadorias num vagão de trem.

Carrego a insistência de um protestante em afirmar que ama o mundo, mas esconde seus preconceitos no fundo da alma, lugar onde deveria ser morada de um só amor. Só amor. Oro para que tudo se torne tão leve quanto um gerequinho, a pipa manual que fazia com folhas de caderno quando minha avó se recusa a comprar uma pra mim.

E talvez na infância resida toda força que ainda me sustenta sem você. Sem pegar o ônibus para irmos para faculdade ou para o trabalho. Acordar de madruga e nos encontrarmos já cedinho, na rodoviária de nossa cidade, onde tantos desencontros têm hora marcada.

Queria encontrar você num lugar que não fosse uma lembrança. Meu lugar favorito era aquele que criávamos quando estávamos a sós. Queria morar em nós de novo.

Foi colunista da extinta revista digital Acerto Crítico, do ano de 2000 até seu término em 2006. Foi colunista fixo dos blogs Jovem Repórter e CulturaNI , onde abordava cultura pop, música, cinema e cotidiano cultural da Baixada Fluminense. Escreve contos no seu blog pessoal “Se Nada Mais Der Errado”. Colabora com o CineZen desde 2010. É roteirista por formação – e, por orgulho – da HQ “Cotidiano”, pela editora “Maustouche”. Escreveu o roteiro dos curtas-metragens ” Ainda bem que estamos aqui” e ” Se nada mais der errado”. É autor de “Pequenos botões e grandes blusas”, distribuído digitalmente de forma gratuita.

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